O Terror Vermelho de Prelúdio para Matar

Dario Argento é um dos mestres do cinema de terror giallo, que sempre uniu o belo e o macabro nas telas. Saiba mais sobre Profondo Rosso.

O terror giallo tece, de maneira charmosa, a relação entre imagem, beleza e violência nas telas. O terror giallo italiano se desenvolveu estilisticamente nos anos 1970 com muitas produções ousando no sangue e nas cores para tornar os ambientes quase sedutores a quem assiste.

Prelúdio para Matar, de Dario Argento

Prelúdio para Matar, de Dario Argento

Os “anos de chumbo”, como foram chamados os anos de ápice do terror que trazia uma alta quantidade de assassinatos em suas obras, desenvolveram algumas características próprias e marcaram a carreira de grandes diretores — como Dario Argento, Mario Bava, Lucio Fulci — que nos tornaram cúmplices dos atos narrados.

Prelúdio para Matar, amplamente conhecido como Profondo Rosso, em seu título original, é provavelmente um dos filmes que melhor representam esse movimento no cinema italiano. Foi, inclusive, citado recentemente como um dos filmes que mais aterrorizou Quentin Tarantino quando adolescente. Nas palavras do próprio:

Eu nem sabia que era um filme italiano. Eu fui e o que vi são esses assassinatos horrendos e mortes horrorosas, uma após a outra, com total sadismo. Não apenas uma enxurrada de sangue, mas também a trilha sonora mais alta que eu já ouvi em um filme batendo em você. Uma mulher escaldada até a morte! Isso foi tipo, ‘Uau, este filme é realmente pesado’.

Prelúdio para Matar, de Dario Argento

Prelúdio para Matar, de Dario Argento

Sim, Prelúdio para Matar é violento, mas também charmoso, extremamente bem fotografado e com uma textura que só os filmes dos anos 1970 podem te proporcionar. Sem mencionar os cenários, os personagens e a trilha — que vai ter um parágrafo só para ela, embora merecesse um artigo todo.

Prelúdio para Matar conta a história do músico de Jazz, Marcus Daly (David Hemmings), que se torna testemunha do brutal assassinato de uma famosa médium (Macha Méril). Em uma apresentação psíquica em Roma, a médium expõe um terrível assassino na platéia, e este a segue até seu apartamento e a mata dramaticamente. Intrigado com o desenrolar dos fatos, Marcus se junta à jornalista italiana Gianna Brezzi (Daria Nicolodi) para desvendar o mistério que envolve bonecas enforcadas, casarões e escolas abandonadas e uma música de ninar sobrenatural.

Prelúdio para Matar, de Dario Argento

Prelúdio para Matar, de Dario Argento

O músico, e agora também um detetive obcecado, Marcus Daly é um dos personagens mais cool do cinema. Sua expressão é tranquila, suas reações — embora atentas — são sem desespero mesmo perante todo tipo de morte e perigo que encontra no caminho. Os personagens falam dos assassinatos de maneira coloquial, como se fosse apenas mais uma preocupação do dia, tanto que todos os interrogados por Marcus acabam aparentemente flertando com ele. E foi num flerte que a jornalista Gianna, que mesmo num funeral não perde tempo em perguntar se ele tem namorada, passa a ajudar a investigação ambicionando escrever uma bela matéria depois.

Prelúdio para Matar se equilibra entre cenas extremamente violentas, sangue bem vermelho e um assassino na câmera subjetiva (o famoso ponto de vista “em primeira pessoa”; as mãos que matam são do próprio diretor Dario Argento) e também momentos descontraídos, desde o carrinho de Gianna, que as portas não abrem e a pessoa tem que sair pelo teto solar, a um hábito muito pouco prático das pessoas falarem ao telefone em lugares ridiculamente barulhentos.

Prelúdio para Matar, de Dario Argento

Prelúdio para Matar, de Dario Argento

A fotografia e composição de cena é excepcional, lembra pinturas — uma claramente foi inspirada no quadro “Nighthawks” do Edward Hopper; os figurantes e extras ficam parado em poses para melhor efeito projetando uma ideia de sonho, tendo como cenário as belíssimas ruas e piazzas de Roma e Turin.

A trilha sonora da banda italiana de rock progressivo Goblin é um espetáculo à parte. Quem conhece a banda e não viu o filme pode estranhar a sugerida harmonia de jazz com um filme de suspense, mas o encaixe é perfeito. A trilha acaba sendo uma ambiciosa mistura de jazz, rock progressivo e heavy metal, e caem feito uma luva com osuspense, terror e os diálogos inusitados da obra de Argento.

Prelúdio para Matar, de Dario Argento

Prelúdio para Matar, de Dario Argento

Se uma coisa pode ser dita de ruim sobre o filme é o áudio. Os atores dublaram por cima da cena, então, embora prefira a versão que mistura o inglês (do ator David Hemmings) e o italiano em outros momentos, não tem uma cópia do filme que seja perfeita, causando um incômodo de lip-sync principalmente no início.

Prelúdio para Matar é um dos melhores filmes do diretor Dario Argento — se não o melhor. Tem uma série de suas marcas registradas — como assassinatos contra vidraças e as já mencionadas próprias mãos em luvas de couro cometendo as mortes.

É um filme para ser assistido com carinho, é uma ode ao cinema de gênero. E uma experiência para o resto da vida.

Prelúdio para Matar, de Dario Argento

ASSISTA AO TRAILER DE PROFONDO ROSSO

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Curtiu o post? Não deixe de conferir nosso artigo sobre o uso das cores nos filmes de terror, que também aborda outra obra de sucesso de Dario Argento. Comente este post com a Macabra no Twitter e Instagram.

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Entre nutrir as crianças da noite e suas melodias peculiares, se dedica a leituras lúgubres e a cinematografia obscura. Já usava máscaras antes de virar mainstream e vai continuar usando mesmo depois da peste. MACABRA™️ - FEAR IS NATURAL.