Quando foi a última vez que você assistiu a um filme indicado pessoalmente por um amigo? Não um vídeo na internet, nem uma postagem em rede social, mas uma sugestão surgida numa conversa — vinda de alguém cuja opinião você realmente valoriza. Aquele amigo que te conhece tão bem que quase sempre acerta na recomendação do próximo filme para a sua lista.

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Se você viveu a época das locadoras, antes dos streamings, deve se lembrar como era bom receber uma indicação inesperada de algum filme. Hoje você ainda encontra ótimas indicações em lugares como o site da Macabra, o Instagram, X, Letterboxd, Bluesky, e até no Pinterest. Mas e aquele contato de chegar em um amigo e pegar o nome do filme que ele assistiu no fim de semana, ou ainda entrar em uma locadora e conversar com o atendente, perguntar a ele qual era o lançamento mais legal, ou o que ele te recomendaria?
Para muitos de nós, frequentar uma locadora era, também, descobrir. Se íamos às mesmas locadoras, conhecíamos aqueles que trabalhavam ali. Foi o caso de Rodrigo Rebelo, que trabalhou durante anos na locadora de seus pais.
Com a palavra, quem entende do assunto

“Eu tinha 16 anos quando a locadora abriu, então tudo era muito novo, uma grande descoberta. Muitos dos antigos clientes eu mantenho contato pelas redes sociais e, não raro, esbarro na rua com alguma pessoa que costumava frequentar a locadora”, conta Rodrigo Rebelo. Ser atendente da locadora foi sua primeira experiência profissional, tendo que aprender desde cedo a lidar com o público. Hoje ele atua como coordenador de marketing no mercado literário, e garante que toda essa experiência trouxe aprendizados. “É um exercício diário de aprendizado. Seja por precisar de jogo de cintura para lidar com situações desagradáveis/inusitadas ou para entender melhor os gostos de cada um. De certa forma, isso teve influência direta na minha trajetória profissional no marketing, pois era algo que eu fazia diariamente sem ainda ter um nome definido para isso.”
Rodrigo não apenas dava entrada e checava o retorno das fitas VHS e DVDs alugados, como também ajudava a indicar filmes. Desde a separação de quais filmes constavam no catálogo da locadora, como compreender o que os clientes queriam.

Rodrigo explica o contexto em que a locadora dos pais funcionava: situada na Ilha do Governador, bairro do subúrbio do Rio cercado por igrejas neopentecostais, atraía clientes em busca dos grandes lançamentos. Mas não deixavam de procurar outros filmes de catálogo também. “Gostávamos de investir em filmes mais alternativos e fazer da locadora uma referência no bairro, conseguindo atingir todos os públicos possíveis. Não era sempre que conseguíamos, mas a tentativa era constante.”
Ali, muitos clientes, e pessoas que em breve se tornaram clientes, encontravam títulos que já não eram mais encontrados tão facilmente. Rodrigo se lembra de um caso de uma jovem universitária que precisava encontrar alguns filmes para uma aula, e não os encontrava em outros estabelecimentos. “Ela precisava de cinco filmes e não os havia encontrado em nenhuma outra locadora do bairro e ficou espantada quando viu que tínhamos 3 dos 5 títulos no acervo: Sociedade dos Poetas Mortos (Peter Weir), O Enigma de Kaspar Hauser (Werner Herzog) e A Guerra do Fogo (Jean-Jacques Annaud). Fez inscrição na hora e se tornou uma cliente assídua, mesmo morando bem distante.”
Havia, também, aquele outro tipo de cliente, que estava em busca de algumas coisas mais… peculiares, um “cliente específico” que só alugava filmes pornográficos. “Sr. João (vamos chamá-lo assim) só gostava de filmes com animais. Então, uma vez por mês ele chegava na locadora, abria a porta e, caso fosse eu que estivesse lá, perguntava “Ô, meu filho, chegou daqueles filmes que eu gosto?” (não fazia a pergunta quando minha mãe estava na loja). Nunca tinha chegado. E no mês seguinte ele sempre voltava, fazendo a mesma pergunta.”
Mas, além de casos específicos, Rodrigo conta que indicar filmes era a melhor parte do trabalho. “Conhecer a pessoa, seu histórico de locações e o tipo de filme que costumava gostar… Tudo isso ajudava bastante a dar recomendações que faziam sentido para cada cliente. E até para arriscar, dependendo da pessoa, algum filme que estivesse fora dos padrões normalmente estabelecidos por aquele cliente. Tenho três exemplos de filmes menos blockbusters e que sempre agradavam aos clientes: As Invasões Bárbaras, de Denys Arcand, O Corte, de Costa-Gavras e Adeus, Lênin, de Wolfgang Becker.”
“Perdemos completamente o lado humano da coisa.”
Apesar de termos ganhado muito com os serviços tecnológicos, e isso inclui os streamings, nós acabamos abandonado uma parte importante da apreciação dos filmes: o contato. “As indicações com base nos gostos de cada um (nenhum algoritmo vai sugerir melhor do que eu, posso garantir), as indicações mais arriscadas, dar de cara cum um filme totalmente desconhecido e resolver dar uma chance a ele…”, comenta Rodrigo. “Além das conversas. Esse era um dos pontos mais legais do dia a dia. Nos sábados, dia de maior frequência na loja, era comum de alguns clientes chegarem lá por volta de 15h e irem ficando até às 18h, 19h, 20h… A locadora fechava às 22h, mas diversas vezes a gente saiu de lá depois das 23h apenas por estar conversando com clientes e amigos.”

Apenas aqueles que gostam de filmes estranhos e malucos sabem o quanto é divertido encontrar amigos que compartilham de seus gostos macabros. Às vezes, gostar de filmes de terror e outras macabrices é bastante solitário. A locadora muitas vezes serviu como lugar de socialização para nós que crescemos com ela.
Para além disso, Rodrigo toca em outro ponto importante em relação às perdas que sofremos com o avanço dos streamings em cima de outras formas de apreciação da arte, que é a perda e sumiço de vários títulos, dos quais não são mais facilmente encontrados.
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Se por um lado estamos conectados ao mundo inteiro e, muitas vezes, conseguimos assistir a filmes underground feitos do outro lado do planeta com apenas alguns cliques, coisa que era de fato mais difícil antes, hoje também perdemos completamente o acesso a muitas obras mais antigas. Como conta Rodrigo, “Não sou saudosista ao ponto de achar que a tecnologia não deva evoluir a novos patamares, mas isso deveria ser feito de forma mais sustentável, não predatória como é atualmente. As pessoas não precisam e não devem assistir apenas àquilo que querem ou que lhes é imposto. A função do cinema, e das artes em geral, é cutucar, incomodar, causar algum desconforto ou pensamento sobre um assunto. Se as pessoas assistirem sempre apenas o que querem, nunca terão a chance de saborear e refletir sobre algo genuinamente novo e que pode contribuir com seu crescimento.”

No fim, sentimos falta desse contato, de termos esse espaço para conhecermos filmes e pessoas. Como comenta Rodrigo, não é apenas saudosismo; é o sentimento que ambas as coisas poderiam coexistir e dar ainda mais possibilidades para aqueles que são interessados. Hoje, para aqueles que têm sorte de ainda terem reprodutores de mídia, conseguimos encontrar essas obras em sebos e com outros colecionadores.
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