A necessidade de diálogo é a origem do curta Pele de Monstro

Em um curta de 20 minutos, estudantes da Universidade Federal de Juiz de Fora comparam situações de racismo com filmes clássicos de terror dos anos 60.

* Texto especial da diretora do curta, Barbara Maria

Depois de anos assistindo histórias de monstros na televisão, como Família Addams, Família Monstro, Edward Mãos de Tesoura, e Power Rangers (OK, esse último parece meio estranho, mas juro que foi algo importante), parei para pensar se essas coisas tinham algo em comum.

Entre uma reflexão e outra acabei percebendo que se tratava de personagens que só queriam saber de viver a própria vida, mas que tinham uma aparência que acarretava um mau julgamento. A vespa de Power Rangers no Espaço, o Notacon de Power Rangers: Força do Tempo e o Edward eram super bonzinhos, mas essa bondade era sempre questionada por eles não se enquadrarem no perfil que um ser agradável deveria apresentar, enquanto as famílias Addams e Monstro eram gente (ou monstros) finíssima, e apesar dos gostos um tanto quando extravagantes eram um ótimo exemplo de como uma família deveria se tratar mas ninguém nessas histórias pensava nisso quando se deparava com um bando de criaturas esquisitas.

Encontrei uma relação nisso tudo com a minha vida e a partir disso um trabalho que seria teórico acabou se tornando meu primeiro filme.

Barbara Maria, diretora de cinema

Pele de Monstro foi meu trabalho de conclusão do Curso de Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Foi meu jeito de colocar várias coisas que eu sentia pra fora, mas eu também queria achar outras pessoas que se sentissem da mesma forma, daí veio a ideia de fazer um documentário. Os monstros que eu mencionei sempre surgiam no meu pensamento quando acontecia alguma situação relacionada a algum estereótipo que eu carregava por causa da minha aparência, racismo.

Durante a faculdade comecei a perceber algumas coisas que doeram um pouco. Minha turma apesar de pequena (cerca de 9 pessoas), não tinha alguém igual a mim, o que eu só percebi de fato quando alguns estereótipos chegaram. Quando eu demonstrava meu descontentamento com algo, era lida como alguém muito brava, quando não demonstrava nada, eu era tolerada. Eu me sentia um monstro que nem aqueles que eu gostava: apreciada nas vezes que podia ser útil, alguém elogiava o volume do meu cabelo de vez em quando, mas se eu manifestasse… os estereótipos estavam vindo pra me pegar. Tenho amigos dessa época que não me tratavam assim, mas me sentia muito deslocada.

Como eu queria encontrar pessoas que se sentiam do mesmo jeito que eu, precisava fazer uma experiência. Essa experiência consistia em chamar uma plateia para assistir um filme e filmar a reação deles. Como eu não sabia se algum trecho dos filmes assistidos entraria no documentário, acabei optando por algo de domínio público. Dois filmes foram escolhidos: A Noite dos Mortos-Vivos e Mortos que Matam. As sessões aconteceram no próprio estúdio da faculdade e a ideia era bem simples: uma câmera em cima da TV para filmar a plateia. Chamei uma galera que estivesse disposta a assistir, expliquei isso antes da sessão e exibi o filme. Terminado, enviei um questionário eletrônico pra eles.

Os filmes escolhidos, apesar de serem da mesma época e com uma temática parecida, pra mim só tinham em comum o sentimento de solidão. Em A Noite dos Mortos-Vivos, Ben era o único como ele e mesmo sendo um cara incrível, essa diferença fez ele ser questionado e levar o fim que levou. Em Mortos que Matam, o Dr. Morgan estava na mesma, mas em vez de tentar conviver pacificamente com os “novos” moradores da sua cidade, ele acabou optando por persegui-los. Uma coisa que me marcou muito nesse filme foi ele usar espelhos para espantar os zumbis, pois é quase uma tortura saber que sua imagem não é algo aceito e/ou que várias coisas ruins estão relacionados a sua imagem. E também a sua última frase “Eles tinham medo de mim”. Quantos negros já foram/são/serão mortos por causarem incômodo e medo. Já se passaram mais de 50 anos desses filmes. É um pouco assustador pensar o quanto deles ainda é atual.

