Afinal, o que é a realidade?

Conheça 9 filmes de terror surreal que questionam a realidade e brincam com o que estamos vendo.

Você já se perguntou se o que estava vendo era algo real ou apenas um sonho? Se uma situação era tão absurda que você simplesmente não podia acreditar que ela estava acontecendo de verdade? Imagens tão estranhas que se tornam desconfortáveis e esse desconforto todo logo entra no terreno do medo. 

Lovecraft certa vez disse que o maior medo é o medo do desconhecido, e apesar de ele apresentar essa frase em um contexto muito objetivo de sua vivência — principalmente em relação às culturas das quais não estava familiarizado, como bem sabemos —, essa frase se aplica de muitas formas a outros cenários. Um desses cenários é, talvez, o desconhecido que faz fronteira com o não entendimento: o pesadelo, o sonho, o psicológico, o inconsciente. 

Como bem descreve o site TV Tropes, é comum, e até coerente, termos medo de monstros, serial killers e outros horrores mais palpáveis. O problema começa quando o horror surge do incompreensível. Nas palavras da entrada de Surreal Horror no site: “advém do pesadelo de uma forma literal, sendo, então, surreal, desconexo, parecendo saído de um sonho e repleto de imagens bizarras, dizendo adeus a toda a lógica e sanidade no processo”. 

Não estamos falando da lógica que acompanha os filmes de ficção científica e fantasia, onde aquela realidade está de acordo ao que está havendo: se certa história de fantasia envolve dragões, então é normal que haja dragões voando; se determinada história de ficção científica envolve robôs, então tudo bem que robôs caminhem com os humanos. 

Mas e quando uma história apenas retrata um dia a dia comum que, de repente, é tomado por uma situação completamente absurda? Como, por exemplo, uma jovem encontrada morta, boiando no rio e enrolada em plástico, e um investigador que adentra um cômodo de cortinas vermelhas e se vê diante da jovem morta? 

O terror surreal brinca com a realidade, nos fazendo questionar, inclusive, o que é a realidade, afinal de contas. Isso está acontecendo com os personagens no mundo desperto? É um sonho? Por que todos seguem com suas vidas como se algo aqui estivesse fazendo algum sentido? O que esta lhama está fazendo em uma delegacia de polícia?

Cooper e uma lhama em Twin Peaks

O terror surreal nos faz questionar até onde a realidade é mesmo tangível, o que os sonhos nos dizem quando estamos acordados e qual a diferença para quando estamos dormindo, e onde é o limite entre o estranho, o grotesco, o aterrorizante e o absurdo. A Macabra traz uma lista com 9 filmes de terror surreal para você maratonar — se aguentar tanta maluquice, claro.

Begotten

Begotten, 1989 // E. Elias Merhige não fez muitos filmes ao longo de sua carreira, mas ficou conhecido por dois deles que são, no mínimo, muito singulares. Seu primeiro longa foi Begotten, que é o que trataremos aqui. É até difícil dizer a respeito do que é Begotten, mas um usuário do IMDb escreveu a seguinte sinopse: “Deus se estripa com uma navalha. A Mãe Terra, semelhante a um espírito, emerge, aventurando-se em uma paisagem desolada e árida. Tremendo e encolhido, o Filho da Terra é atacado por canibais sem rosto”. É… complexo e complicado. O outro filme pelo qual é conhecido é A Sombra do Vampiro, a respeito dos bastidores de Nosferatu, do Murnau — John Malkovich interpreta o cineasta, enquanto Willem Dafoe interpreta Max Schreck, o ator que deu vida ao Conde Orlok no filme de 1922.  

Eraserhead

Eraserhead, 1977 // Não poderíamos falar sobre qualquer coisa que envolve surrealismo sem colocar David Lynch na jogada. Levando em consideração que o referenciamos duas vezes na introduções, nos perguntamos qual seria sua melhor obra para colocar aqui, nessa lista. Cidade dos Sonhos, Veludo Azul, Império dos Sonhos, Estrada Perdida… e, claro, principalmente Twin Peaks, poderiam ser escolhas tão boas quanto Eraserhead. Mas, pensando em imagens saídas de um sonho (ou pesadelo) e de confusão mental, julgamos que Eraserhead seria a melhor escolha. Na história, Henry Spencer, um operário de uma fábrica, se descobre pai de uma criatura deformada. Sua namorada, uma jovem bastante infeliz, então, vai morar com ele, mas ambos quase enlouquecem com o choro da “criança”. 

