Sonhos, cabras e pesadelos

Num calor dos infernos de uma quarta-feira de cinzas, o vento soprava. Cortando o Vale das Sombras, o Reverendo e as Pastoras guiavam as cabras. Ao longe, colinas verdes e fartas. Abaixo de vossos pés, um solo duro e escuro. O vento escaldante calou-se por um segundo. E ali fincaram seus cajados.

As cabras arregalaram os olhos vermelhos e perguntaram: “Minhas queridas Pastoras, meu querido Reverendo, nós não deveríamos ir para o lado mais verde da colina?”.

Uma das jovens Pastoras prontamente respondeu: “Aqui nós ficaremos e alimentaremos a terra seca com nosso sangue”.

As cabras, espantadas, silenciaram com o vento.

E a jovem Pastora completou: “Não tomaremos a terra de ninguém, faremos desta terra o sonho de todos”.

As cabras olharam ao redor e não avistaram um único pasto. Perguntaram então ao Reverendo: “Querido Reverendo, mas como vamos nos alimentar? Sem água e sem comida, não conseguiremos sobreviver por muito tempo”.

O Reverendo olhou para cada uma e perguntou: “Minhas queridas cabras, vocês sentem fome e sede agora?”.

As cabras responderam em uma só voz: “Sim, Reverendo, sentimos muita fome e muita sede”.

O Reverendo e as demais Pastoras sentaram-se na pedra mais alta do descampado, dobraram as mangas de suas camisas pretas e falaram de forma imponente: “Vocês são os verdadeiros herdeiros. Aproximem-se”.

A Pastora mais velha do grupo abriu sua bolsa surrada, apanhou o canivete enferrujado, esticou o braço e fez um profundo corte no próprio punho, desencadeando a mesma ação entre todas as pessoas do grupo. Olhando para cada cabra a sua frente, o Reverendo e a Pastora ordenaram: “Agora, alimentem-se. Bebam tudo. Saciem-se. Até enxergarem o que nós já conseguimos ver de tão mágico e incrível nestas terras secas e escuras”.