Se você está na casa dos trinta ou dos quarenta, deve fazer parte da geração que assistia a muitos filmes da Sessão da Tarde e que alugava os maiores sucessos na locadora do bairro. Em nossos momentos de ócio não tínhamos a internet para nos fazer companhia, então nos ocupávamos com o que havia disponível.
Muitos dos filmes que fizeram um baita sucesso nesse período são, justamente, voltados para essa faixa etária. Conhecidos como filmes coming of age, ou de amadurecimento, essas histórias acompanham jovens que estão para entrar na vida adulta e passando pelos típicos dramas da adolescência: romances, amizades, família e carreira, por exemplo.
A década de 1980: o auge do coming of age

Um dos filmes que mais guarda o espírito da juventude dos anos 1980 e 1990 ainda hoje, inclusive, é o maior representante também dessa categoria: Curtindo a Vida (1986), de John Hughes, o padrinho desse subgênero. Mas temos outros exemplos tão bem-sucedidos quanto: Sociedade dos Poetas Mortos (1989), Conta Comigo (1986), Clube dos Cinco (1985), De Volta para o Futuro (1985), Vidas Sem Rumo (1983), Labirinto: A Magia do Tempo (1986), Atração Mortal (1989)… a lista se estenderia por várias linhas, se fôssemos contabilizar todos.

Esse subgênero não é de agora: histórias sobre esse período complexo da vida, cheio de hormônios, crises e dificuldades de compreender seu lugar no mundo vêm de muitos anos e ainda hoje faz bastante sucesso. Mas houve algo ali, no período dos anos 1980 e 1990, que marcaram muito nossa geração, e fizeram com que esse subgênero se destacasse de outras produções.
O terror da adolescência
Mas não é apenas na comédia e no drama dos anos 1980 e 1990 que esse tipo de produção se destacou. Se pensamos em ansiedades e horrores… sem dúvida esse tema iria ganhar destaque, também, dentro do terror. Muitas vezes caminhando lado a lado com o teen horror — os filmes adolescentes de slasher, principalmente da década de 1990 e 2000 —, o coming of age foca mais nas questões internas desses personagens do que nos assassinatos em si. O problema não é tanto o assassino mascarado, mas o rebuliço de emoções que esses jovens estão passando.

Muitos desses filmes focam, quando a protagonista é uma garota (o que ocorre na maioria deles), na primeira menstruação ou nas primeiras relações sexuais. A sexualidade é um ponto de destaque nos filmes desse tema, bem como a aparência, a popularidade e questões que envolvem a família. Não é de se estranhar, também, que muitos desses filmes que saíram nos últimos quinze anos tenham sido dirigidos por mulheres.
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Grave

Raw, 2016 // O primeiro longa de Julia Ducournau é também o grande representante dessa temática dentro do terror atual. Antes dele, claro, houveram outros — que vamos listar logo menos —, mas Grave talvez seja o que explora essa temática de forma mais contundente nos últimos anos. A história de Justine (Garance Marillier), que entra na faculdade de veterinária se sentindo completamente deslocada por causa do trote, e logo descobre que, em sua adaptação, há algo novo, uma nova pessoa, surgindo, nos faz nos colocar em sua pele. Tudo isso, claro, amarrado com o canibalismo, que serve como metáfora para esse “algo novo” em sua vida. Ducournau sabe como poucos como explorar certos dramas, e aqui ela nos entrega de bandeja um dos melhores filmes sobre amadurecimento.
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Carrie, a Estranha

Carrie, 1976 // Ainda nessa pegada de “saindo da adolescência deslocada e descobrindo uma nova face” temos a mãe de todas as garotas desajustadas: Carrie, personagem criada por Stephen King em seu romance de mesmo nome, adaptado para as telas pela primeira vez por Brian De Palma pouco tempo depois de ter sido lançado como livro. Carrie é uma das histórias mais avassaladoras sobre amadurecimento e pertencimento, e como os horrores da adolescência podem ter consequências devastadoras. Uma jovem que sofria bullyings horríveis na escola, em um derradeiro trote de muito mau gosto acaba liberando seus poderes internos e põe a escola inteira abaixo. Carrie representa toda uma geração deslocada que, apesar de não ter poderes, consegue se liberar de antigos terrores assim que passa do baile de formatura para a vida adulta — com consequências bem menos trágicas, claro.
Os Garotos Perdidos

The Lost Boys, 1987 // Dirigido por Joel Schumacher, Os Garotos Perdidos pode, à primeira vista, parecer mais um filme de aventura de jovens garotos, como seria o caso de Os Goonies. Mas quando focamos na trajetória de Michael (Jason Patric) e como a mudança o deixou completamente perdido na vida, fazendo com que ele se aliasse e quisesse se tornar um vampiro apenas para pertencer, percebemos que Os Garotos Perdidos fala muito sobre a juventude e o amadurecimento (a duras penas). Não demora muito para Michael perceber o erro cometido por ele e a necessidade de resolver o problema, junto de seu irmão e dos novos amigos dele.
A Hora do Espanto