O Parque Macabro

Carnival of Souls, 1962 // Hoje em dia é bastante comum vermos o recurso “isso nunca aconteceu, apenas na mente da personagem” ou “tudo não passou de um sonho”, mas, nos anos 1960, isso ainda não era tão difundido. O Parque Macabro, de Herk Harvey, acompanha a história de uma mulher que, após sobreviver a um acidente de carro, decide se mudar e começar a vida em uma nova cidade. Lá, porém, passa a ser perseguida por uma estranha visão, e começa a se questionar sobre o que é a realidade — ou, ao menos, qual é a sua realidade. 

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A Hora do Lobo

Hour of the Wolf, 1968 // O único filme de terror de Ingmar Bergman deixa a todos — até mesmo seus personagens — se questionando a respeito do que é real e o que é imaginário. Na história, Johan Borg (Max von Sydow) e sua esposa grávida Alma (Liv Ullmann) vão até uma ilha remota para passar o verão. Johan é um artista, e tem andado sem inspiração e bastante inquieto. Certo dia, Alma lê o diário de Johan. O estado mental dele começa a se deteriorar, enquanto Alma passa a ficar cada vez mais assustada, até que, um dia, Alma já não consegue discernir, mais, o que de fato está acontecendo. 

Donnie Darko

Donnie Darko, 2001 // Velho conhecido dos fãs da sétima arte, um grande representante da categoria “ame ou odeie”, Donnie Darko, de Richard Kelly, carrega uma surrealidade sutil: nada de muito absurdo acontece, tecnicamente. Donnie (Jake Gyllenhaal) escapa por pouco de um estranho acidente. Desde então, começa a ter visões estranhas de um homem em uma fantasia de coelho, que demanda que ele faça coisas que podem ser bastante prejudiciais. Nesse ínterim, Donnie também sabe que há algo errado e grande prestes a acontecer. Mas o que é verdade e o que é apenas invencionice da dele? 

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Alucinações do Passado

Jacob’s Ladder, 1990 // Jacob Singer retornou do Vietnã como veterano e sente que sua vida está em frangalhos. Trabalhando nos correios, ele se divorciou de seu primeiro casamento após a morte de seu filho pequeno, falecido em um acidente pelo qual se culpa, e passou a morar em um pequeno apartamento com a nova namorada. Mas Jacob sente que, cada vez mais, há algo errado com ele: antigos flashbacks de sua época no Vietnã e várias imagens estranhas têm invadido seus pensamentos, e Jacob já não consegue ter certeza de nada do que está acontecendo. Dirigido por Adrian Lyne, Alucinações do Passado é recheado de imagens que poderiam estar nos pesadelos de qualquer um, e te faz perguntar constantemente qual é a realidade.

A Montanha Sagrada

La montaña sagrada, 1973 // Alejandro Jodorowsky, assim como David Lynch, compartilham um certo status de cineastas que caminharam a pés descalços no ambiente estranho e absurdo do surrealismo. Não à toa ambos trabalharam em um mesmo projeto, ainda que separados: a adaptação de Duna, de Frank Herbert, que agora é transformada em filme pelas mãos de Denis Villeneuve. Jodorowsky pretendia fazer essa adaptação, mas não foi adiante, então Lynch, posteriormente, também tentou — seu filme, de 1984, acabou não gerando o impacto que precisava, mas os fãs o guardam na memória com carinho. A Montanha Sagrada é um dos filmes mais conhecidos de Jodorowsky e se enquadra na nossa lista: na história, uma figura mística guia um grupo de pessoas em busca da montanha do título, onde esperam receber iluminação. Repleto de imagens estranhas, tanto profanas quanto sagradas, a obra de Jodorowsky nos leva a um universo de sonho e delírio. Pode não estar exatamente encaixado no terror, em si, mas é amalucado o bastante para o abraçarmos como nosso.

Men: Faces do Medo

Men, 2022 // O filme mais recente da lista é, também, extremamente perturbador — ainda mais se nos colocarmos na pele da protagonista. Dirigido por Alex Garland, o filme acompanha Harper (Jessie Buckley), que viaja até um lugar remoto no interior da Inglaterra após a morte de seu marido. Enquanto está lá, Harper entra em atrito com um homem local que acaba preso. Mas, para tortura da mente de Harper, uma maioria absurda dos homens pelo vilarejo se assemelha e muito em aparência com o homem que está lhe alugando a casa em que está, Geoffrey (Rory Kinnear).

Possivelmente em Michigan

Possibly in Michigan, 1983 // Este curta de Cecelia Condit é bastante estranho e, no mínimo, perturbador. Na história, duas mulheres são perseguidas em um shopping, mas tudo é muito… estranho. Inclusive o perseguidor e o clima do filme em si. Apesar de obscuro, hoje é considerado um clássico cult.

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Acordo cedo todos os dias para passar o café e regar minhas plantas na fazenda. Aprecio o lado obscuro da arte e renovo meus pactos diariamente ao assistir filmes de terror. MACABRA™ - FEAR IS NATURAL.