Aliado ao avanço de movimentos ultraconservadores, ganha força pelo mundo o fenômeno das trad wives, abreviação de traditional wives. São mulheres que defendem um modelo familiar baseado em papéis de gênero rígidos, no qual cabe ao homem ocupar a posição de provedor e autoridade, enquanto à mulher é reservado o cuidado da casa, dos filhos e da vida familiar. Nas redes sociais, algumas das representantes mais conhecidas desse movimento transformaram esse ideal em estilo de vida: cozinham, fazem pão, cuidam dos filhos e exibem uma rotina doméstica cuidadosamente construída diante das câmeras.
No Brasil esse imaginário parece ter ganhado contornos próprios. Aqui, a defesa da “esposa tradicional” se encontra de maneira ainda mais explícita com a religião e, em alguns espaços, com a linguagem dos cursos, mentorias e do universo do coaching. Surgem encontros, jornadas e eventos voltados à formação de mulheres apresentadas como “virtuosas”, muitas vezes conduzidos por lideranças religiosas que ensinam o modelo de comportamento feminino idealizado para ser esposa, mãe, parceira e mulher de fé. O resultado é uma imagem que parece saída tanto de antigos manuais de dona de casa quanto de interpretações religiosas sobre o lugar da mulher, mas agora atualizada pela linguagem contemporânea do desenvolvimento pessoal.

É justamente nesse cenário que nasce Virtuosas, filme de terror social q marca a estreia de Cíntia Domit Bittar na direção de um longa-metragem. Com produção da Novelo Filmes e estreia marcada para 24 de setembro nos cinemas, a produção se debruça sobre essas mulheres ditas “virtuosas”, suas relações, códigos de comportamento e contradições, expondo as hipocrisias q sustentam esse ideal.
A Macabra foi convidada para conferir a pré-estreia e a coletiva de imprensa, que contou com a diretora, o elenco, e a produtora Ana Paula Mendes. Sem spoilers, te contamos um pouquinho mais a respeito da produção e o você, leitor, pode esperar ao ir conferir o filme na telona.
Conheça as mulheres virtuosas

Na história, acompanhamos um grupo de mulheres selecionadas para participar de uma imersão exclusiva com uma famosa guru de feminilidade, Virgínia Heinzel (Bruna Linzmeyer). Entre as escolhidas, estão Lorena Canollo (Juliana Lourenção), esposa de um político, que leva com ela seu bebê; Bárbara Rossi (Sarah Motta), que faz conteúdos sobre o universo feminino virtuoso na internet; e Germina (Maria Galant), uma jovem que ainda está começando nessa jornada. Junto delas está a ajudante de Virgínia, Gorete (Brisa Marques), que participou da jornada anteriormente e agora auxilia as novas discípulas.
Durante a imersão, é esperado que as três mulheres aprendam tudo com Virgínia: como se portar, como cuidar da casa, como ser uma boa anfitriã e até mesmo como criar conteúdos relevantes para a internet — como uma aula de crochê para suas seguidoras. Ou seja: Virgínia deveria ensinar tudo para que essas mulheres sejam mulheres virtuosas.

Por trás desse ideal de harmonia, devoção e feminilidade exemplar, há fissuras que Virtuosas faz questão de expor. Com olhar e humor ácido, Cíntia Domit Bittar mergulha nas contradições de mulheres que aderem a um modelo que limita sua autonomia ao mesmo tempo em que o apresentam como escolha, parceria e realização pessoal. Nesse atrito entre discurso e prática, e entre a promessa de uma união perfeita e as relações de poder que a sustentam, o filme encontra algumas de suas provocações mais interessantes.
Confira o trailer abaixo:
Construindo a produção
Durante a coletiva de imprensa, pudemos conhecer um pouco mais a respeito do filme através das palavras da própria diretora, que foi também uma das corroteiristas, ao lado de Fernanda de Capua. Para Cíntia, seu interesse maior em trabalhar esse tema surgiu ainda na pandemia, quando, como afirmou a diretora, com tantos absurdos sendo ditos e expostos, sua raiva e necessidade de falar sobre isso só aumentaram. A cineasta conta que, fascinada por essas vertentes do movimento ultraconservador — assim como é fascinada pelo masculinismo, pelo universo dos coachs e também pretende abordar esses assuntos em projetos futuros —, sua intenção era trabalhar com o tema do negacionismo.

