A carreira cinematográfica de William Lustig

Diretor de O Maníaco e Maniac Cop, a Macabra relembra a carreira de William Lustig, grande nome dos filmes de baixo orçamento.

Diretor, roteirista e produtor, William Lustig é hoje conhecido principalmente por seu cult clássico do slasher O Maníaco, de 1980. Mas sua carreira remonta desde os anos 1970, quando ainda era um jovem de ensino médio. Lustig é sobrinho do campeão de boxe peso médio Jake LaMotta, um dos grandes nomes do boxe do período, conhecido como Raging Bull e quem foi inspiração para Touro Indomável, e que teve um papel no mínimo importante para a entrada de Lustig no universo dos filmes. 

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A Macabra relembra a carreira cinematográfica desse grande nome do cinema underground e recomenda alguns de seus filmes para o leitor mergulhar nessa experiência.

Nascido e criado no underground

Lustig trabalhou como diretor arduamente nos anos 1980, e conquistou uma legião de fãs apaixonados pelo terror underground, violento e cru — aquele que vemos no filme mais famoso de Lustig como diretor, O Maníaco. Lustig ganhou reconhecimento por seus trabalhos, claro, mas contou com um empurrãozinho de seu tio, Jake LaMotta.

O “Raging Bull”, Jake LaMotta

Amigo de alguns diretores de filmes adultos, Jake LaMotta conseguiu que Lustig trabalhasse com o produtor Peter Savage. Roteirista e ator, Savage era um amigo íntimo da família de LaMotta, e trabalhou posteriormente com o boxeador no filme Touro Indomável — que conta sobre a carreira de LaMotta —, sendo não apenas roteirista da produção de Martin Scorsese, como também ator, interpretando o personagem Jackie Curtie.

De acordo com entrevista de Lustig com Roel Haanen, publicada no site The Flashback Files, a primeira produção da qual participou foi Hypnorotica, um filme adulto dirigido, escrito e produzido por Savage de 1973. Lustig conta nessa entrevista que “A faculdade de cinema nunca desempenhou um papel fundamental no meu início na indústria cinematográfica […] O que aconteceu foi o seguinte: consegui um emprego como assistente de produção trabalhando em vários filmes adultos. […] E foi por intermédio de Pete que conheci as pessoas que me deram trabalho em outros filmes”.

Peter Savage

Na entrevista, Lustig segue recordando o início de sua carreira. Ao ser perguntado se, ao começar nos filmes adultos, ele não tinha medo de não sair mais desse nicho, ele afirma que não se sentou e planejou uma carreira: “Eu simplesmente aproveitava qualquer oportunidade. Lembre-se que quando fiz meu primeiro filme adulto, The Violation of Claudia, que eu produzi e dirigi, eu tinha apenas 21 anos. Eu só pensava: Ótimo! Vou fazer um filme! Tentei torná-lo o mais comercial possível. Não fiquei feliz em fazer um segundo filme, mas fiz o melhor que pude. Era assim que eu encarava a vida. Quando fiz O Maníaco aos 24 anos, nunca imaginei que estava fazendo um filme que se tornaria um clássico. Eu não sabia. Só queria recuperar o investimento e, ao mesmo tempo, fazer o filme mais assustador que conseguisse”.

As influências de O Maníaco

Sendo jovem, e já estando inserido no universo cinematográfico, Lustig conta que sua vida era assistir a filmes, chegando a matar aula para ir ao cinema (quem nunca, não é mesmo?). Suas maiores influências eram os filmes lançados naquele período, entre os anos 1960 e 1970, e que muitos jovens foram conhecer apenas anos mais tarde. “Eu tinha uma vantagem sobre outros cineastas da época: um apetite insaciável para assistir a todos os filmes já feitos”, conta. “Foi um ótimo período em Nova York — no final dos anos 1960, nos anos 1970 e começando a declinar no início dos anos 1980 — em que havia ‘cinemas de repertório’ que exibiam sessões duplas de filmes clássicos. Então, eu realmente assistia a muitos filmes. Ia sete dias por semana. Matava aula para ir ao cinema durante o dia.” 

Quando fiz O Maníaco aos 24 anos, nunca imaginei que estava fazendo um filme que se tornaria um clássico. Eu não sabia. Só queria recuperar o investimento e, ao mesmo tempo, fazer o filme mais assustador que conseguisse.

Lustig segue apontando suas referências mais importantes para a construção de seu clássico: “Minhas influências na época eram O Bebê de Rosemary, os filmes de Dario Argento, Lucio Fulci. Eu conhecia todos esses diretores antes de se tornarem populares. O Pássaro das Plumas de Cristal foi uma grande influência. Prelúdio para Matar também. Pensei bastante em Hitchcock. Se eu fosse dissecar O Maníaco com você, poderia lhe dizer o que se passava na minha cabeça em várias cenas e em certos planos”.

