Dance com o Diabo em Pecadores, de Ryan Coogler

Músicas, vampiros e o Delta do Mississipi: Pecadores já é um dos melhores filmes do ano. Saiba mais sobre a produção e confira dicas para continuar no clima do novo longa de Ryan Coogler.

Uma das maiores surpresas do cinema de terror de 2025, até o momento, é o filme Pecadores, de Ryan Coogler, que estreou dia 17 de abril. Se você acompanha as listas de filmes que serão lançados ao longo do ano, deve ter se deparado com o anúncio do primeiro filme de terror de Ryan Coogler, conhecido principalmente pela direção de Pantera Negra. Isso por si só já seria motivo para ficar de olho no que viria por aí, mas provavelmente ninguém estava preparado de fato para a obra-prima que Coogler entregaria.

No Delta do Mississipi, Sammie (Miles Caton) trabalha com sua família em uma plantação de algodão. Filho do pastor Jedidiah (Saul Williams), é conhecido por Pastorzinho. Quando seus primos Smoke e Stack (Michal B. Jordan) retornam de Chicago para abrir um bar de blues, eles contam com a música de Sammie para embalar a festa. Ao longo da noite, porém, eles terão um imprevisto: criaturas da noite estão à espreita, prestes a transformar todos que estiverem pela frente em monstros. 

A Macabra te conta um pouco mais sobre a produção e te dá algumas dicas de filmes, séries, livros e quadrinhos para se manter no clima de Pecadores.

O filme mais pessoal de Coogler

Em um bate-papo divertido com LeBron James (sim, o jogador de basquete) para o site Interview Magazine, Coogler conta que sempre gostou muito do terror, sendo Além da Imaginação uma de suas coisas favoritas de assistir quando ainda era um garoto. Com mais idade, seus primos passaram a apresentá-lo a filmes como A Hora do Pesadelo e Sexta-Feira 13

Coogler também comenta que nos anos 1990 houve um certo boom de filmes de terror “no gueto” (usando a melhor tradução para “in the hood” que conseguimos no contexto). Filmes como Tales from the Hood (1995) e Candyman (1992) apresentaram personagens negros como protagonistas, e se passavam em bairros e regiões habitadas principalmente por afro-americanos.

Meu coração estava lá, mas meu coração, mesmo antes de eu saber que queria fazer filmes, estava nos filmes de gênero.

Ele se conectou imediatamente com esses filmes, mesmo antes de saber que trabalharia um dia na indústria. Quando começou, enfim, acabou produzindo dramas. Seu primeiro longa foi Fruitvale Station: A Última Parada, um filme dramático cujos horrores estão mais ligados à vida real do que ao sobrenatural — e, para Coogler, a vida real é muito pior. 

Pecadores se passa há quase 100 anos e que guarda um laço forte com o passado. “O filme é sobre gerações que vieram antes de nós, ambientado na década de 1930. O que aprendi durante a pesquisa foi que a cultura, aquelas pessoas da Grande Depressão, realmente ditaram o que era legal naquela época, e continua sendo legal até hoje.” Para Coogler, o filme começou com a relação que ele tinha com seu tio, que era do Mississipi, a figura masculina mais velha de sua vida e que só escutava blues. “Eu sentava lá com ele e ele falava sobre o Mississippi, como ele cresceu e como isso influenciou tudo o que estávamos fazendo naquele momento.”

E essa é parte fundamental de seu sentimento em relação ao filme. Para Coogler, filmar Pecadores foi como “voltar para casa”, “Estou olhando para o sul dos Estados Unidos, que é, fora do continente africano, onde os negros chamam de lar”.

A música irlandesa

Não é apenas o blues e as work songs que chamam a atenção. A música de Remmick também é algo que salta aos olhos, inclusive por contrastar de forma tão impactante com o blue de Sammie. 

No podcast Filmmaker Toolkit, da Indiewire, Coogler comenta um pouco sobre essa escolha. “Eu sou obcecado por música folk irlandesa, meus filhos são obcecados com ela, meu primeiro nome é irlandês. Acho que não é tão reconhecido o quanto de crossover há entre a cultura afro-americana e a cultura irlandesa, e quanto esse tipo de coisa é amado na nossa comunidade.” De certa forma, isso pode ser explicado pela imigração de ambas as culturas. Assim como os asiáticos, também representados no filme pela família Chow (interpretados por Li Jun Li, Yao e Helena Hu), os irlandeses e os afro-americanos não eram exatamente bem aceitos nos Estados Unidos do começo do século XX.

