Branko Jelinek e os abismos da infância: entrevista com o artista de Oskar Ed

Em Oskar Ed: Meu Maior Sonho, o quadrinista eslovaco transforma uma viagem em família em um mergulho por memória, culpa, imaginação e pelos lugares mais inquietantes da experiência infantil.

Há algo de familiar e profundamente estranho no universo de Branko Jelinek. Seus desenhos parecem nascer exatamente naquele ponto em que a realidade cotidiana começa a perder a estabilidade: espaços se deformam, lembranças se misturam à imaginação e sentimentos que não encontram palavras acabam ganhando corpo sobre o papel. Quadrinista, ilustrador e artista visual eslovaco radicado em Praga, Jelinek construiu ao longo de décadas uma linguagem gráfica minuciosa, marcada pelo preto e branco, pelas hachuras obsessivas e por uma atmosfera que transita livremente entre o íntimo, o surreal e o inquietante.

É nesse território que vive Oskar Ed, personagem que acompanha o artista há mais de vinte anos e que Jelinek prefere enxergar como uma espécie de ator, uma figura conhecida que pode assumir diferentes papéis e atravessar histórias independentes. Em Oskar Ed: Meu Maior Sonho, graphic novel lançada pela DarkSide Books, ele é uma criança confinada ao banco de trás de um carro enquanto seus pais discutem durante uma viagem. O que poderia ser apenas uma situação banal logo se transforma em outra coisa. Pela perspectiva de Oskar, a crise familiar se expande para um universo de fantasias, medos, culpa e imagens que tornam cada vez mais tênue a fronteira entre aquilo que acontece do lado de fora e aquilo que existe dentro dele.

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Jelinek levou anos para construir essa jornada, e a dimensão do tempo parece impregnada em cada página. Oskar Ed: Meu Maior Sonho é uma história sobre uma família se desfazendo, mas também sobre a maneira como uma criança percebe o mundo dos adultos antes mesmo de conseguir compreendê-lo. Sobre aquilo que os pais dizem, e, principalmente, aquilo que não dizem. E sobre como acontecimentos aparentemente pequenos podem adquirir proporções gigantescas quando vistos pelos olhos de alguém que ainda não aprendeu a relativizar o medo, a tristeza ou a culpa.

Há também algo intensamente cinematográfico na obra de Jelinek. Seus enquadramentos, silêncios e rupturas visuais carregam ecos do cinema surrealista e do horror psicológico, enquanto a tensão nasce menos daquilo que é mostrado do que da sensação persistente de que existe alguma coisa escondida sob a superfície. Não surpreende que o artista cite David Lynch e Eraserhead entre suas referências formativas, ou que encontre afinidade, hoje, em filmes como O Farol, de Robert Eggers.

Nesta conversa inédita com a Macabra, Branko Jelinek fala sobre infância e percepção, a culpa que crianças podem carregar pelos conflitos dos adultos, os muitos anos dedicados a cada obra, sua relação cada vez mais íntima com Oskar Ed e o cinema que atravessa seu imaginário. No centro de tudo, porém, está uma ideia muito simples: a arte como possibilidade de olhar novamente para a realidade — e talvez enxergar nela algo que a vida adulta nos ensinou a deixar de perceber.

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1. Você já disse em outras oportunidades que o olhar de uma criança intensifica tudo, porque as crianças são especialmente sensíveis ao que acontece ao seu redor. Em Oskar Ed: Meu Maior Sonho, Oskar percebe a crise entre os pais sem necessariamente ter todas as ferramentas para compreendê-la. O que mais lhe interessava: aquilo que uma criança entende sobre os adultos ou aquilo que ela entende de forma equivocada?

Tenho uma tendência, na vida, a não subestimar as crianças. Os adultos muitas vezes as enxergam como seres ainda incompletos, que só irão amadurecer com o tempo. E talvez esse seja um erro. Talvez, à medida que deixamos para trás a infância, percamos gradualmente essa riqueza de percepção.