Algumas sessões, horas assistindo o material e questionários depois, chamei meus escolhidos para uma entrevista.

Participantes do curta Pele de Monstro, dirigido por Barbara Maria

As entrevistas também aconteceram no estúdio da faculdade, o equipamento também era do estúdio mas surgiu uma greve durante o período das gravações. Conseguimos uma autorização para usar o espaço, mas não podíamos ter acesso ao equipamento, então o jeito foi apelar pros amigos e pedir emprestado. Eu não tinha um tostão pra fazer o filme. Tudo foi feito com muita boa vontade da equipe, coisas emprestadas, um HD que eu ganhei da minha mãe e uns bombons que comprei pra agradecer que foi assistir a sessão.

A fotografia das entrevistas ficou por conta do meu orientador, Christian, e do Caio, que também filmou as entrevistas, me ajudou na edição e corrigiu o som e a cor.

Depois de pronto, o filme passou por diversos festivais e quando eu digo diversos, é diversos mesmo porque acabou que ele pode ser englobado numa variedade de temas: terror, documentário, cinema negro, primeiro filme, curta metragem, filme universitário, direitos humanos e filme dirigido por uma mulher. Confesso que não tinha pensado nisso antes de começar a inscrevê-lo nesses festivais mas fico feliz com isso pois possibilita que a mensagem seja passada pro maior número de pessoas possível. Ganhei 3 prêmios com ele, o Prêmio Luzes da Cidade , no Festival Primeiro Plano, de Juiz de Fora, MG, em 2017, o prêmio do Bloco Olhar da décima edição do Entretodos, em São Paulo, SP também em 2017, e o primeiro lugar na categoria documentário revelação na Mostra Espantomania, em Grajaú, SP em 2019.

O filme já tem quase 3 anos, e hoje em dia está disponível no canal do Youtube do Canal Curto (canal de curtas universitários organizado pelos alunos da USP).

Fiquei muito feliz por ter feito essa produção pois vejo o documentário como um jeito de dar voz pra alguém, e considero essa atitude muito importante vinda de quem tem/teve alguma oportunidade ou um privilégio. Uma das coisas que descobri lendo sobre A Noite dos Mortos-Vivos foi que o Duane Jones convenceu o George Romero de que o melhor pro filme seria o Ben terminar morto. Isso é muito forte quando analisamos o contexto da época do filme e também quando nos deparamos com um ator negro num filme como esse, mesmo que ele tenha sido escolhido pela sua audição e não pelo seu perfil, a coisa muda de figura. A maioria dos materiais que eu consultei sobre os filmes era inglês. Não existe quase nada em português sobre o assunto, mas espero que isso mude pois de certa forma isso reflete a nossa realidade.

Por fim, gostaria de fazer um momento Xuxa Park e agradecer a todo mundo que deu apoio para que esse filme saísse (quando assistirem, reparem que a lista de agradecimentos é enorme), em especial a essa equipe maravilhosa: Ariel, Caio, Christian, Jéssica, Luiza. E os entrevistados, que foram essenciais: Eric, Isabelly, Maurício, Letícia, Paula e Yago. E também gostaria de agradecer a Macabra pela oportunidade e dizer que estou empolgadíssima com o lançamento em português do livro Horror Noire: A Representação Negra no Cinema de Terror, que com certeza contribuirá e muito com a visibilidade que esse assunto tanto precisa.

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Publicado por

Barbara Maria

Nascida em Três Rios (RJ) em 1993, graduou-se em Artes & Design pela Universidade Federal de Juiz de Fora (U.F.J.F.) em 2014, e em Cinema e Audiovisual em 2017. Esteve na equipe de algumas produções universitárias como assistente de produção e figurinista e dirigiu seu primeiro filme, o documentário “Pele de Monstro”, em 2016.