O mundo de sonhos e pesadelos de David Lynch

Conheça a carreira de um dos maiores cineastas de todos os tempos e mergulhe em sua mente macabra.

Twin Peaks, Eraserhead, Veludo Azul, Cidade dos Sonhos… O gênio criativo David Lynch já nos presenteou com várias obras impactantes, originais, perturbadoras, assombrosas, mas principalmente oníricas. O mundo de sonhos e pesadelos de David Lynch é como sua cidade de Twin Peaks: misteriosa e cheia de possibilidades. 

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Lynch nasceu em 20 de janeiro de 1946, em Missoula, Montana. Passou a infância viajando e morando em diversos lugares dos Estados Unidos. Sua primeira paixão foi a pintura, o que fez com que se especializasse na arte e viajasse até a Europa para se inspirar. Quando voltou aos Estados Unidos, retornou aos estudos e começou na  Academia de Belas Artes da Pensilvânia. As artes plásticas estão diretamente ligadas ao seu trabalho, algo que percebemos em seus cenários, escolhas de direção e ambientação, tudo isso interligado por trilhas sonoras marcantes e sedutoras. 

Início da carreira

Seu primeiro longa foi Eraserhead, em 1977, mas antes já havia trabalhado com curtas, como Sailing with Bushnell Keeler (1967), The Alphabet (1969), A Avó (1970) e The Amputee (1974). Foi com Eraserhead, entretanto, que Lynch se tornou mais reconhecido. O filme não fez tanto sucesso no lançamento, mas logo se tornou um cult e ainda hoje figura nas listas de filmes indispensáveis. Em Eraserhead, Henry Spencer (Jack Nance) precisa lidar com diferentes aspectos complicados de sua vida, incluindo um bebê recém-nascido mutante. 

Apesar de ser considerado um filme “difícil”, acabou se tornando um favorito de muitos diretores famosos do período. Conta-se que Stanley Kubrick fez com que o elenco de O Iluminado assistisse Eraserhead para conseguir filmar um longa de terror. John Waters, diretor de Pink Flamingos, geralmente menciona o filme entre os que mais gosta. Está entre os favoritos do artista plástico H.R. Giger e do escritor Charles Bukosvski. 

Foi após ter assistido Eraserhead que Mel Brooks sugeriu que David Lynch dirigisse outro dos seus grandes sucessos, O Homem Elefante. Produzido por Brooks, foi lançado em 1980. Em O Homem Elefante, conhecemos a história de um médico vitoriano, o Dr. Frederick Treves (Anthony Hopkins), que ajuda um homem desfigurado chamado John Merrick (John Hurt), que sofre diversos maus tratos enquanto trabalha em um circo de aberrações. O filme é baseado na história real de Joseph Merrick, que sofria de uma doença grave que causava desfigurações e viveu em Londres no final do século XIX. O Homem Elefante foi um sucesso muito maior que Eraserhead em relação à crítica, e foi indicado a oito categorias do Oscar, incluindo melhor ator (para John Hurt), melhor filme e melhor direção. 

Em 1983, Lynch começou a escrever uma história para uma tirinha de jornal chamada The Angriest Dog in the World, sobre um cão que sentia tanta raiva que não conseguia se mover. Entre os anos de 1983 e 1992, a tirinha foi publicada em jornais alternativos como Village Voice, Creative Loafing e outros. Nessa época Lynch também começou a se envolver com a fotografia e a percebê-la como uma forma de arte.

O desastre de Duna

Após Eraserhead e O Homem Elefante, George Lucas chegou a oferecer para Lynch a direção do terceiro filme de Star Wars, O Retorno do Jedi, mas Lynch recusou afirmando que Lucas deveria ele mesmo dirigir seu filme, e passar sua própria visão do que gostaria de mostrar.

Algum tempo depois ele teria outra oportunidade de dirigir um filme de uma grande saga, com um orçamento bem superior ao que tivera até então. Aproveitando o aparente sucesso de Lynch, o diretor foi convidado por Dino De Laurentiis, da produtora De Laurentiis Entertainment Group, para a adaptação para o cinema de Duna, clássico da ficção científica escrito por Frank Herbert. O acordo contratual feito por De Laurentiis e Lynch dizia que, além de Duna, ele ainda teria que fazer outros dois filmes para a produtora.

