Alejandro Jodorowsky: o cineasta místico que tentou reinventar Duna

Conheça a trajetória do cineasta por trás de El Topo e A Montanha Sagrada, e do ambicioso projeto que ficou conhecido como “o maior filme nunca feito”.

Surrealista, místico, provocador e impossível de separar da própria obra, Alejandro Jodorowsky construiu uma das carreiras mais singulares do cinema cult. Seus filmes misturam religião, esoterismo, violência, simbolismo e imagens que parecem saídas de sonhos rumo a uma transformação espiritual. De El Topo a A Montanha Sagrada, Jodorowsky fez do cinema um território de excesso, provocação e transcendência, e mesmo seu projeto mais ambicioso, a adaptação de Duna que nunca chegou às telas, acabou entrando para a história.

A Macabra relembra a carreira do mago cineasta, contando sobre seus filmes mais importantes e sobre aquele projeto que, apesar de nunca ter visto a luz do dia, se transformou em um dos mais icônicos da carreira do diretor.

As origens do mestre

Nascido em 1929, em Tocopilla, no Chille, Jodorowsky cresceu em uma família de imigrantes judeus ucranianos, em um ambiente de muito conflito. Seus primeiros trinta anos foram atravessados pelo distanciamento familiar, por mudanças importantes e por experiências que acabariam deixando marcas perceptíveis em sua obra. Jodorowsky afirma ser fruto de um estupro marital e relata que sua relação com os pais era difícil desde a infância. Segundo o cineasta, sua mãe nutria ressentimento tanto por ele quanto pelo marido, enquanto a convivência com a irmã mais velha, Rachel, também era marcada por conflitos. Para Jodorowsky, a irmã frequentemente contribuía para que ele se sentisse excluído da dinâmica familiar.

Quando se mudou de sua cidade natal para Santiago, ainda aos nove anos, uma mudança profunda passou a ocorrer em Jodorowsky. Vendo como os imigrantes eram tratados, e principalmente como os industriais norte-americanos que trabalhavam na mineração em Santiago tratavam os habitantes chilenos, Jodorowsky se tornou abertamente anticolonialista, criticando o colonialismo em muitas de suas obras. 

Bastante ligado à poesia, Jodorowsky publicou seu primeiro poema aos 16 anos. Posteriormente, com uma visão de mundo mais apoiada no anarquismo, cursou Psicologia e Filosofia na Universidade do Chile por dois anos. Quando saiu da faculdade, iniciou seu trabalho nas artes, inicialmente trabalhando como palhaço em um circo e estudando sobre mímica. Anos depois fundou seu primeiro grupo, Teatro Mimico. Em 1953 se mudou para Paris, onde, ao lado de Roland Topor e Fernando Arrabal, criaram o Moviment Panique, que apostava em cenas violentas e chocantes para o público. 

É também nesse período, assim que se muda para Paris, que Jodorowsky trabalha em seu primeiro filme: A Gravata, um curta que dirige, ao lado de Saul Gilbert e Ruth Michelly, e adapta, como roteirista, uma história de Thomas Mann. Mas é quando retorna para o México que a parte mais interessante da carreira de Jodorowsky passa a ser construída.

Esoterismo e místicas na carreira cinematográfica

Depois de A Gravata, Jodorowsky ainda dirigiu um outro curta, Teatro sin fin (1965), do qual oficialmente não é creditado. Três anos depois, dirigiria seu primeiro longa-metragem: Fando e Lis (1968), baseado em uma peça de Fernando Arrabal, seu amigo do Movement Panique. No filme, os dois personagens-título estão em busca da cidade mística de Tar. Ali já era possível ter uma ideia do que aguardavam os próximos filmes do cineasta. Com sua mente provocativa, assim que o filme foi apresentado no Acapulco Film Festival, ainda em 1968, uma revolta se deu por causa do conteúdo do filme, levando-o a ser banido do México. 

Fando e Lis, 1968

Pode-se dizer que, nos anos seguintes, seus filmes seguiram um caminho parecido: todos eles provocaram reações extremas em uma parte do público. Jodorowsky não poupa sua audiência com suas imagens, e poupa menos ainda quando escolhe usar simbolismos religiosos de formas muitas vezes consideradas blasfêmias: de mãos dadas com o esotérico e o exótico, o artista sempre se equilibrou na corda bamba entre o sagrado e o profano.

El Topo, 1970

El Topo estreia apenas dois anos depois de Fando e Lis, e marca o primeiro grande filme do diretor — aquele que atraiu atenção realmente, não apenas de uma multidão enfurecida, mas também de pessoas como John Lennon, que ficaram maravilhadas com o que o cineasta era capaz de fazer. 

O filme se tornou o primeiro “cult da meia-noite” dos Estados Unidos, filmes que passavam fora do circuito comercial nas madrugadas dos cinemas. Lennon, depois de assistir a El Topo, convenceu o empresário dos Beatles Allen Klein a investir 1 milhão de dólares no próximo filme de Jodorowsky, que viria a ser A Montanha Sagrada (1973).

Apesar de diferentes entre si, os dois maiores filmes de Jodorowsky possuem algumas semelhanças. Ambos tratam de jornadas altamente espirituais, onde uma pessoa vaga por uma paisagem que remete ao Velho Oeste — os dois filmes são classificados como Westerns —, onde encontram muitas figuras exóticas e místicas em seus caminhos. Em El Topo, o personagem título (interpretado pelo próprio cineasta) embarca em uma viagem para confrontar antigos mestres; enquanto em A Montanha Sagrada acompanhamos um alquimista (também Jodorowsky) que lidera um grupo de pessoas até uma montanha, onde eles esperam receber iluminação. 

