Há algo de podre no reino dos ricos e famosos

Nos anos 1980, o jornalista Maury Terry afirmou que o caso "Filho de Sam" se tratava, na verdade, de um culto envolvendo pessoas poderosas. O que parecia loucura na época encontrou um paralelo no caso Epstein.

Quando Maury Terry apareceu, nos anos 1980, afirmando que o caso que ficou conhecido como “O Filho de Sam” era, na verdade, uma grande rede formada por ricos e poderosos, regada a festas com sexo, abuso de menores e muita droga, e que poderia ter ligação com o caso de Charles Manson, muitos o trataram como louco. David Berkowitz afirmara que era o responsável — sozinho! — pelo caso. 

Mas então Terry reuniu um grande material que chamou de The Ultimate Evil: An Investigation Into a Dangerous Satanic Cult (posteriormente, o subtítulo foi alterado para The Search for the Sons of Sam), onde desmontou tijolo por tijolo da estranha, perigosa e muito frágil construção do caso. O trabalho de pesquisa de Terry foi transformado também em minissérie da Netflix, com quatro episódios e sob o título Os Filhos de Sam: Loucura e Conspiração, lançada em 2021. 

Ainda assim, ler The Ultimate Evil dá a impressão de que a qualquer momento você terá que usar um chapéu de papel alumínio. Cada frase escrita por Terry, cada linha da investigação oficial do caso desmontada por ele, nos leva a um caminho tortuoso, sombrio, aterrorizante e muito, mas muito medonho. Nos diz, também, algo terrível: existe uma rede obscura de homens ricos e poderosos que pode fazer o que quiser, sem ter que pagar a conta, e que usa de subterfúgios — como crimes forjados, igual ao caso de Sam; talvez até mesmo o caso de Manson — para cometerem seus crimes por baixo dos panos. Seria uma realidade bastante assombrosa.

O que é dito em The Ultimate Evil pode parecer uma grande teoria da conspiração? Pode. Pode parecer um exagero, muito distante da nossa realidade? Pode, é difícil acreditar que algo assim poderia acontecer. Uma rede secreta de gente que comete atrocidades e sai impune? Pff.

Mas, então, de repente, os arquivos do caso Epstein são expostos ao mundo. E aí a gente se pergunta: seria um exagero mesmo?

O caso da .44

Em julho de 1976, Donna Lauria e Jody Valenti estavam em um carro na porta da casa de uma delas quando um homem se aproximou e atirou. Valenti sobreviveu, mas Lauria faleceu. O que parecia um crime isolado, porém muito aleatório, logo se tornou o que a mídia chamou de “O caso da .44”, pois era o calibre da arma utilizada. Ao longo dos próximos tiroteios, foram contabilizados 6 mortos e 11 feridos.

Em um jogo de gato e rato, com cartas enviadas à imprensa e várias tentativas de localizar o assassino, David Berkowitz foi preso em 1977. No último ataque do assassino da .44, contra Stacy Moskowitz e Robert Violante, uma multa no nome de Berkowitz o colocou como suspeito, e ele logo foi encontrado graças Wheat Carr que, em uma ligação com a polícia, conseguiu conectar Berkowitz à multa e a vários outros comportamentos suspeitos. 

Quando foi pego, Berkowitz confessou a culpa sozinho. Apesar da alegria da polícia de Nova York em ter pego um dos assassinos mais perigosos da década, algo parecia estranho. Berkowitz não se parecia em nada com alguns dos retratos falados, e sua calma, ao ser pego, não se parecia com o verdadeiro assassino. Além disso, muitos desconfiaram das cartas enviadas à polícia serem, de fato, escritas por Berkowitz. Faltava algo.

O assassino da .44 se autodenominou Filho de Sam em uma das cartas. A “desculpa” dada por ele, por cometer os assassinatos e ter ferido tantas pessoas é porque o cachorro de seu vizinho, possuído por um demônio de muitas centenas de anos, falava com ele e o mandava matar. 