Duna conta a história de Paul Atreides, em um futuro distante, chegando no planeta de Arrakis. Seu pai é um governante poderoso dentro da organização galáctica e várias pessoas planejam destruir a família de Atreides. Arrakis é um lugar seco e deserto comparado com o planeta de origem de Atreides, que deverá lidar com a traição contra seu pai e os perigos que ele mesmo está correndo. Kyle MacLachlan foi escalado para o papel de Paul, enquanto Francesca Annis fez sua mãe, Lady Jessica, e Jürgen Prochnow interpretou o Duque Leto Atreides. 

De Laurentiis esperava que o sucesso de Duna se equiparasse ao de Star Wars, afinal eram duas sagas épicas, com paisagens espaciais e intrigas de governo, e Duna ainda tinha o escopo dos fãs do livro para ajudar nessa realização. Mas nada saiu como o planejado. Em partes, porque a história contada por Herbert em Duna tem uma série de detalhes que são difíceis de serem contados em um único filme. A produção ainda passou por uma série de cortes que condensaram ainda mais o plot. O filme foi um desastre e perdeu milhões de dólares. Algum tempo depois a Universal resolveu relançar o filme para televisão, com uma nova narração e uma hora a mais de conteúdo, notícia que Lynch não recebeu muito bem e retirou seu nome como diretor. Como roteirista, deixou o nome de Judas Booth, um pseudônimo para demonstrar como se sentia traído.

Pós-Duna

Não demorou muito para que Lynch se recuperasse do baque de Duna, para nossa sorte. Logo em 1986 outro longa de Lynch é lançado. Em Veludo Azul, acompanhamos a investigação de um jovem, Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachlan), após encontrar uma orelha decepada. A investigação o leva até uma misteriosa cantora de uma casa noturna, Dorothy Vallens (Isabella Rossellini). 

Veludo Azul era um projeto antigo de Lynch, que vinha pensando em seu conceito desde 1973. Um trabalho mais pessoal que entrou no acordo feito com De Laurentiis para os outros dois filmes do diretor em sua produtora. Apesar de De Laurentiis ter adorado Veludo Azul, as primeiras apresentações do filme não trouxeram muita empolgação. Lynch não queria mais saber de grandes projetos, mas, graças ao falatório de O Homem Elefante e do próprio Veludo Azul, Lynch acabou mergulhando cada vez mais no meio mainstream de cinema, e recebeu sua segunda indicação ao Oscar. 

É neste momento que Lynch também parte para uma carreira televisiva. Em 1988, dirige o episódio “The Cowboy and the Frenchman”, da série Les Français vus par

Cafés e Tortas de Cereja

Foi por volta de 1990 que Lynch conheceu Mark Frost. Inicialmente ambos queriam fazer uma biografia de Marilyn Monroe, que não deu certo. Em seguida, começaram a trabalhar em um roteiro de comédia, que também não avançou. A ideia de um cadáver encontrado em uma praia surgiu enquanto os dois tomavam café. O café e esse cadáver acabaram por ligar para sempre estes dois produtores em um dos projetos televisivos mais extraordinários já vistos.

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Twin Peaks acompanha o agente especial Dale Cooper (Kyle MacLachlan) tentando descobrir quem assassinou Laura Palmer (Sheryl Lee). Ele viaja até a cidadezinha de Twin Peaks, um local pitoresco e com incidentes bastante estranhos, e lá se envolve em uma teia de mistérios que parece não ter fim. 

E quase não teve mesmo. Depois de duas temporadas no ar, o final da série foi apressado para que terminasse logo. Uma das promessas finais de Laura Palmer se concretizou, e 25 anos após o término da segunda temporada, Twin Peaks retornou em um lançamento mundial estrondoso (2017) para agraciar os fãs.

Além disso, Lynch também fez um filme que serve como prelúdio para a série, dessa vez sem Mark Frost. Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer, de 1992, contou com um elenco de peso que não chegou a participar da série, como David Bowie, que participou como agente especial. O filme não tinha intenção de colocar um ponto final na história da cidadezinha excêntrica, mas ajudou a manter os fãs aguçados.

