Entrevista com Cesar Bravo: “Está cada vez mais difícil competir com os horrores da realidade”

Confira a entrevista com um dos grandes nomes do horror no Brasil e prepare-se para ser transportado para a macabra cidade de Três Rios

Dizem que segredos não sobrevivem por muito tempo em cidades pequenas. Mas, em Três Rios, eles estão por toda parte há tempo demais. Sombrios, aterrorizantes e indecifráveis — um espelho da cidadezinha onde tudo aquilo que é estranho e profano sempre encontra um jeito de se manifestar na superfície.

O encontro inevitável de Cesar Bravo com a DarkSide® Books veio das profundezas. Algo visceral, que era para ser, como todas as coisas assinadas com sangue. Ultra Carnem selou o pacto entre a editora mais sinistra do Brasil e a mente maldita de Bravo, povoando os pesadelos dos leitores, que pediram mais. Mais histórias. Mais mistérios. Uma nova experiência sobrenatural, quem sabe?

VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue, livro anunciado pela DarkSide Books com lançamento previsto para dezembro de 2019, Bravo guia os leitores amaldiçoados até os cantos mais sombrios de nossas mentes. E a cidadezinha de Três Rios, localizada no noroeste paulista, é o palco principal — um ponto de encontro de todas as coisas estranhas que acontecem nas redondezas. O inferno corre por essas águas e lança suas sementes nessa terra. Um lugar vivo e pronto para devorar o próximo filho que renegar sua origem.

Cesar Bravo publicou suas primeiras obras de forma independente, e em pouco tempo ganhou reconhecimento dos leitores e da imprensa especializada. É autor e coautor de contos, romances, enredos, roteiros e blogs. Transitando por diferentes estilos, possui uma escrita afiada, que ilumina os becos mais escuros da psique humana. Suas linhas, recheadas de suspense, exploram o bem e o mal em suas formas mais intensas, se tornando verdadeiros atalhos para os piores pesadelos humanos. Agora parte da família macabra de autores nacionais da DarkSide® Books, Bravo concedeu uma entrevista para nós.

Cesar Bravo, autor brasileiro de terror publicado pela DarkSide Books

ENTREVISTA COM CESAR BRAVO
AUTOR BRASILEIRO DE TERRROR

  • Você é uma autor bastante prolífico e caminha nesta estrada há um bom tempo. Como aconteceu o pacto com a DarkSide® Books, primeira editora brasileira dedicada ao terror?
  • Creio que certos destinos estejam predestinados a se encontrar, assim como o sangue se encontra no coração e os rios se encontram no mar. Desde o primeiro momento que descobri a DarkSide, percebi uma aproximação de ideias que superava qualquer outra experiência anterior, dentro e fora do meio editorial. Sabia que ser apadrinhado pela Caveira seria uma missão muito difícil, mas continuei publicando de forma independente, participando de concursos e sonhando alto. Enquanto a DarkSide crescia e se firmava como a editora do coração dos leitores, surgiram os blogs, as parcerias, e meu nome, como um autor competente de horror. Quando essas duas linhas voltaram a se cruzar, firmamos nosso pacto sangrento, que originou Ultra Carnem, em 2016.

  • Como surgiu a ideia de VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue, e no que ele difere do já conhecido Ultra Carnem?
  • Existem algumas intenções nesse projeto, algumas não tão explícitas. Embora VHS seja um romance completo, ele é composto por 18 fragmentos da cidade de Três Rios que também funcionam de forma independente. Fiz isso propositalmente, para resgatar a energia dos contos que nem sempre é valorizada como deveria no mainstream. Se prestarmos atenção, um romance nada mais é que uma sucessão de contos, interconectados entre si, e não me parece justo o tratamento que as histórias curtas recebem no nosso mercado. VHS também resgata parte de minha formação cultural no gênero, que se deu através de filmes de horror das décadas de 1980, 1990. O cheiro vinílico das locadoras, a organização das seções, eu queria trazer isso de volta, e senti que era o momento certo para executar essa tarefa. Quanto aos dois livros, Ultra Carnem possui uma base de sustentação exotérica/espiritual, onde exploro a maldade humana e a influência da religião e das diferentes crenças sob esse aspecto. Em VHS, lancei minha energia para as diferentes possibilidades do horror. O introspectivo, o sangrento, o medo do além que não se justifica, tudo isso existe no universo de VHS. Em uma comparação bastante simples, costumo dizer que Satã bota o dedo em VHS, mas, diferente de Ultra Carnem, ele não o pega nas mãos.