Fright Night, 1985 // Nesse mesmo sentido, temos A Hora do Espanto: dirigido por Tom Holland (o diretor, não o Homem-Aranha), acompanhamos a trajetória de Charley Brewster (William Ragsdale), um jovem que, de repente, tem sua vida virada de cabeça para baixo quando descobre que seu vizinho é um vampiro. Muito pior que isso: o vampiro transforma seu melhor amigo e pretende transformar também a sua namorada. Todas as tentativas de Brewster de avisar quem quer que seja são apenas ignoradas, justamente por ele ser jovem e por ser “estranho” (aqui, nesse caso, essa estranheza é por sua paixão por filmes de terror). O jovem, então, precisa lidar com a situação praticamente sozinho, contando apenas com a ajuda de Peter Vincent (Roddy McDowall). A novelização do filme, escrita por John Skipp e Craig Spector, aprofunda ainda mais as questões juvenis de Brewster, que envolvem não apenas a vida sexual com sua namorada, como a sua necessidade de amadurecer.
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It: A Coisa

It, 2017 // Seria impossível falar de filmes sobre amadurecimento sem citar It. As duas adaptações do livro de mesmo nome escrito por Stephen King dão conta do recado: um grupo de crianças deslocadas que são obrigadas a lidar com um enorme problema sobrenatural enquanto eles mesmo estão ainda aprendendo a lidar com seus conflitos internos: amizade, romance, família, todos esses temas aparecem metamorfoseados na criatura que os caça, e todos esses temas fazem com que essas crianças encarem de frente o amadurecimento. O que torna It — filmes e livro — tão especial e caro para esse tipo de história é que podemos visualizar como, quando adultos, o que houve nesse processo de crescimento, influenciou a vida desses jovens. Não vemos apenas a forma como aconteceu, como vemos seus desdobramentos.
Lisa Frankenstein

Lisa Frankenstein, 2024 // Uma jovem que não é lá muito popular na escola gosta de frequentar o cemitério e pedir por um romance. Certo dia, porém, essa vontade é atendida: um rapaz do século anterior é revivido e se transforma em seu amigo sobrenatural. Não bastasse a escola, a família, a pressão, o relacionamento que ela gostaria de ter e não tem, os amigos que gostaria de fazer e não faz, agora Lisa (Kathryn Newton) precisa lidar com um ser que foi despertado de repente em um século que não é o dele. Dirigido por Zelda Williams e roteirizado por Diablo Cody — a fada-madrinha das garotas fascinada pela ambiguidade da relação humano e não humano —, Lisa Frankenstein é um daqueles filmes que pode não ter tido o reconhecimento merecido quando lançado, mas ficará registrado como um dos grandes coming of ages dos últimos anos.
Garota Infernal

Jennifer’s Body, 2009 // Vítima de uma das piores campanhas de marketing da história do terror, Garota Infernal demorou a ser reconhecido, mas finalmente se transformou no ícone que deveria ser. A história de Needy (Amanda Seyfried), que vê a melhor amiga popular ser transformada em uma súcubo sanguinária e precisa detê-la; mas, também, a história de Jennifer (Megan Fox), uma jovem que se vê tendo que corresponder a expectativas que são jogadas nela (de beleza, de atitude, de sexualidade) das quais não tem nenhum controle. Tanto Needy quanto Jennifer precisam lidar com questões internas e externas (sobrenaturais), mas são as internas que mais chamam a atenção: tirando a metáfora de tornar-se um monstro com sede de sangue, essas questões são completamente voltadas aos dilemas do amadurecimento.
Corrente do Mal

It Follows, 2014 // Em Corrente do Mal, de David Robert Mitchell, nós acompanhamos Jay (Maika Monroe), uma jovem que, após um encontro sexual, começa a ser perseguida por uma entidade sobrenatural. Compreendido por muitos como uma metáfora para DSTs, há uma outra leitura possível, apontada em um artigo do site Bloody Disgusting: a possibilidade de que Corrente do Mal seja, na verdade, um filme sobre como é ser vítima de uma agressão sexual. Ambas as leituras apontam, de forma ou de outra, para como Jay é forçada por questões externas e sobrenaturais a lidar com questões internas: seu intercurso sexual resultou em uma situação perigosa; aquele a quem ela confiou, a traiu. Jay terá que lidar com esses conflitos, saindo da adolescência e entrando na vida adulta carregando esse peso.
Vagina Dentada

