No ramo do cinema, o sucesso de um filme depende de muitos fatores. Alguns consideram que um filme bem-sucedido seja aquele que faturou muitos milhões a mais que seu orçamento na bilheteria de estreia. Outros consideram que seja aquele filme que atraiu o olhar dos críticos e rendeu boas notas. Para um terceiro grupo, ainda, um filme bem-sucedido é aquele com várias indicações a prêmios — se ganhá-los, melhor ainda.
Esses “tipos de sucesso” podem ser intercambiáveis, mas muitos filmes que são lançados anualmente não acabam caindo em nenhuma dessas graças. Muitos deles, inclusive, acabam bem-sucedidos porque, na verdade, a audiência os escolheu para amar. Vemos muito disso no cinema de terror: filmes que tiveram suas estreias e ninguém se importou muito, mas que, com o tempo, os fãs os colocaram como ícones cult ou grandes produções.
A Macabra listou alguns dos filmes que amamos — dentro do terror, suspense e scifi — que foram grandes fracassos em seus lançamentos — seja por bilheteria, análise dos críticos ou porque ninguém se importou muito —, mas que, em questão de pouco tempo, se tornaram filmes consagrados e amados.
Um Sonho de Liberdade

The Shawshank Redemption, 1994 // Stephen King não é, realmente, conhecido por ter muitas de suas obras adaptadas pro cinema aclamadas pela crítica. Nós, os fãs, acabamos transformando a maioria delas em grandes clássicos. Mas é estranho que um filme como Um Sonho de Liberdade, que concorreu a nada menos que sete estatuetas do Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado, tenha se mostrado um fracasso tão grande em seu lançamento. Com um orçamento de 25 milhões, em seu primeiro lançamento o filme conquistou apenas 16 milhões de dólares — não cobrindo nem o valor gasto em sua produção. Depois que a campanha do Oscar começou, porém, o filme foi relançado, e conquistou 75 milhões. Hoje, ele geralmente encabeça as listas de melhores adaptações de King.
Donnie Darko

Donnie Darko, 2001 // Hoje é considerado um clássico cult para todos os desajustados, mas Donnie Darko não se saiu muito bem na bilheteria em seu lançamento. Em partes porque teve o péssimo momento de ter sido lançado no começo do segundo semestre de 2001 — um filme com um acidente de avião logo após a tragédia do Onze de Setembro —, o marketing da produção ficou muito prejudicado. Custando 4,5 milhões de dólares, em seu primeiro lançamento o filme arrecadou pouco mais de 500 mil dólares. Mesmo com um lançamento limitado, em poucos cinemas, ainda assim é uma perda enorme em termos de ganhos. Mas, assim como Um Sonho de Liberdade, ele conseguiu faturar um pouco mais ao longo de outros lançamentos — hoje, sua bilheteria total é contabilizada em 7,5 milhões, além claro, de todo o sucesso que conquistou no meio cult.
Blade Runner: O Caçador de Andróides

Blade Runner, 1982 // É curioso pensar que um dos sci-fi mais influentes do cinema tenha sofrido em seu lançamento. Blade Runner não chegou a ser um fracasso em seu lançamento — no geral, contabilizou 41,8 milhões de um orçamento de 30 milhões (o que, tecnicamente, não é muito, mas é melhor que os outros dois filmes que listamos até agora) —, e muitos elementos receberam elogios, como seu visual e sua trilha sonora. Ainda assim, ter sido lançado tão próximo do lançamento de E.T. O Extraterrestre — que, em comparação, fez 797 milhões em bilheteria contra seus 10 milhões de orçamento (esses 10 milhões foram pagos ainda no primeiro final de semana de lançamento, depois, o filme rendeu apenas lucros) — talvez tenha prejudicado ainda mais o filme.
Um Corpo que Cai

Vertigo, 1958 // Se hoje Um Corpo que Cai pode ser considerado uma das maiores obras de Hitchcock — e do cinema como um todo —, ninguém previa que isso poderia acontecer em seu lançamento. Dos filmes do cineasta, inclusive, Um Corpo que Cai não entra nem entre as dez produções de maior bilheteria. Pode não ter sido um fracasso gigantesco de bilheteria, mas não foi o maior sucesso, também. Porém, com o passar do tempo, começou a receber mais atenção — devido, em grande parte, aos seus relançamentos e restaurações. Hoje, as listas de melhores filmes da história do cinema dificilmente passam por Um Corpo que Cai sem uma citação.
Quando Chega a Escuridão