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Twin Peaks foi um fenômeno, atingindo grandes notas da crítica e mantendo a atenção dos fãs. Mesmo depois de todos esses anos, Twin Peaks seguiu fazendo novos espectadores que aguardavam com ansiedade os capítulos finais da saga de Dale Cooper. Lynch apareceu em alguns episódios como o agente especial Gordon Cole, e dirigiu parte dos episódios das duas primeiras temporadas, mas escolheu cuidadosamente outros diretores para esse trabalho, para que seguisse adiante com outros projetos.

Coração Selvagem, Cidade dos Sonhos e outros projetos

A lista de trabalhos de Lynch é longa, mas outros dois trabalhos merecem ser mencionados. Coração Selvagem, de 1990, é baseado no livro de Barry Gifford Wild at Heart: The Story of Sailor and Lula. Um amigo de Lynch, Monty Montgomery, lhe deu o livro dizendo que queria fazer uma adaptação dele. Lynch questionou, então, se ele se apaixonasse pelo livro e ele mesmo fizesse uma adaptação, ao que Monty concordou. Coração Selvagem é uma história de violência, crime e uma road trip entre um casal apaixonado, protagonizado por Nicolas Cage e Laura Dern. O filme ganhou o prêmio Palma de Ouro no Festival de Cannes.

Durante o final da década de 1980 e início de 1990, Lynch trabalhou com comerciais para a TV e outros projetos semelhantes. Ao longo da década de 1990, e após o cancelamento de Twin Peaks, Lynch se envolveu com outros seriados, nenhum de relativo sucesso.

Inicialmente Cidade dos Sonhos foi vendido como uma série para a ABC, e mesmo tendo recebido sinal verde para avançar e gravar o piloto, o projeto foi para a estante. Mas Lynch recebeu um financiamento da produtora francesa StudioCanal, e conseguiu gravar o piloto como um filme. Cidade dos Sonhos é protagonizado por Naomi Watts, Laura Harring e Justin Theroux, e narra a história de duas mulheres uma sobrevivente de acidente de carro que ficou com amnésia, e outra que descobre que sua vida é cheia de histórias mal contadas que, unidas, tentam encontrar a verdade sobre suas próprias vidas. Com Cidade dos Sonhos, Lynch ganhou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes.

Um artista de multitalentos

Como pode ser percebido até aqui, Lynch é um artista competente e com um longo currículo. Ainda hoje Lynch produz curtas e possui um canal do Youtube, onde posta previsões do tempo e sorteia números aleatórias, e também engana seus fãs dizendo que tem anúncios importantes a fazer — da última vez, no dia 31 de janeiro, Lynch avisou que faria um grande anúncio no dia seguinte; mas o anúncio, revelado dia 01 de fevereiro, na realidade, era só para avisar que ele seguiria com as previsões e os sorteios de número.

Além de um grande diretor e um sempre atento espectador do clima, Lynch também fez diversos trabalhos em outras categorias de artes. Inicialmente, Lynch entrou no mundo artístico através das pinturas. Para ele, suas pinturas precisam ser “feitas de forma violenta, primitivas e rudes, e para isso tento deixar a natureza pintar mais do que eu”. Misturando as cores e as palavras, Lynch já teve algumas exposições em seu nome, como na Fundação Cartier para a Arte Contemporânea, e na instituição em que iniciou seus estudos, Academia de Belas-Artes da Pensilvânia.

A música é outro meio de expressão para Lynch. Geralmente atrelados a seus projetos fílmicos, seus álbuns são de rock experimental e, mais recentemente, músicas eletropop. Já lançou livros sobre seu processo criativo, já se uniu a arquitetos e criou designs tanto para peças em seus filmes quando para uma boate em Paris, chamada Silencio.

A excentricidade de Lynch e o ar onírico de suas obras se tornaram marcas registradas de seu trabalho. Seu trabalho é amado e referenciado ao redor do mundo, seja na direção ou nas tantas outras artes que se propõe a apresentar, e segue fazendo sucesso com seus fãs, antigos e novos. Lynch é uma das grandes almas do cinema moderno, e esperamos que muitos projetos ainda sejam realizados.

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Acordo cedo todos os dias para passar o café e regar minhas plantas na fazenda. Aprecio o lado obscuro da arte e renovo meus pactos diariamente ao assistir filmes de terror. MACABRA™ - FEAR IS NATURAL.