Percebo em mim mesmo como, com o passar dos anos, vou me tornando menos sensível, e coisas que antes reverberavam profundamente em mim acabam perdendo parte de sua importância. E, sinceramente, essa perda de sensibilidade em relação ao mundo ao redor me assusta.

Por isso, nunca enxerguei a perspectiva de Oskar como uma interpretação falha da realidade. O que me interessava era justamente essa espécie de redescoberta ancestral de uma riqueza perdida, aquele presente extraordinário dos primeiros anos de vida. É essa riqueza que, mesmo depois de adultos, continua projetando sobre nossa tela imaginária as imagens da infância.

Quero mergulhar nessa toca de coelho da infância, que acabou soterrada sob as camadas das nossas responsabilidades adultas, e me afastar do olhar de adulto. E então aproveitar a descoberta daquilo que ainda podemos encontrar lá dentro.

2. Há um momento em que a imaginação de Oskar deixa de parecer uma fuga da realidade e passa a soar talvez como a forma mais verdadeira de compreendê-la. Você acredita que a fantasia pode revelar coisas que uma representação realista não consegue?

Você definiu isso lindamente na própria pergunta. Acho que é exatamente assim. E, do meu ponto de vista, esse é o objetivo mais puro da arte: nos oferecer novas perspectivas sobre a realidade e nos ajudar a compreendê-la um pouco melhor.

A realidade, tal como a percebo com meus próprios olhos e no cotidiano, é, na verdade, terrivelmente entediante. Eu jamais poderia viver uma vida tão rica quanto aquela que sou capaz de imaginar e inventar. Então por que abrir mão dessa riqueza, se ela pode tornar nossa própria vida mais rica?

E, se percorrer essa dimensão adicional da existência criada pela imaginação puder nos oferecer uma nova maneira de olhar para a nossa própria vida, então ganhamos duas vezes: acrescentamos uma nova riqueza à nossa experiência e, ao mesmo tempo, conseguimos algo que para muitas pessoas é difícil alcançar, confrontar a própria vida a partir de um novo olhar. Para mim, é justamente esse o valor que a arte traz para as nossas vidas.

3. Grande parte de Oskar Ed: Meu Maior Sonho se passa durante uma viagem de carro, um espaço pequeno e fechado, ocupado por uma família que já parece não caber mais dentro de si mesma. Em algum momento, o carro deixou de ser apenas um cenário e se tornou, para você, uma imagem da própria família?

Quando comecei a pensar no livro, antes mesmo de produzi-lo, eu queria criar uma história intimista. E a metáfora do carro, como um espaço do qual você não pode simplesmente sair enquanto alguém está dirigindo, combinava muito bem com aquilo sobre o que eu queria falar.

Gosto de filmes e peças de teatro que se passam em um único ambiente. Quando, na história que você está contando, não é preciso atravessar o mundo inteiro, mas permanecer em um espaço relativamente pequeno, é possível cavar essa toca de coelho muito mais fundo. E aquilo que descobrimos ali, dentro de nós mesmos, às vezes pode valer mais do que contemplar as pirâmides ou as Cataratas do Niágara.

O drama interior, que vivemos dentro de nós, não é menor do que o drama de qualquer herói de cinema tentando nos entreter na tela. Eu não subestimo nenhuma história de vida das pessoas comuns que encontramos no transporte público, porque de cada uma delas poderia surgir um filme ou um livro capaz de dizer alguma coisa ao mundo.

4. Oskar observa uma relação entre adultos se desfazendo, mas conhecemos esses adultos quase inteiramente pela perspectiva dele. Em algum momento você se preocupou com a possibilidade de, como leitores, sermos injustos com os pais simplesmente porque estamos confinados ao ponto de vista da criança?

Pessoalmente, nunca tive a intenção de reconstruir os problemas dos pais para além do que era necessário para a história. Isso provavelmente mereceria um livro à parte — talvez, idealmente, um para cada um deles, para que pudéssemos acompanhar suas perspectivas.

Para mim, bastava mostrar os fatos e as informações que Oskar consegue perceber a partir do próprio ponto de vista. Eu não queria me afastar demais do foco no universo da criança e na maneira como ela interpreta aquilo que acontece ao seu redor.

