O Papa do Cinema Pop: vida e obra de Roger Corman

Um nome clássico entre os amantes de terror, Roger Corman foi responsável pela descoberta de diversos diretores, produtores e atores. Conheça mais sobre a carreira do cineasta.

Roteirista, diretor e produtor, Roger Corman é um nome clássico entre os fãs de terror — e entre os fãs de cinema em geral. Sua contribuição para a indústria cinematográfica é espantosa. Foi Corman um dos primeiros cineastas a reconhecer o trabalho de diretores, produtores e atores que hoje são parte fundamental para a história dos filmes, como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Ron Howard, Joe Dante, James Cameron, Nicolas Roeg,  Jack Nicholson, Peter Fonda, Sandra Bullock, Robert De Niro, entre tantos outros.

Roger Corman

Corman iniciou sua carreira na 20th Century Fox, trabalhando na sala de correspondências, até chegar ao ponto em que Corman lia história e dava ideias para produções. Uma das que mais gostou de sugerir itens foi para o filme O Matador (1950, dir. Henry King), mas quando não recebeu crédito nenhum, resolveu deixar a Fox e partir para o cinema independente.

Roger Corman no set de  , 1960

Através da Lei de Reajuste dos Militares de 1944, que ficou popularmente conhecida como G.I. Bill, que concedia uma série de benefícios para os veteranos da Segunda Guerra Mundial, Corman decidiu estudar Literatura na Universidade de Oxford, e viveu em Paris por um tempo. Quando retornou, trabalhou em diversos lugares, inclusive como assistente do agente literário Dick Hyland.

Os anos 1950 e o início de carreira

Enquanto exercia diferentes trabalhos, Corman permaneceu com seu gosto pelo cinema. Durante seu serviço como assistente de Hyland, Corman escreveu um roteiro que foi comprado por William F. Broidy, para a produtora de filmes de baixo orçamento  Allied Artists. O filme foi dirigido por Nathan Juran, e lançado em 1954. Inicialmente com o nome House in the Sea, passou a se chamar Hightway Dragnet (e em portugues foi lançado sob o título de Consciência Culpada), estrelando Richard Conte e Joan Bennett.

Consciência Culpada, 1954

Foi em 1954 também que Corman produziu seu primeiro filme, Monster from the Ocean Floor, dirigido por Wyott Ordung. O filme foi bem o suficiente para que Corman produzisse um segundo filme, The Fast and the Furious, lançado ainda em 1954, dirigido por John Ireland e Edward Sampson.

The Fast and the Furious foi vendido para uma nova companhia chamada  American Releasing Company, que acompanharia Corman por um período considerável de sua carreira. Seu segundo filme para a ARC foi dirigido por ele mesmo, o faroeste Cinco Revólveres Mercanários, de 1955. Corman planejava fazer alguns outros filmes para a companhia, mas acabou trabalhando em outros títulos, como Pistoleiro Solitário (1955), The Day the World Ended (1955), e a direção não-creditada de A Besta do Milhão de Olhos (1955).

It Conquered the World, 1956

A ARC então mudou de nome, se tornando American International Pictures (AIP), e Corman se tornou seu diretor principal. Durante a segunda metade dos anos 1950, Corman dirigiu para a AIP filmes como It Conquered the World (1956), Paraíso em Fúria (1957) e um de seus filmes mais conhecidos do período, Dominados Pelo Ódio (1958), biografia do famoso gângster Machine Gun Kelly; também dirigiu alguns filmes para a Allied Artists, como The Search for Bridey Murphy (1956) e O Emissário de Outro Mundo (1957).

Em janeiro de 1959, Corman fundou ao lado de seu irmão, Gene Corman, a The Filmgroup, uma produtora e distribuidora de filmes de baixo orçamento em branco e preto. Os primeiros filmes lançados foram High School Big Shot (1959) e T-Bird Gang (1959). Mais adiante, a The Filmgroup se tornou parte de uma companhia internacional, a Compass Productions.