Tudo parecia fazer sentido para a polícia e para parte da imprensa. Antes do boom de assassinos em série, antes mesmo do FBI ter se especializado em fazer perfis criminais, aquilo parecia muito ok. Mas Maury Terry percebeu algo estranho. Não fazia muito sentido, para ele, que Sam fosse realmente o assassino — pelo menos não o criminoso por trás de todos os assassinatos. Então ele se aprofundou.

A teoria de Maury Terry

Maury Terry começou a cobrir o caso do Filho de Sam logo no início, no dia seguinte à prisão de Berkowitz. Mas, conforme pesquisava e tentava ir a fundo nas questões que envolviam esse caso que, por si só, já era bastante estranho, Terry se encontrou em uma encruzilhada. Berkowitz  seria o único responsável por todos os tiroteios, mesmo com tantas coisas que não batiam? Caso não fosse, por que, afinal de contas, ele levaria a culpa sozinho pelos crimes do calibre .44?

Conforme foi seguindo alguns rastros, Terry descobriu detalhes no mínimo inquietantes. Berkowitz, também, de dentro da prisão, se mostrou um pouco mais acessível. O contato com ele era extremamente delicado, e por muito tempo ele não quis revelar muito de si ou dos crimes que havia cometido. A maioria já havia comprado a ideia de que ele acreditava que um cachorro demoníaco o mandara matar, e ele tinha pessoas fora da prisão com quem se importava — seu pai, por exemplo, que corria riscos caso ele falasse demais.

Mas falasse demais sobre o que?

O que Terry descobriu, ao longo de suas parcas correspondências e de sua ação investigativa, era que havia um “culto satânico” se desenvolvendo em Nova York. De início, descobriu-se apenas que algumas pessoas se reuniam e praticavam sacrifícios — de animais, de início, mas que logo evoluíram para assassinatos de pessoas. Posteriormente, porém, as coisas avançaram a grandes festas regadas por drogas — principalmente cocaína — e prostituição — em sua maioria de jovens garotas universitárias. 

Não podemos descartar o pânico satânico como um dos responsáveis pela teoria de Terry. Houve, sim, muita especulação que ligava poucas provas e fontes a esses “cultos satânicos”. Mas houve, também, muitas mortes em circunstâncias suspeitas de pessoas envolvidas com o crime. John “Wheaties” Carr — irmão de Wheat Carr, aquela que ajudou a ligar Berkowitz ao caso da .44 e que, por acaso, tinha um pai chamado Sam —, um dos principais suspeitos de conluio com Berkowitz, e seu irmão, Michael, morreram — o primeiro em um aparente suicídio, que, nas investigações de Terry, não se parecia com o suicídio; o segundo em um acidente de carro que, nas investigações de Terry, pouco teria de acidente.

Recorte da página online do artigo de 1979 do The New York Times sobre o falecimento de Michael Carr

Além disso, muitos figurões e celebridades envolvidos nas investigações — que, para deixar claro, não envolveram apenas Terry, mas alguns dos departamentos de polícia de Nova York, que reabriram o caso, além de gabinetes de promotores — também morreram. Um desses crimes, que ficou muito conhecido nos anos 1980, foi a morte de Roy Radin, encontrado assassinado em um cânion. Através de fontes dentro da prisão e próximas de Berkowitz, Terry conseguiu ligar Radin com essa enorme operação de “culto satânico” — através das drogas e das festas que o magnata dava em sua casa.

No final, fica bastante claro que a teoria de Terry não se limitava ao culto satânico em si, muito menos buscava inocentar Berkowitz do que havia feito. Ficou comprovado que ele participou dos tiroteios, porém não sozinho. O maior problema era haver pessoas com muito dinheiro e muito poder — de políticos a magnatas, de policiais a celebridades — possivelmente envolvidas em uma conspiração enorme que utilizava crimes em larga escala como cortina de fumaça para seus próprios delitos que eram, em si, talvez, ainda mais graves.