Queria, metaforicamente, segurar Oskar pela mão enquanto contava a história, para permanecer sempre próximo dele. Não senti necessidade de abandoná-lo para atravessar a porta de um consultório de terapia de casal e descobrir mais detalhes sobre as discussões dos pais em uma sessão com um terapeuta. Esse tipo de voyeurismo sobre a intimidade do casal simplesmente não me interessava muito enquanto eu desenhava o livro.

5. Há muita culpa em Oskar Ed: Meu Maior Sonho, inclusive a sensação de que uma criança pode se sentir responsável por coisas que pertencem inteiramente ao mundo dos adultos. Por que você acha que as crianças têm tanta tendência a transformar os fracassos dos pais em uma forma de culpa pessoal?

Quando vejo como nós, adultos, conseguimos transformar coisas banais em algo enorme, sinceramente me assusta imaginar as proporções que essas mesmas coisas podem atingir no universo sensível de uma criança.

Ali, cada sentimento existe de maneira cristalina, em toda a sua intensidade e concentração. Ele ainda não é diluído por experiências de vida que, às vezes, nos ajudam a relativizar até mesmo aquilo que somos capazes de sentir. A criança não reprime o que acontece dentro dela; ao contrário, abre completamente as comportas.

Nesse universo infantil, quando a culpa começa a circular pelo cômodo durante uma discussão entre os pais e acaba pousando no ombro de uma criança, ela pode carregar o peso de uma cordilheira inteira.

6. Se você tivesse contado Oskar Ed: Meu Maior Sonho como um romance, um filme ou uma animação, ele necessariamente seria uma obra diferente. O que existe nessa história que só poderia ser contado por meio dos quadrinhos?

Sou autor de quadrinhos e tenho enorme respeito por outras formas de arte. Mas não me atrevo a estabelecer fronteiras muito rígidas entre elas.

Quando, no passado, diretores ou produtores de cinema me procuraram para conversar sobre a possibilidade teórica de adaptar Oskar, eu sempre enxerguei isso como a abertura de um novo espaço criativo, no qual eu já não precisaria necessariamente estar tão presente.

Eu respeitaria essa possibilidade como uma oportunidade de Oskar ganhar vida em uma nova obra, a partir da interpretação daquele livro e da visão autoral de outra pessoa — alguém que, por exemplo, compreenda a linguagem cinematográfica melhor do que eu.

Para mim, seria semelhante ao que acontece quando adapto o material literário de outro autor. Entendo que aquela pessoa já disse o que tinha a dizer por meio de sua obra, e então entro em cena com a minha própria interpretação daquele material.

E, claro, nesse processo é possível tanto acertar quanto errar. A própria relação de Stephen King com a adaptação de O Iluminado feita por Stanley Kubrick mostra que a insatisfação inicial do autor da obra literária com uma adaptação cinematográfica não significa que o filme não possa, ainda assim, conquistar um lugar de culto na história do cinema.

7. De todo modo, há algo profundamente cinematográfico em Oskar Ed: Meu Maior Sonho, não apenas nos enquadramentos e no ritmo visual, mas também na maneira como a tensão se constrói a partir daquilo que permanece oculto ou sem explicação. Houve filmes, cineastas ou linguagens cinematográficas específicas que ajudaram a moldar a forma como você imaginou o livro? E existem filmes que hoje você considera “parentes” inesperados de Oskar Ed, mesmo que não tenham sido influências conscientes na época?

Acho que, durante meus anos de estudante, fui muito influenciado por David Lynch. Eraserhead tinha exatamente a dose certa daquela sensação de inquietação que ainda hoje procuro e tento descobrir no meu próprio trabalho. Nas críticas a Oskar Ed, também aparecem comparações com o cineasta surrealista tcheco Jan Švankmajer e com David Cronenberg. De modo geral, o cinema é uma forma de arte que amo profundamente. Seria difícil mencionar, em tão pouco espaço, todos os autores e cineastas pelos quais tenho enorme respeito. De qualquer maneira, gosto muito quando uma obra oferece espaço suficiente para que o espectador também possa brincar com suas próprias interpretações. Quanto mais velho fico, mais valorizo esse tipo de cinema. Entre os filmes mais recentes que assisti, posso citar, por exemplo, O Farol, de Robert Eggers, de que gostei muito.