Near Dark, 1987 // Com um orçamento de 5 milhões, o filme de vampiros totalmente estilizado e que fugiu completamente do que se pensava em relação a essas criaturas de Kathryn Bigelow fez apenas 3,4 milhões nas bilheterias. Mas, em parte, isso se deu por causa do momento em que foi lançado: em 1987, Os Garotos Perdidos (que teve uma bilheteria de 32,5 milhões) estava sendo lançado; apenas dois anos antes, A Hora do Espanto (24,9 milhões de bilheteria) também tinha chegado aos cinemas. Os vampiros, em si, já estavam sofrendo uma derrocada por parte do público. Quando Chega a Escuridão era diferente demais, talvez “sério” demais, e não fez com que a audiência o buscasse nas salas de cinema. Hoje, porém, é um filme aclamado e sempre lembrado pelos fãs de terror.
The Rocky Horror Picture Show

The Rocky Horror Picture Show, 1975 // Ninguém ligou muito quando uma peça inglesa chegou aos cinemas. O famoso crítico Roger Ebert, inclusive, afirmou que Rocky Horror seria mais interessante se não fosse “um picture show”, e ficasse apenas nos palcos, onde nasceu. Relegado à sessão da meia-noite depois de não ter feito sucesso para além de Los Angeles, The Rocky Horror Picture Show, porém, logo se tornou um sucesso do boca a boca. Desde 1976 centenas de pessoas vão aos cinemas para participar das exibições que contam com a participação do público, vestidos de corsets e cheios de maquiagem. Além de ícone cult, Rocky Horror se tornou — ou nasceu para ser — um ícone queer. Hoje sua bilheteria contabiliza 170 milhões de dólares — contra um orçamento de 1,4 milhão. Sua importância ultrapassou e muito o que um crítico foi incapaz de enxergar naquele momento.
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Garota Infernal

Jennifer’s Body, 2009 // Um dos maiores erros de marketing da história do cinema de gênero, Garota Infernal pode ser usada como caso de estudo. Quando lançado, o filme não foi um fracasso colossal — foi apenas um fracasso. Com um orçamento de 16 milhões, conquistou uma bilheteria de 31,6 milhões (em outros casos dessa lista, essa bilheteria não seria um fracasso, mas ao final dos anos 2000, fazer quase o dobro de seu orçamento já não era algo a se comemorar). O marketing de Garota Infernal apostou em vender o filme para rapazes, considerando que Megan Fox os levaria para o cinema. A produção, porém, tinha um apelo muito maior para o público feminino. Quando, enfim, passaram a perceber que o filme era destinado a elas, muitas mulheres começaram a construir um verdadeiro culto ao redor da produção. Pergunte a uma fã de terror e — dados levantados a partir das vozes que ouvimos aqui na Fazenda — duas entre três fãs do gênero farão uma defesa da produção.
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O Iluminado

The Shining, 1980 // O Iluminado não foi um fracasso de bilheteria. Na verdade, em um lançamento em final de semana prolongado de quatro dias, foi a terceira maior bilheteria, até aquele momento, para um filme lançado em menos de 50 salas de cinema — ficando atrás apenas de Star Wars (1977) e A Rosa (1979). Mas a percepção do filme em seu lançamento, ainda assim, foi muito diferente da visão que temos dele hoje. Considerado por muitos a melhor adaptação de Stephen King, o filme, na época, concorreu a dois Framboesas de Ouro: Pior Diretor e Pior Atriz (que foram rescindidos). Não que levemos a sério o Framboesa de Ouro, mas ele nos serve como termômetro para algumas produções: se hoje vemos O Iluminado como um filme praticamente intocado — que gera documentários e estudos e tem um verdadeiro altar na história dos filmes de terror —, quando ele foi lançado, entretanto, não foi bem assim.
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O Enigma de Outro Mundo

The Thing, 1982 // Não há dúvidas de que, hoje, O Enigma de Outro Mundo é considerado um dos maiores filmes de sci-fi e, talvez, a maior obra de John Carpenter. Inspirando jogos, remakes, séries, outros filmes, a obra é de uma importância sem tamanho para o terror. Mas, em seu lançamento, a coisa não foi bem assim. Sendo ele próprio um remake do clássico de ficção científica O Monstro do Ártico (1951), que, por si, foi a adaptação da novela Who Goes There?, de John W. Campbell Jr., O Enigma de Outro Mundo já não começou sendo visto com muitos bons olhos. Com um orçamento de 15 milhões de dólares, fez apenas cerca de 20 milhões, o que não é exatamente um prejuízo, mas não pode ser considerado uma boa bilheteria. Um dos motivos citados para a baixa bilheteria, apesar de ter recebido boas críticas dos efeitos especiais, se deu, também, igual a Blade Runner, pela competição com o lançamento de E.T. O Extraterrestre — o vilão dos filmes de ficção científica lançados em 1982.
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