A Loja dos Horrores, 1960

Foi com a companhia Filmgroup que Corman lançou um de seus filmes mais queridos, a primeira versão de A Loja dos Horrores, de 1960, onde também foi diretor.

O ciclo de Poe

O Solar Maldito, 1960

A AIP trabalhava com recursos apertados, financiamentos baixos, e gastava pouco com seus filmes. Em 1959, eles ofereceram um orçamento abaixo de $200,000 para Corman, para filmar dois filmes de terror em preto e branco, com gravações de 10 dias cada. Esse orçamento deveria ser dividido entre os dois filmes. Mas Corman havia trabalhado com orçamentos curtos por boa parte da década anterior, e sua intenção era fazer algo um pouco maior dessa vez.

Então, sua proposta foi fazer um único filme com esse orçamento proposto, os $200,000, colorido, e com 15 dias de gravação. Ele escolheu adaptar “A Queda da Casa de Usher”, conto de Edgar Allan Poe. No Brasil, o filme saiu com o nome O Solar Maldito, e foi lançado em 1960.

Roger Corman e Vincent Price

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O Ciclo de Poe, como ficou conhecido, fez um enorme sucesso entre os fãs de terror, e ainda hoje carrega o status de filmes cult, apesar do orçamento não muito alto e das diversas alterações que Corman e seus escritores faziam em seus roteiros. Vincent Price foi a estrela de todos os filmes do Ciclo do Poe, e seus roteiristas eram escritores prestigiados, como Richard Matheson, Charles Beaumont, Ray Russell, R. Wright Campbell e Robert Towne.

O Castelo Assombrado, 1963

Foram oito filmes feitos, em que sete deles foram realmente baseados nas obras de Edgar Allan Poe. Os longas foram: O Solar Maldito (1960), feito a partir de “A Queda da Casa de Usher”;  O Poço e o Pêndulo (1961), baseado no conto de mesmo nome; Obsessão Macabra (1962), baseado no conto “O Enterro Prematuro”; Muralhas do Pavor (1962), escrito a partir dos contos “Morella”, “O Gato Preto”, “O Barril de Amontillado” e “O Estranho Caso do Senhor Valdemar”; O Corvo (1963), baseado no poema de mesmo nome;  O Castelo Assombrado (1963), baseado no conto “O Caso de Charles Dexter Ward”, de Lovecraft, mas com o título de um poema de Poe; A Orgia da Morte (1964), baseado no conto “A Máscara da Morte Rubra”, utilizando o conto “Hop-Frog”, também de Poe, como uma subtrama; e Túmulo Sinistro (1964), baseado em “Ligeia”. 

Além do Ciclo

Enquanto gravava os filmes do Ciclo de Poe, Corman seguia com projetos paralelos. Nesse meio tempo, dirigiu o filme O Intruso, baseado em um livro de Charles Beaumont, que também escreveu o roteiro para adaptação. Foi um dos primeiros filmes a ter William Shatner como protagonista.

Também foi durante esse período que Corman contratou Francis Ford Coppola como seu assistente, e o auxiliou a dirigir alguns de seus primeiros filmes, como Demência 13 e Sombras do Terror, gravado entre os filmes O Corvo e O Castelo Assombrado.

Sombras do Terror, 1963

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A carreira de Corman continuava ativa no meio independente. Em 1962, Corman lançou o filme A Torre de Londres, baseado na figura de Ricardo III. Em 1963, foi lançado Desafiando a Morte, também com direção de Corman, para a AIP. Em 1964, o filme foi A Invasão Secreta. Entre tantos outros projetos que o cineasta colocou suas mãos entre os anos 1950 e 1960, essa é, é claro, a lista reduzida.

Após o Ciclo de Poe, Corman aceitou um contrato com a Columbia, para dirigir filmes com um orçamento maior. Mas as coisas não saíram como ele planejava, e Corman afirmou que “Cada ideia que enviei foi considerada muito estranha, muito esquisita; cada ideia que eles tinham parecia muito comum para mim. Filmes comuns não rendem dinheiro.”

