Em alguns locais do Mediterrâneo, na Antiguidade, principalmente na Grécia, era uma crença popular de que as abelhas nasciam espontaneamente dentro de vacas mortas. A prática, descrita nas Geórgicas de Virgílio, é tomada por uma desinformação: acredita-se, possivelmente, que esses fazendeiros tomaram por abelhas os insetos da família Eristalis tenax, a mosca-zangão europeia, que possui um corpo parecido com os das abelhas, também oval e com a tonalidade preta e amarela.

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Essa prática, a de deixar espécimes de gado mortos para que abelhas nascessem a partir dele, recebeu o nome de bugonia. Apesar de ser uma prática antiga e da qual não se tem mais notícias, a palavra, em si, está em evidência nesses últimos meses por se tratar do título do novo filme de Yorgos Lanthimos.
Mas qual a relação entre uma antiga prática popular grega e o filme? A Macabra te leva para conhecer um pouco da nova produção de Lanthimos em sua chegada ao cinema, dia 27 de novembro.
Os aliens estão invadindo a terra

Em Bugonia, acompanhamos Teddy (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis), primos que têm uma relação bastante próxima e que acreditam na mesma coisa: alienígenas estão controlando a Terra e fazendo experimentos bem debaixo de nossos narizes. Entretanto, eles têm um plano: eles irão sequestrar um desses habitantes do espaço sideral e fazê-lo confessar o que está havendo.

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É então que eles conseguem raptar Michele (Emma Stone), CEO de uma empresa farmacêutica. Teddy e Don acreditam que Michele é de uma raça alienígena vinda de Andrômeda, e que está, através de sua empresa, controlando seres humanos e fazendo experimentos que podem levar à destruição da espécie.

Apesar de espelhar a prática da bugonia com o personagem principal, que cria abelhas (mas da forma convencional), a questão principal entre o termo e o título do filme é a desinformação. Teddy, pelo que nos parece, é um homem afundado em teorias da conspiração. Solitário, retraído, até, Teddy é um homem que tem um propósito e irá fazer de tudo para concluí-lo, levando seus atos às últimas consequências.
Ambiguidade moral

Will Tracy, roteirista do filme, afirmou que “Teddy é alguém que, como muitos de nós, não ouviu uma versão melhor e mais verdadeira da história por parte das autoridades competentes”. Como aponta Zachary Lee na introdução de sua entrevista com Lanthimos e Tracy para o site Roger Ebert, “Bugonia é um filme feito para te deixar sempre na dúvida sobre quem está dizendo a verdade”. Essa construção é necessária, também, e vai de encontro ao contexto da vida de Teddy, para que ele tenha essa dose de empatia do público.

Em seu texto sobre o filme para o site The Credits, Susannah Edelbaum aponta como essa “moralidade”, os atos que Teddy comete e sua existência que beira ser digna de pena, pode parecer borrada aos espectadores, e como isso foi intencional. “Quanto mais Michelle tenta argumentar com Teddy”, escreve ela, “mais forte se torna a insistência veemente dele de que ela é uma alienígena. Ao mesmo tempo, a realidade da triste vida de Teddy se impõe, e suas teorias da conspiração começam a parecer mais compreensíveis do que insanas. A ambiguidade moral é intencional.”

Lanthimos, afinal, não é conhecido por fazer filmes “fáceis”. Suas produções constantemente trazem questões espinhosas com limites morais bastante borrados. Diretor de filmes como O Lagosta (2015), A Favorita (2018) e Tipos de Gentileza (2024), Lanthimos adentrou os círculos de cinema cult com Dente Canino, ainda em 2009, mas foi em 2017, com O Sacrifício do Cervo Sagrado, que seu nome realmente rompeu algumas barreiras, e Pobres Criaturas, de 2023, jogou seu nome de vez nos holofotes. Emma Stone retorna para seu quarto filme com o diretor, além de outras produções, como o curta Vlihi, e Jesse Plemons se reencontra com o cineasta para a segunda produção.
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Bugonia estreia dia 27 de novembro nos cinemas brasileiros. Aqui na Macabra estamos curiosos para conferir a nova produção de Lanthimos. E você, vai ver o filme no cinema? Qual seu filme favorito do diretor? Comente com a gente no Instagram e em suas redes sociais.