Coogler conta que “Era muito importante que nosso vampiro mestre neste filme fosse único nessa situação. Era importante que ele fosse muito velho, mas também que ele viesse de um tempo que pré-existiam essas definições raciais que existiam neste lugar em que ele apareceu”. Como bem aponta a Indiewire, a questão de Remmick vir de centenas de anos, antes mesmo da colonização da Irlanda, e de seu discurso diante do grupo de Stack e Smoke, era fundamental para o avanço do filme pois, além ajudar a construir “sua conexão pessoal com a situação dos personagens negros e se separando da comunidade branca que os aterroriza”.

Remmick oferece uma oferta para que esses grupos sejam “livres”. É um pacto com o diabo, mas, e como sempre, o diabo parece ser mais empático em relação aos sofrimentos daqueles a quem ele busca.

Dicas para você que amou Pecadores

Livro: Ring Shout

Escrito por P. Djèlí Clark, em Ring Shout os horrores reais se encontram com os horrores sobrenaturais, assim como em Pecadores. No livro de Clark, em uma realidade histórica alternativa, conhecemos seres monstruosos dignos da mente sombria de Lovecraft que, aliados à KKK, viajam pelos Estados Unidos levando horror e destruição. Maryse Boudreaux assumiu a missão de lidar com essas criaturas — bem como com os encapuzados. Boudreaux precisará enfrentar os demônios a sua volta e os seus próprios para salvar a nação. Uma história poderosa que combina como uma luva com o filme de Cooger.

LEIA+: 5 OBRAS PARA QUEM GOSTOU DE RING SHOUT: GRITO DE LIBERDADE

HQ: Heróis do Blues, Jazz & Country

A musicalidade é parte fundamental de Pecadores. Além das músicas irlandesas que permeiam os ataques de vampiros e as work songs que ouvimos na primeira parte do filme, o blues se torna quase um personagem no filme de Ryan Coogler. Para combinar com o ritmo, nada melhor que a leitura de Heróis do Blues, Jazz & Country, de Robert Crumb, que é um tributo apaixonado pelos nomes importantes desse estilo. Nos anos 1980, inspirado por fotos clássicas de músicos do blues, Crumb produziu uma série de ilustrações. Anos mais tarde, reuniu o trabalho no formato de livro. A edição da DarkSide Books traz ainda perfis escritos por Stephen Calt, David Jasen e Richard Nevins.

Dobradinha: Aproveite para ler também Robert Johnson: Pacto de Amor à Música, de J.M. Dupont, quadrinho que narra a misteriosa história do músico Robert Johnson e as lendas que dizem que ele fez o pacto com o Diabo em uma encruzilhada em Clarksdale, Mississipi, para se tornar um grande músico.

Filme: Ganja & Hess

Dois preeminentes antropólogos descobrem as ruínas de um antigo povo africano de sugadores de sangue. Um deles, dr. Green (Duane Jones), acaba atacado pelo seu colega depois dele ter sido possuído pelo espírito da rainha do povo. Ao retornar para casa, Hess Green acaba envolvido com Ganja (Marlene Clark), ex-mulher de seu colega morto, e que também é logo contaminada. Juntos, eles acabam caçando vítimas para saciar sua sede de sangue. Escrito e dirigido por Bill Gunn (que também atua no longa como George Meda, o colega antropólogo morto), o filme é um clássico cult entre os filmes de vampiros. Ao lado de Pecadores, é, também, um filme que fala muito de tradições e é protagonizado majoritariamente por personagens negros.

Dobradinha: Se você está em busca de filmes com outros monstros clássicos e protagonismo negro, dê uma chance a A Fera Deve Morrer. Marlene Clark estrela esta produção, ao lado de Peter Cushing e Calvin Lockhart, onde os convidados de uma ilha precisam descobrir, entre eles, quem é o lobisomem. 

LEIA+: QUATRO FILMES DE TERROR PARA CONHECER DUANE JONES

Série: Lovecraft Country

Baseada no livro de Matt Ruff, Lovecraft Country nos leva em uma viagem repleta de monstros lovecraftianos e os horrores reais enfrentados pela população não branca dos Estados Unidos. Na série, Atticus (Jonathan Majors) é um homem que, buscando pelo seu pai, descobrirá uma série de segredos e mistérios. Auxiliado por Letitia (Jurnee Smollett) e seu tio George (Courtney B. Vance), o trio encara aventuras e terrores absolutos pelas estradas norte-americanas dos anos 1950.

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Acordo cedo todos os dias para passar o café e regar minhas plantas na fazenda. Aprecio o lado obscuro da arte e renovo meus pactos diariamente ao assistir filmes de terror. MACABRA™ - FEAR IS NATURAL.