Cada ideia que enviei foi considerada muito estranha, muito esquisita; cada ideia que eles tinham parecia muito comum para mim.

Ainda contratado da Columbia, Corman tirou uma licença para dirigir mais um filme para a AIP. Os Anjos Selvagens, de 1966, rendeu um lucro acima da média para a companhia, sendo um sucesso de críticas. O filme abriu o Festival de Veneza daquele ano, e com um orçamento de $350,000 dólares, fez cerca de $6 milhões de dólares de bilheteria.

Os Anjos Selvagens, 1966

Nesses últimos anos da década de 1960, Corman seguiu investindo em filmes para a Filmgroup, e também fez seus últimos filmes como diretor. Um de seus últimos longas foi Os 5 de Chicago, de 1970, que contou com Shelley Winters, Bruce Dern, e um jovem Robert De Niro em seu elenco. 

Em 1971, Corman afirmou que “Dirigir é muito difícil e muito doloroso. Produzir é fácil, posso fazer sem ter que realmente pensar”.

Depois dos anos 1970, Corman seguiu produzindo e investindo em outros filmes. Abriu a produtora e distribuidora New World Pictures, lançou diretores como Stephanie Rothman; investiu em filmes que poderiam ser considerados fora do comum, como o primeiro filme de motociclistas dirigido por uma mulher, Barbara Peeters, Bury Me an Angel (1971); produziu, para a AIP, o segundo longa dirigido por Martin Scorsese, Sexy e Marginal (1972). A New World também distribuía filmes internacionais, como Gritos e Sussurros (1972), de Ingmar Bergman, e filmes de outros diretores contemporâneos e que se tornaram sinônimo de cult anos depois, como François Truffaut e Federico Fellini, que eram lançados pela primeira vez através da distribuidora.

Pelos Meus Direitos, 1976

Corman ainda produziu e distribuiu alguns filmes para a 20th Century Fox, como Capone, o Gângster (1975, dir. Steve Carver) e Pelos Meus Direitos (1976, dir. Jonathan Demme). Após alguns anos, Corman vendeu a New World, aceitando ser consultor da produtora durante dois anos, e iriam distribuir todos os filmes do cineasta por uma taxa de 15%. Em 1984, Corman criou a produtora Millenium — que logo depois passou a se chamar New Horizons — e processou (e foi processado) pela New World. Da parte de Corman, ele afirmou que a antiga produtora não havia cumprido o acordo de distribuição de filmes; da parte da New World, eles afirmaram que Corman estaria retirando possíveis investidores desacreditando a produtora para eles. O caso foi resolvido fora dos tribunais.

O Massacre 2, 1987

Em 1985, Corman iniciou a distribuidora Concorde, que afirmava garantir uma distribuição mais barata para os cineastas. Distribuiu filmes como Massacre 2 (1987, dir. Deborah Brock) (o primeiro havia sido distribuído pela New World) e Garotas das Ruas (1985, Joan Freeman).

Sob o selo Roger Corman Presents, o cineasta produziu 13 filmes para o canal Showtime, entre eles incluindo Roedores da Noite (1995, dir. Dan Golden), adaptação de uma história de Bram Stoker, Hellfire (1995, dir. David Tausik), e uma adaptação de Vampirella (1996, dir. Jim Wynorski).

Seus últimos trabalhos, até então, foram no canal Syfy, onde tem produzido filmes de monstros e criaturas, como Dinocroc – A Evolução Do Mal Começou (2004, dir. Kevin O’Neill) e Piranhaconda (2012, dir. Jim Wynorski).

Roger Corman esteve no Brasil, para o Festival Fantaspoa em 2019. Seu trabalho permanece sendo admirado e querido pelos fãs do cinema no geral e, principalmente, pelos fãs de terror.

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Acordo cedo todos os dias para passar o café e regar minhas plantas na fazenda. Aprecio o lado obscuro da arte e renovo meus pactos diariamente ao assistir filmes de terror. MACABRA™ - FEAR IS NATURAL.