    Neste livro o leitor terá desde a presença lúgubre do mal infernal, até animais que, contaminados com produtos e resíduos químicos do homem, se tornam assassinos impiedosos.

  • A beleza do horror é que ele se manifesta de diferentes formas, e se conectar com camadas macabras de cada ser humano. Como isso foi transposto para o seu novo projeto?
  • Em VHS, explorei o horror do dia a dia em boa parte das histórias. A ferida que cresce, a dor que não acaba, a raiva que se instala e leva os personagens a cometerem atos de uma violência ímpar. Neste livro o leitor terá desde a presença lúgubre do mal infernal, até animais que, contaminados com produtos e resíduos químicos do homem, se tornam assassinos impiedosos. Outra peculiaridade do projeto é a presença de histórias reais. Por questões particulares, não direi quais são elas, mas posso garantir que são as mais incômodas e desafiadoras do livro. O leitor terá acesso a personagens verossímeis, e será inevitável relacioná-los com vizinhos, figuras públicas, ou mesmo parentes cujos contatos foram perdidos com o avançar dos anos. De uma forma ou de outra, existe verdade em cada página visitada.

    VHS - Verdadeiras Histórias de Sangue, livro de Cesar Bravo
    Confira mais informações sobre o livro VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue na loja oficial da DarkSide Books.

  • Por que você costuma dizer que a cidade de Três Rios é seu inferno pessoal?
  • Três Rios e as cidades vizinhas se localizam em uma região quente, brutal, e que era bastante estranha entre 1985-1995. Além disso, habitei aquelas terras na minha adolescência (que não deixa de ser um resumo do inferno na existência humana). As histórias daquela região ainda hoje assombram meu coração, principalmente porque elas são plenamente possíveis. Nesse último ano, por exemplo, VHS se provou verdadeiro em pelo menos três partes e alguns personagens, e isso me deixou apavorado. Quero dizer, está cada vez mais difícil competir com os horrores da realidade, e quando o real e a ficção caminham de mãos dadas, é um momento bem difícil a ser superado.

  • VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue apresenta alguns contos que nos fazem questionar a nossa própria moralidade. Na sua opinião, existem lugares “proibidos” que um escritor de terror não deveria ir?
  • No terror, todo território é válido, o que também implica que um autor deve se responsabilizar por onde caminha com seu leitor. Stephen King faz isso com maestria, nos levando para os territórios mais obscurecidos de sua mente, e (quase sempre) nos devolvendo em segurança. Seja com a essência da maldade de seu Homem de Preto (que nada mais é que a representação de seus demônios pessoais), com o adolescente matador de “Rage”, ou com a previsão de uma realidade indigesta em “Dead Zone”, King vem nos confrontando com as piores possibilidades, ficcionais ou não. Por muito tempo, o politicamente correto foi um jargão indigesto para mim, que me considero um homem livre e libertário por essência, mas hoje compreendo que certas posturas precisam ser combatidas. Eu iria até o inferno em uma briga, mas iria mais longe para que cada indivíduo tivesse o direito de possuir e expressar sua própria opinião. A arte nos permite encarar qualquer abismo, e a sociedade em que nos encontramos pode sempre nos responsabilizar pelo que é propagado. É preciso tomar cuidado com os abismos, sabe? E mais ainda com o que eles sussurram pra você.

  • Como os habitantes de Três Rios afetaram você ao longo da produção do livro?
  • Nas histórias mais pungentes, me conectei muito a eles. E, sendo bem sincero, em algum momento de minha vida fora dos livros, conheci muitas daquelas pessoas. Alguns estão comigo desde o começo da escrita, é o caso de Millor, de “Torniquete”. Escrevi este fragmento em outro momento da minha vida. A Senhora Shin, que também surge em Três Rios, foi inspirada em uma antiga cliente do meu tempo de farmácia, muito parecida com a personagem do livro. Quando estamos imersos em um trabalho, é natural que passemos muito tempo com essas pessoas. E quando terminamos um trabalho, muitos deles se recusam a partir, e acabam ficando conosco por mais um tempinho. Esse é o caso de Três Rios, o grande personagem de VHS. A cidade maldita está comigo desde a primeira linha, desde a primeira infância, e duvido muito que esteja pronta para ir embora.

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    VHS - Verdadeiras Histórias de Sangue, livro de Cesar Bravo

    VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue está em pré-venda na loja oficial da DarkSide Books e com lançamento marcado para dia 03 de dezembro de 2019.

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    Desbravo terras e guio cabras pelo Vale das Sombras. Nas noites de quarta-feira reúno a família na fazenda para deliberar sobre filmes e livros de terror. MACABRA™ - FEAR IS NATURAL.