O caso Epstein

Quando os arquivos envolvendo os crimes de Epstein foram divulgados, muitos ficaram incrédulos. Financista de renome, que percorria todas as camadas mais altas da sociedade norte-americana, Epstein ficou conhecido mesmo por ser um abusador em larga escala — na época, os investigadores descobriram 36 garotas das quais ele havia abusado. Os policiais começaram a investigar suas ações em 2005, e ele foi condenado, após se declarar culpado, em 2008, ficando preso apenas 13 meses e, ainda assim, com liberdade condicional. 

Epstein foi preso novamente em 2019 por tráfico sexual de mulheres, e faleceu em sua cela naquele mesmo ano. A médica-legista da prisão afirmou suicídio por enforcamento, mas foi contestada por outro patologista. Em 2025, o FBI liberou as filmagens que mostram o suicídio de Epstein, mas muitos acreditam que o vídeo foi modificado, devido a quase 3 minutos faltantes da filmagem. Tudo isso gerou uma onda de teorias da conspiração.

Não que essas teorias sejam necessárias para que esse seja um dos casos mais aterrorizantes nos anais da história moderna.

A morte de Epstein impediu que mais investigações fossem realizadas, e o juiz do caso recusou todas as alegações contra ele. Mas, em 2025, os documentos das investigações de seus crimes foram divulgados. Esses documentos cobrem os anos de 2011 a 2018, e envolvem principalmente trocas de e-mails. Dentre as pessoas que se correspondiam com o criminoso, então nomes como Elon Musk, Bill Gates, Steve Bannon e Donald Trump, alguns dos homens mais poderosos dos Estados Unidos. 

Ao final de janeiro de 2026, novos arquivos foram divulgados. De acordo com a BBC, a contagem chega a “três milhões de páginas, 180 mil imagens e 2.000 vídeos”. Longe de ser um caso que tenha afetado apenas dos Estados Unidos, os crimes de Epstein envolvem o mundo inteiro. Uma das ligações mais aterradoras foi do financista com o ex-príncipe Andrew, irmão do rei Charles III, que foi presos em fevereiro deste ano pelo seu envolvimento no caso Epstein. Como noticiou a Globonews, “Especialistas da ONU consideram enquadrar os atos do caso Epstein como crime contra a humanidade. Após análises dos documentos divulgados sobre o assunto, eles caracterizaram o “esquema” como uma empresa criminosa global”.

Não estamos aqui afirmando que ambos os casos têm qualquer tipo de ligação, mas ambos os casos têm semelhanças. A teoria de Terry de que haveria uma rede de prostituição comandada pelos riscos e poderosos dos Estados Unidos, mesmo que não seja 100% correta no caso do Filho de Sam, teria paralelos quase 40 anos depois da publicação original de seu livro com casos recentes. Ainda que os crimes da .44 não tenham sido uma cortina de fumaça, outros acontecimentos atuais poderiam, sim, servir como estratagema para que as atenções sejam desviadas desses arquivos divulgados. 

Maury Terry faleceu em 2015, aos 69 anos, depois de ter investigado exaustivamente um dos primeiros e mais complexos crimes amplamente noticiados de um serial killers nos Estados Unidos. O Filho de Sam se tornou notório pelas informações que deu sobre os assassinatos que teria cometido — sobre o cachorro demoníaco e afins —, mas Terry trouxe à superfície uma nova possibilidade que se provaria não tão maluca assim nos anos que se seguiram. 

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Você já conhecia a teoria de Maury Terry e assistiu ao documentário Os Filhos de Sam: Loucura e Conspiração? Comente com a gente no Instagram e em suas redes sociais.

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Acordo cedo todos os dias para passar o café e regar minhas plantas na fazenda. Aprecio o lado obscuro da arte e renovo meus pactos diariamente ao assistir filmes de terror. MACABRA™ - FEAR IS NATURAL.