Eraserhead, 1977

8. Você passou muitos anos trabalhando em Oskar Ed: Meu Maior Sonho. Quando se dedica tanto tempo a uma história sobre infância, família e memória, a pessoa que termina o livro já não é exatamente a mesma que o começou. Em algum momento você sentiu que precisava discutir com os instintos do seu eu mais jovem ou revê-los para conseguir concluir a obra?

Normalmente, trabalho nos meus livros durante sete ou oito anos. Isso acaba gerando um material um pouco diferente daquele que surgiria se eu passasse apenas um ano trabalhando nele — que seria, mais ou menos, o tempo necessário para desenhar um livro desses se eu não fizesse absolutamente mais nada.

Mas esse concentrado de oito anos tem, para mim, um valor maior. Ele funciona como um reservatório de sentimentos que vou guardando e acumulando ao longo desse período. Em oito anos, é possível cavar muito fundo dentro de si mesmo ou dentro de Oskar.

E você tem toda razão: ao longo desses anos, uma pessoa muda e pode até se tornar alguém diferente. Por isso, hoje é difícil para mim (e aconteceu o mesmo quando comecei a planejar meu livro mais recente, Oskar Ed: My Best Friend) escolher um tema com o qual eu queira me apresentar como autor daqui a, digamos, dez anos.

Esse processo de reflexão e de busca por um tema que realmente mereça tantos anos de dedicação pode se tornar um grande bloqueio criativo, que preciso encontrar uma maneira de superar depois de concluir cada livro.

9. Durante muito tempo, você descreveu Oskar como um “ator” que poderia escalar para histórias diferentes. Mais recentemente, depois de mais de vinte anos ao lado dele, você disse que os dois parecem estar se misturando, e que as diferenças entre vocês talvez estejam começando a desaparecer. Em que momento Oskar deixou de ser apenas seu ator e passou a se tornar também uma espécie de espelho?

Nunca tentei descrever minha própria vida por meio de Oskar. Mas gosto de explorar a vida em si na presença dele, e talvez, sobretudo, seus cantos mais sombrios, aqueles que a maioria de nós protege com ansiedade para que o olhar dos outros não os alcance.

Há algo extraordinariamente íntimo nisso. E, como você disse, Oskar e eu nos conhecemos há tanto tempo que conseguimos compartilhar esse tipo de intimidade sem medo. Isso nos dá a sensação de segurança de que necessariamente precisamos para realizar esse tipo de investigação.

Oskar Ed é, para mim, o que Johnny Depp é para Tim Burton ou Leonardo DiCaprio para Martin Scorsese. Em resumo, sinto-me seguro na presença dele e sei que os limites de Oskar são apenas os limites das minhas próprias capacidades como autor.

10. Quando um leitor termina Oskar Ed: Meu Maior Sonho, o que você mais gostaria que ele sentisse em relação a Oskar: vontade de protegê-lo, de compreendê-lo, de reconhecê-lo ou talvez certo desconforto ao perceber algo de si mesmo nele?

Empatia. Com bastante frequência, jornalistas escrevem em resenhas que o livro os fez parar por um instante e pensar com mais atenção no impacto que nossas ações cotidianas podem ter sobre as crianças. E isso provavelmente é uma das coisas mais bonitas que poderiam acontecer comigo como autor: conseguir interromper o leitor por um momento e despertar nele o esforço de se colocar no lugar de outro ser humano. É um esforço que, às vezes, acaba desaparecendo sob as camadas da vida cotidiana. Ficarei feliz se alguma criança puder acordar em um mundo um pouco melhor depois que seus pais lerem meu livro.

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MACABRA™ - FEAR IS NATURAL