Crime e mídia na história norte-americana: as temporadas de American Crime Story

Como a série de Ryan Murphy aborda a exploração da mídia em crimes notórios e, com isso, ajuda a levantar debates incontornáveis na nossa sociedade

Existe algo na vida das celebridades que nos faz acompanhar com atenção. A mídia cumpre um papel especial nessa fascinação, faz com que a gente consuma suas histórias e fique querendo mais. Quando tragédias acontecem a estas estrelas, surgem teorias e especulações, opiniões públicas controversas e aquela sensação de que fazemos parte da vida das pessoas envolvidas.

American Crime Story é uma série antológica, desenvolvida por Scott Alexander e Larry Karaszewski, que são produtores executivos junto de Brad Falchuk, Nina Jacobson, Ryan Murphy e Brad Simpson. A série, até agora com duas temporadas, trata de crimes e histórias reais, escândalos que aconteceram principalmente durante os anos 1990 e mexeram com a mídia de alguma forma. 

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O.J. SIMPSON: O JULGAMENTO DA MÍDIA

A primeira temporada de American Crime Story se concentra no julgamento de O.J. Simpson, um escândalo criminal com ampla cobertura midiática dos anos 1990. Baseado no livro de Jeffrey Toobin,  American Crime Story: O povo contra O. J. Simpson, lançado no Brasil pela DarkSide® Books, a série com 10 episódios mostra o processo de prisão e sentença de Orenthal James Simpson, O.J, jogador de futebol norte-americano, ator e personalidade muito querida pelo público, que foi acusado de assassinar sua ex-esposa, Nicole Brown Simpson, e um amigo que estava com ela, Ron Goldman. A série conta com um elenco com nomes que chamam a atenção, com Sarah Paulson no papel de Marcia Clark e Cuba Gooding Jr. no papel de O.J. Simpson.

O caso aconteceu em junho de 1994 e foi uma sensação na televisão norte-americana. Canais interromperam as exibições das finais da NBA daquele ano para acompanhar a perseguição de Simpson pela polícia, quando o mesmo não se entregou no horário combinado. Além disso, o time de advogados continham nomes de peso, como Robert Kardashian (interpretado, na série, por David Schwimmer), que mais tarde seria reconhecido como o pai das socialites Kardashian e já era uma personalidade na época; Robert Shapiro (John Travolta), que também foi advogado de Christian Brando e Linda Lovelace; Johnnie Cochran (Courtney B. Vance), advogado de personalidades como Michael Jackson e Snoop Dog; além de outros advogados conhecidos na época, como F. Lee Bailey (Nathan Lane), Alan Dershowitz (Evan Handler), entre outros, que formavam o que ficou conhecido como “o time dos sonhos”. 

Um dos detalhes que mais chamou a atenção no julgamento, além de Simpson ser uma celebridade famosa, foram as questões raciais envolvidas. Cochran, que se tornou o advogado principal de defesa durante os primeiros momentos de julgamento, acabou questionando as provas de DNA, alegando dúvida razoável por mal manuseio das amostras de sangue, além de má conduta do Detetive Mark Fuhrman, que foi quem encontrou as luvas, por ter feito afirmações racistas em seu passado. Tudo isso ajudou a alegar que a questão de raça ali, naquele momento, não poderia ser desvinculada do caso em si.

Simpson foi absolvido das acusações. Uma curiosidade sobre o veredito é que, após a leitura, Lionel Cryer, um dos jurados, saudou O.J. com uma saudação dos Panteras Negras. Após o veredito, a maioria da população negra aceitou e afirmou que a justiça tinha sido feita; mas a maior parte da população branca não aceitou a decisão. E até hoje, apesar da inocência de O.J. Simpson ter sido decidida pelo juiz, estipula-se que o caso foi manipulado em favor de O.J. e que ele escapou da pena. O.J. Simpson foi preso em 2007, após ser acusado de sequestro e de roubo em hotel-cassino em Las Vegas. Ficou preso até 2017, e se encontra em condicional atualmente.

