Blues e pactos: Robert Johnson e o diabo na encruzilhada

O misterioso Robert Johnson deixou sua marca no blues. Família, críticos e fãs famosos mostram quem é o homem por trás da música.

Early this mornin’, ooh
When you knocked upon my door
And I said, Hello, Satan
I believe it’s time to go
Me and the Devil
Was walkin’ side by side
Me And The Devil Blues

Robert Johnson é o lendário compositor, cantor e violonista considerado um dos maiores músicos de blues da história. É o modelo para o que se tornou o rock & roll. Nascido em Hazlehurst, Mississippi, em maio de 1911, Johnson era considerado um músico medíocre até que desapareceu da cena artística, e voltou um ano e meio depois com habilidades incríveis no violão, deixando seus mentores no chinelo e atingindo a grandeza com músicas que se tornaram hinos do blues.

Netflix ReMastered: O Diabo na Encruzilhada, Robert Johnson

A lenda diz que seu talento repentino foi conquistado em um pacto com o Diabo, selado em uma noite de lua nova em uma encruzilhada na cidade de Clarksdale. Ele teria oferecido seu violão ao Diabo, que o afinou e devolveu ao músico, agora em posse de um instrumento que o faria alcançar a grandeza.

Seu talento e sucesso foram alvo de especulações, mas o mito se difundiu principalmente por conta das letras de suas músicas como “Crossroads Blues”, “Me And The Devil Blues” e “Hellhound on My Trail”. Lá vai: “Eu e o Diabo andávamos lado a lado […] Deve ser o velho espírito maligno tão bem enterrado no chão […] Você pode enterrar meu corpo lá embaixo na beira da estrada […]”, “Eu fui para a encruzilhada e caí sobre meus joelhos […] Ninguém parecia me conhecer, querida, todo mundo passava por mim […] Eu acredito em minha alma agora”.

Para adicionar mística ao seu nome, Johnson morreu aos 27 anos, mesma idade em que, no futuro, outros célebres artistas como Jim Morrison, Kurt Cobain, Amy Winehouse, Janis Joplin e Jimi Hendrix morreriam.

Algumas hipóteses apontam que ele morreu de sífilis ou complicações do álcool, mas também há quem diga que ele foi envenenado pelo dono de um bar (que achava que sua esposa tinha um caso com Johnson) ou pagando seu tributo ao Diabo.

Netflix ReMastered: O Diabo na Encruzilhada, Robert Johnson

ReMastered: O Diabo na Encruzilhada

A mística em torno de seu nome já foi explorada em filmes, documentários, livros e histórias em quadrinhos. Recentemente, foi a vez da Netflix abordar a vida de Robert Johnson em sua série de documentários especiais, ReMastered, que estuda a vida e a obra de músicos influentes, como Bob Marley e Johnny Cash, e explora aspectos menos falados como boatos, lendas e mistérios.

Desde outubro de 2018, já foram liberados seis episódios. Com direção de Brian Oakes, ReMastered: O Diabo na Encruzilhada é a “faixa número sete”, liberada no dia 26 de abril, fala sobre Robert Johnson.

Netflix ReMastered: O Diabo na Encruzilhada, Robert Johnson

Eu sei que em algum momento na vida de todos nós, chegamos a uma encruzilhada e temos que decidir o quanto podemos sacrificar para alcançar a glória. — Steven Johnson

No documentário, relatos de familiares, críticos, artistas e estudiosos da cultura afro-americana debatem a vida, os talentos e os mitos de Johnson. O diretor Brian Oakes vai além do misticismo e aborda a infância difícil no Mississippi, a presença de um padrasto abusivo, o alcoolismo, os relacionamentos amorosos, fracassos profissionais e, claro, seu inegável sucesso após um período de reclusão.

Netflix ReMastered: O Diabo na Encruzilhada, Robert Johnson

A lenda é abordada também, mas com um olhar para o confronto entre religião e cultura popular, já que Johnson dava pistas de seu envolvimento com religiões de matriz africana (bastante praticadas no Sul dos Estados Unidos naquela época). A ignorância e preconceito possivelmente contribuíram para que o talento de um homem negro fosse associado ao diabo na época.

Johnson tem apenas duas fotos e nenhuma filmagem a respeito de sua vida. Por falta de material visual para ilustrar, o documentário aposta em uma belíssima animação recriando cenas que ajudam a contar a história de Robert Johnson. A trilha sonora dá o tom, e participações especiais de Keith Richards, Taj Majal, Bonnie Raitt e outros artistas complementam a obra.

Robert Johnson em quadrinhos

O quadrinista brasileiro Alcimar Frazão fez sua leitura da vida e do pacto de Johnson na HQ O Diabo e Eu lançada em 2013. O traço carregado de sombras de Dupont cria o clima perfeito para a história. No relançamento do álbum, três anos depois, a edição trouxe ainda a participação de 13 artistas que ilustraram o pacto, entre eles Lourenço Mutarelli e Shiko.

O Diabo e Eu, HQ de Alcimar Frazão

O Diabo e Eu, HQ de Alcimar Frazão

Outra obra que merece a nota é Love in Vain, do artista J. M. Dupont. O quadrinho saiu em 2016 em formato especial e reconta a vida do músico.

Love in Vain, de JM Dupont

Love in Vain, de JM Dupont

Love in Vain, de JM Dupont

I gotta keep movin
Blues fallin down like hail
And the days keeps on worryin me
Theres a hellhound on my trail
— Hellhound on my trail

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Desbravo terras e guio cabras pelo Vale das Sombras. Nas noites de quarta-feira reúno a família na fazenda para deliberar sobre filmes e livros de terror. MACABRA™ - FEAR IS NATURAL.