A parceria com Tom Savini

Tom Savini e Joe Spinell no set de O Maníaco

Um dos maiores mestres dos efeitos práticos que o cinema de horror conheceu, Tom Savini teve um papel de destaque em O Maníaco — além de interpretar o personagem que foi chamado de “Disco Boy”, é ele também o responsável pelos efeitos do filme, inclusive aquele em que ele explode a própria cabeça. 

Como toda boa história, a de como Tom Savini — que já era uma estrela na época — acabou participando de O Maníaco é, também, uma história curiosa e divertida. Lustig havia visto Despertar dos Mortos, de 1978, o filme que alçou de vez Savini ao papel de mestre dos efeitos, e ficou impressionado com o que viu. Lustig entrou, então, em contato com Richard Rubinstein, produtor de Despertar dos Mortos, que o colocou em contato com Savini. 

Tom Savini em cena de O Maníaco

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Na época, Savini estava gravando Sexta-Feira 13. Lustig, Andy Garroni e Joe Spinell foram se encontrar com Savini no set de filmagens, para o convencerem a participar de O Maníaco, e o único pedido que Tom fez foi de que Lustig conseguisse um apartamento para ele quando terminassem as gravações de Sexta-Feira 13 — aparentemente ele havia saído de um relacionamento naquele momento, que o deixou com uma mão na frente e outra atrás, e precisava de um lugar para ficar. 

Três filmes de William Lustig

O Maníaco

Maniac, 1980 // Frank Zito (Joe Spinell) é um homem perturbado: com uma infância complexa, cresceu e se tornou um maníaco assassino, se encontrando com jovens mulheres e as transformando em suas vítimas, as escalpelando e levando seus cabelos para sua casa. Algo muda, porém, quando ele conhece Anna D’Antoni (Caroline Munro). Feito com um orçamento baixíssimo, O Maníaco se tornou um clássico cult e é o filme mais conhecido de Lustig. Ganhou um remake em 2012, dirigido por Franck Khalfoun e protagonizado por Elijah Wood, do qual o cineasta afirmou ter gostado muito. Também ganhou uma novelização por Stéphane Bourgoin, famoso por seus livros e entrevistas de true crime, lançada no Brasil pela DarkSide Books. 

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Maniac Cop: O Exterminador

Maniac Cop, 1988 // Pessoas inocentes estão sendo mortas por um assassino brutal uniformizado como policial. Frank McCrae (Tom Atkins) começa a investigar a situação, e um jovem policial, Jack Forrest (Bruce Campbell) é preso por ser suspeito. Quem, afinal, é este assassino? Escrito por Larry Cohen e dirigido por Lustig, Maniac Cop encontrou sua legião de fãs e recebeu duas sequências: Maniac Cop 2: O Vingador (1990) e Maniac Cop 3: O Distintivo do Silêncio (1992); os três filmes mantiveram a dupla Cohen-Lustig como roteirista e diretor. Houve o anúncio de um remake por Ed Brubaker, mas o projeto está pausado por tempo indeterminado.

Os Vigilantes

Vigilante, 1982 // Menos terror e mais um filme de suspense, Os Vigilantes conta a história de Eddie Marino (Robert Forster), um simples trabalhador de uma fábrica que se torna um vigilante depois que sua esposa e filho são assassinados e a justiça falha em punir os culpados. Como boa parte dos filmes de Lustig, Os Vigilantes trata do sistema falho de Nova York. Este, talvez, mesmo sendo um de seus filmes menos conhecidos, possa ser considerado uma de suas produções mais sérias. Conta com Joe Spinell (de O Maníaco), Fred Williamson e Rutanya Alda no elenco.

Bônus: Uma Noite Alucinante 3

Army of Darkness, 1992 // Certo, isso aqui é muito mais uma brincadeira do que de fato um filme de William Lustig, mas vale a pena mencionar pela curiosidade. Lustig e Sam Raimi, assim como muitos cineastas dos anos 1980 que começaram a fazer seus filmes com dez dólares na conta e um sonho, acabaram se cruzando em determinado momento. Lustig, afinal, fez uma pontinha em Uma Noite Alucinante 3, junto de Bernard Rose (diretor de Candyman). Esses atores serviram como “Fake Shemp”, termo criado pelo próprio Sam Raimi por causa de Shemp Howard, de Os Três Patetas, que depois de sua morte precisou de várias técnicas diferentes — inclusive dublês — para que seus filmes fossem completados. Um Fake Shemp é exatamente isso: dublês de corpos para atores que não podem continuar fazendo seus filmes. No caso de Uma Noite Alucinante 3, Fake Shemp foi utilizado para creditar atores (e esses dois diretores) cujos personagens não tinham nomes. 

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Acordo cedo todos os dias para passar o café e regar minhas plantas na fazenda. Aprecio o lado obscuro da arte e renovo meus pactos diariamente ao assistir filmes de terror. MACABRA™ - FEAR IS NATURAL.