Santa Sangre, 1989

Depois de El Topo e A Montanha Sagrada, Jodorowsky ainda fez alguns filmes: Tusk (1980), Santa Sangre (1989), O Ladrão do Arco-Íris (1990), A Dança da Realidade (2013), Poesia Sem Fim (2016) e Psicomagia – A Arte da Cura (2019) que, apesar de manterem a qualidade e a mente afiada do artista, com suas imagens e esoterismo, são menos comentados e não causaram tanto alvoroço. Desses, recomendamos fortemente o terror surrealista Santa Sangre.

O maior projeto nunca finalizado

Ainda na década de 1970, logo depois de A Montanha Sagrada, Jodorowsky foi cotado e anunciado como diretor de um projeto bastante ousado: a adaptação de Duna, de Frank Herbert. Ao contrário do que muitos pensam a respeito dessa história, não foi ideia de Jodorowsky simplesmente adaptar o épico espacial futurista; muito menos ele foi o primeiro diretor a ser pensado para essa façanha.

Arte de Chris Foss para Duna de Jodorowsky

O projeto estava em andamento desde 1972, quando a Apjac International (APJ) comprou os direitos de adaptação. Dentre os nomes pensados para a direção estavam David Lean (conhecido por Lawrence da Arábia e Doutor Jivago), que recusou o projeto, e Charles Jarrott. Enquanto buscavam um diretor, a APJ já trabalhava no roteiro. Um primeiro tratamento foi feito por Robert Greenhut, quem fez o lobby para que a APJ comprasse os direitos de adaptação; ele, porém, logo foi substituído por Rospo Pallenberg. O roteiro de Pallenberg começaria a ser rodado em 1974, mas o roteirista faleceu em 1973.

Então, no final de 1974, um grupo francês comprou os direitos da APJ, chamando Jodorowsky para dirigir a adaptação. Desde o início, o projeto parecia meio megalomaníaco: um filme planejado para ter três horas, ele seria protagonizado pelo filho de Jodorowsky, Brontis, como Paul, mas também contaria com nomes peso-pesados da cultura em outros papéis: Salvador Dalí viveria Shaddam IV, Orson Welles como Barão Vladimir Harkonnen, Gloria Swanson como a Reverenda Madre Gaius Helen Mohiam, Alain Delon como Duncan Idaho, Udo Kier como Piter De Vries, Geraldine Chaplin como Lady Jessica e David Carradine como Duque Leto Atreides. A cereja do bolo viria com Mick Jagger interpretando Feyd-Rautha, e a trilha sonora seria composta pelo Pink Floyd. A pré-produção contaria com Chris Foss, Moebius e H.R. Giger. Dan O’Bannon foi chamado para os efeitos especiais. 

Storyboard de Moebius para Duna de Jodorowsky

Um projeto dessa magnitude afundaria hoje em dia, então, na época, não deve ter sido surpresa que tenha chegado ao fim tão rapidamente. Ao checar como andava a produção, Herbert, em viagem para a Europa, descobriu que, dos quase 10 milhões de fundos para as filmagens, 2 milhões haviam sido gastos apenas na pré-produção. Os storyboards de Jodorowsky dariam um filme de 14 horas. E, além de tudo isso, o cineasta tinha tomado diversas liberdades criativas diante do livro original. 

Os problemas nos bastidores também não podem ficar de fora dessa história. Dalí teria sido convidado a se retirar da produção por causa de suas opiniões pró-Franco. Depois que a produção foi cancelada, O’Bannon foi para um hospital psiquiátrico para se recuperar, trabalhando em roteiros enquanto isso — alguns deles se transformariam em Alien posteriormente. 

A adaptação de Duna, enfim, não morreu. Quase uma década depois, em 1984, David Lynch lançou sua adaptação, protagonizada por Kyle MacLachlan, Virginia Madsen e Sting. Uma versão bem menos megalomaníaca, mas ainda muito distante das possibilidades de realização daquela época, hoje a obra é vista com curiosidade pelos fãs. É indiscutível que a melhor versão que adapta o texto de Herbert está sendo conduzida pelas mãos de Denis Villeneuve, com Timothée Chalamet e Zendaya nos papéis principais.

Arte de H.R. Giger para Duna de Jodorowsky

Apesar desses problemas, Jodorowsky conta como Duna transformou sua vida. E nem tudo que ele criou nesse meio-tempo foi perdido: mais tarde, o artista utilizou muitos dos temas e ideias em sua graphic novel Incal, feita em parceria com Moebius.

De toda a forma, mesmo que esse projeto nunca tenha visto a luz do dia, carrega um peso gigantesco, e todos os fãs de Duna se perguntam como ele teria terminado. O projeto ficou conhecido como “o maior filme nunca feito”, e, em 2013, o cineasta Frank Pavich dirigiu um filme intitulado Duna de Jodorowsky, um documentário que conta essa história em detalhes. 

O fracasso, mas a constante memória e força dessa adaptação servem apenas para mostrar como Jodorowsky, mesmo quando não completou seu projeto mais ambicioso, entrou para a história. Seus filmes possuem uma marca firme de sua personalidade envolta em mistérios e misticismo, nos fazendo observar sempre duas vezes as cenas e símbolos que ele escolheu para contar suas histórias. 

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Acordo cedo todos os dias para passar o café e regar minhas plantas na fazenda. Aprecio o lado obscuro da arte e renovo meus pactos diariamente ao assistir filmes de terror. MACABRA™ - FEAR IS NATURAL.