Teeth, 2007 // Ainda sobre a relação entre juventude e sexualidade e todos os desafios que ocupam a intersecção de ambos, o filme de Mitchell Lichtenstein, Vagina Dentada, ocupa uma posição de máxima importância. Utilizando de um mito que percorre vários locais do mundo — de mulheres que teriam dentes capazes de amputar pênis em suas vaginas —, Lichtenstein narra a história da jovem Dawn (Jess Weixler), uma jovem que, fazendo parte de um grupo de castidade feminina, acaba descobrindo ser portadora dessa condição. Um filme sobre abuso e violência que usa esse mito em questão para dar certo poder à protagonista.
Porquinha

Cerdita, 2022 // Sara (Laura Galán) sofre com sobrepeso, sempre sendo ridicularizada na escola. As coisas são piores no verão, quando todas as outras garotas estão mostrando seus corpos por aí. Mas não neste verão. Neste verão, Sara encontrará um aliado para lidar com o bullying que vem sofrendo. Em Porquinha, Carlota Pereda narra a história de Sara, que é a história de muitas adolescentes que passam pelo mesmo que ela, mas não tem a “sorte” que Sara tem, de encontrar um “amigo” que se vingue de todos (entendam as aspas com certa ironia, por favor). Assim como Carrie, Porquinha é um filme cuja ameaça externa, junto a um elemento de vingança, causa grandes transformações internas na protagonista — no caso, as ameaças externas são o bullying, e o elemento de vingança em Porquinha não é uma situação sobrenatural, e sim (spoiler!) um serial killer em busca de vítimas.
Valerie e a Semana das Maravilhas

Valerie and Her Week of Wonders, 1970 // Ainda antecessor a Carrie temos Valerie e a Semana das Maravilhas, filme do então país Checoslováquia, dirigido por Jaromil Jireš e adaptado do romance Valerie a týden divu de Vítezslav Nezval. Um já clássico filme no que diz respeito aos coming of ages, acompanhamos a personagem-título (Jaroslava Schallerová) em uma série de descobertas — tanto em relação a ela mesma, quanto em relação às pessoas e intenções que a cercam. A chegada de elementos estranhos na pacata vivência de Valerie (tanto pessoas que chegam à cidade quanto sua própria menstruação) transformam pra sempre a forma como a garota passa a enxergar a vida.
Jovens Bruxas

The Craft, 1996 // Muitos acreditam que o período da adolescência guarda certa magia. No caso de Jovens Bruxas, de Andrew Fleming, isso tecnicamente é verdade. Ao se mudar para uma cidade diferente, Sarah (Robin Tunney) se sente um pouco deslocada na nova escola. Ao se unir com um trio de outras garotas “deslocadas” socialmente, Sarah acaba envolvida na prática de bruxaria — ela mesma já tendo um dom natural para isso. A bruxaria serve como elemento capaz de trazer pertencimento ao grupo: se antes elas não tinham popularidade alguma, seus desejos e feitiços fazem com que se sintam mais bonitas, atraentes, e mais populares por consequência. Mas, claro, as coisas desandam. Sarah já não se sente mais tão à vontade assim com os pedidos. Entre a pressão social que está enfrentando, a pressão da bruxaria e a pressão de seus próprios conflitos internos, Sarah precisa escolher qual rumo irá tomar.
Possuída

Ginger Snaps, 2000 // John Fawcett, assim como Diablo Cody, construiu uma dupla de personagens que representam muito bem a ideia da caçadora ensandecida femme fatale e a vítima que precisa impedi-lá pelo próprio bem. Em Possuída, duas irmãs bastante deslocadas socialmente precisam enfrentar uma transformação imensa em suas vidas — literal e figurativamente. Ginger (Katharine Isabelle), em sua primeira menstruação, é atacada por um lobisomem. Quando se transforma em uma criatura dessas, é sua irmã, Brigitte (Emily Perkins), quem precisa lidar com toda a pressão e terrores das possíveis mortes que acontecerão em decorrência dessa transformação. Brigitte, antes acostumada a seguir a irmã, precisa encontrar uma forma de, sozinha, salvar Ginger.
A Bruxa

The Witch, 2015 // Sim, pasmem: A Bruxa pode ser um filme coming of age, se analisarmos a trajetória de Thomasin (Anya Taylor-Joy), nossa protagonista. Apesar de muito óbvio, é uma questão pouco destacada na maioria das vezes: acompanhamos a libertação e o amadurecimento de Thomasin ao longo do filme de Eggers. Thomasin é obrigada a carregar o fardo e a responsabilidade do bem-estar de todos ali, e conforme a situação piora, ela recebe de Black Philip a possibilidade de liberdade não apenas da sua família, mas da sociedade como um todo; ela amadurece a partir desses conflitos, que também são internos. Apesar de se passar no século XVII, Thomasin também enfrenta conflitos como qualquer jovem, dado seu contexto: é ela quem cuida da casa, dos irmãos mais novos, da mãe e do pai; é tudo responsabilidade dela. O agente externo que a auxilia nessa transição entre jovem e adulta é Black Philip ao oferecer a liberdade a ela.
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