Gianni Versace: Crime no mundo da moda

A segunda temporada de American Crime Story se concentra no assassinato de Gianni Versace por Andrew Cunanan, e foi baseado no livro Vulgar Favors: Andrew Cunanan, Gianni Versace, and the Largest Failed Manhunt in U.S. History, de Maureen Orth. O elenco não perde em nomes para a primeira temporada, com Edgar Ramírez como Gianni Versace, Darren Criss como Andrew Cunanan, Ricky Martin como Antonio D’Amico e Penélope Cruz como Donatella Versace. 

Gianni Versace foi um designer de moda e o fundador da marca Versace, que produz acessórios e roupas de luxo. Amigo de celebridades como Eric Clapton, Kate Moss, Princesa Diana, Madonna e Naomi Campbell, Gianni e seu namorado, Antonio D’Amico, eram frequentadores de festas internacionais e bastante próximos do mundo da música. 

Gianni Versace foi assassinado no dia 15 de julho de 1997. Ele retornava de um passeio no Ocean Drive, perto de sua mansão em Miami, quando levou um tiro de uma Taurus .40. O assassino foi Andrew Cunanan, um homem com manias de grandeza, obcecado por celebridades, que afirmava amizade com várias delas. Cunanan já havia assassinado outros quatro homens antes de Versace. Em The Assassination of Gianni Versace, entretanto, não há acompanhamento de julgamento: Cunanan cometeu suicídio oito dias após o crime. A série, em vez disso, acompanha o passado de Cunanan e sua possível relação com Versace, além das tentativas da polícia de capturarem o fugitivo. 

Gianni deixou 50% de sua fortuna e do império criado por ele para sua sobrinha, Allegra Versace. Durante a criação da série, Donatella Versace, irmã de Gianni e mãe de Allegra, pediu que Ryan Murphy não adicionasse a filha à narrativa. Allegra sofreu muito com a morte do tio, entrando em depressão e sofrendo de anorexia. Murphy chegou a gravar uma cena sobre Allegra, mas respeitando os desejos da mãe, retirou o conteúdo do corte final. 

A segunda temporada da série foi alvo de várias críticas, tanto por parte da família Versace quanto por alguns jornalistas. Ao dar destaque especial e com uma versão um pouco maquiada dos fatos para Cunanan, alguns se sentiram infelizes com as escolhas da direção. Em uma declaração para o site EW e para o Hollywood Reporter, a família Versace escreve que a série afirma ser baseada no livro de Maureen Orth, mas o próprio livro é cheio de especulações e fofocas. 

Entretanto, e ainda sim, o seriado põe luz sobre questões importantes e atuais: a homofobia, a misoginia, a especulação midiática em cima de celebridades. A perseguição dos canais de comunicação aos envolvidos nos casos é vista exaustivamente em ambas as temporadas até agora, e é uma questão a ser debatida. A série é, afinal, uma obra de não ficção com detalhes e cenas acrescentadas e ficcionalizadas, e isso não pode ser perdido de vista ao ser consumida, mesmo que tenha feito um trabalho razoável.

CLINTON: A TERCEIRA TEMPORADA A CAMINHO

Há uma terceira temporada de American Crime Story a caminho, com o subtítulo de Impeachment, e vai tratar do caso de impeachment do 42º presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, acusado de obstrução de justiça e perjúrio após a exposição do caso extraconjugal com Monica Lewinsky. A temporada será baseada em outro livro de Jeffrey Toobin, A Vast Conspiracy: The Real Story of the Sex Scandal That Nearly Brought Down a President, tem a data de estreia prevista para setembro de 2020 e conta com Lewinsky como produtora. 

Entre as temporadas de O.J. Simpson e o Assassinato de Versace foi pensada uma temporada sobre o furacão Katrina, mas que não chegou a sair da etapa de desenvolvimento e nunca foi concluída. A temporada, que era para ser a segunda, está parada desde 2019 quando foi anunciada pelo canal responsável, FX. 

Ambas as temporadas lançadas até agora receberam boa recepção da audiência, além de várias nomeações e vitórias em premiações voltadas para o conteúdo da TV e podem ser vistas no serviço de streaming Netflix.

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Acordo cedo todos os dias para passar o café e regar minhas plantas na fazenda. Aprecio o lado obscuro da arte e renovo meus pactos diariamente ao assistir filmes de terror. MACABRA™ - FEAR IS NATURAL.