Com a ideia em mente, Cíntia se questionou como a colocaria em prática. A diretora afirma que não queria tratar apenas do movimento antivacina e do negacionismo em si, e queria um contexto para desenvolver os assuntos. Foi justamente nessa época, em que todos estávamos (ou deveríamos estar) em casa, que o movimento das trad wives ganhou mais força: novas influencers do tema surgiram, o assunto ganhou destaque em revistas e jornais internacionais e era frequentemente mencionado nas redes sociais.
Para quem assiste Virtuosas, o filme até se parece meio caricato em algumas situações. Mesmo pelo trailer podemos ver que as atitudes de Virgínia enquanto coach de feminilidade e assuntos femininos parecem até mesmo extrapolar nossas reservas de verossimilhança. Mas, por mais incrível e difícil que possa parecer, Cíntia e até mesmo as atrizes contam como muitos dos diálogos — diálogos inteiros, inclusive — foram transcritos inteiros de conversas que elas ouviram da boca de alguns desses grupos de mulheres. E, caso você tenha contato com algum desses núcleos, mesmo que apenas pela internet, vai reconhecer facilmente algumas frases e trejeitos.

É justamente nessa realidade quase fantasiada de exagero que está um dos maiores acertos do filme. Cíntia conduz essa história de uma forma que podemos começar achando que tudo é muito exagerado, quase uma piada, mas quando nos damos conta que é real demais a forma como aquelas mulheres agem diante do mundo, percebemos também que estamos em uma enrascada. Ficamos na beira da possibilidade: não é possível que esse tipo de comentário, feito por essas pessoas, tenha sido ouvido realmente por alguém; ao mesmo tempo que sabemos que é, sim. E, para a diretora, isso é algo assustador: essa dificuldade que temos de lidar com o que está sendo mostrado em tela, de que aquilo é real e que pessoas assim existem e que levam a vida dessa forma, a assusta.
Pêssego-socorro

Houve uma pesquisa extensa não apenas para trazer credibilidade ao que é dito pela coach ou pelas mulheres que fazem parte da jornada, mas também para que o senso estético do filme conversasse diretamente com esse universo. Cíntia e sua equipe encontraram inspiração em igrejas e centros coach, para dar uma identidade visual a cada uma das personagens.
Para liderar a paleta de cores do filme, a equipe escolheu o salmão: uma mistura de vermelho, a cor que simboliza a paixão, e um cor-de-rosa que simboliza a feminilidade. Entre os membros da equipe, o tom foi apelidado de pêssego-socorro, e pode ser visto ao longo de vários momentos do filme, principalmente na cena de abertura, no auditório, quando as mulheres são escolhidas para fazerem parte da jornada. A diretora chama a atenção, também, para como aquelas mulheres, paradas, podem parecer homogeneizadas diante da audiência, e que isso, na verdade, é um elemento característico dessas organizações, e que a busca da homogeneização foi, em certo sentido, para destacar ainda mais as diferenças dessas três mulheres escolhidas dentro dessa semelhança.

Muitos desses detalhes podem ser vistos ainda no trailer, mas é no filme que eles brilham e ganham espaços e contornos ainda mais detalhados, conduzidos pela mão confiante da cineasta e das atrizes, que colocaram muito de suas vivências na criação dessas personagens. Ao serem questionadas sobre como se prepararam para seus papéis, por exemplo, Sarah Motta, que interpreta Bárbara, uma das virtuosas escolhidas para a jornada, contou como se inspirou em sua própria trajetória dentro de vários grupos cristãos quando era mais nova, e como isso a fez construir camadas para sua personagem.
Ataques e reações
Como o filme já rodou alguns festivais, algumas pessoas já o conferiram antes de entrar para o circuito comercial. E, claro, as reações foram variadas, ainda mais tratando de um tema tão em alta e tão delicado, que inflama tanto o humor de certos grupos. Cíntia conta que já esperava os ataques, mas que foi pega de surpresa mesmo pela receptividade positiva que observou em alguns grupos que, para ela, seriam contrários ao filme.

A cineasta explica esse destaque bem-sucedido ao fato de que algumas lideranças também estão preocupadas com alguns rumos que determinados extremismos estão tomando. Ao receber elogios de lideranças cristãs, Cíntia percebe como, mesmo dentro da própria igreja, alguns líderes têm consciência de que esses discursos podem ser elitistas e extremamente complicados para a realidade em que muitas mulheres vivem, e que afastam o verdadeiro propósito da igreja.
Virtuosas, como elaborado pela cineasta, sua equipe e seu elenco, não é apenas um filme sobre as mulheres ultraconservadoras, o movimento trad wife e esses extremos; o filme fala principalmente das hipocrisias que podem ser enxergadas no ultraconservadorismo, fala das falsas lideranças e da repressão, mostrando como essa busca por uma (falsa) perfeição leva à angústia e às atitudes desesperadas.
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Virtuosas, de Cíntia Domit Bittar, chega aos cinemas em 24 de setembro. E você, ficou curioso para conferir? Comente com a gente no Instagram e em suas redes sociais.

