Obsessão, segredos e regras de etiqueta: conheça Psicopata Vitoriana

Cuidado com a governanta que você escolhe para sua casa. Psicopata Vitoriana, de Virginia Feito, nos apresenta uma excelente e letal tutora. Saiba mais sobre o livro e sua adaptação para os cinemas.

A tradição de babás e governantas no terror vem de muitos anos. Das antigas governantas dos livros góticos, como a protagonista de A Volta do Parafuso, passando pelas acompanhantes que se negam a deixar suas antigas patroas e suas casas, como a sra. Danvers, de Rebecca, e ainda nos filmes de terror, onde babás são perseguidas e aterrorizadas, ou perseguem e aterrorizam — como Jill Johnson (Carol Kane), em Quando um Estranho Chama (1979) e a “Peyton Flanders” (Rebecca De Mornay), de A Mão que Balança o Berço (1992). E não podemos, claro, nos esquecer das famosas babás no slasher, um tropo clássico do subgênero, ao lado dos acampamentos de verão e da expectativa de que o assassino esteja atrás da porta.

A Mão que Balança o Berço (1992)

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Muitas das características do terror são divertidas justamente pelos usos contínuos e diferentes que os autores e cineastas se apoderam ao contar suas histórias. O terror, por si só, é um gênero bastante fácil de “prever”. É a forma de transgressão, entretanto, que fazem dele o que é: um gênero que pode ser simples e disruptivo ao mesmo tempo.

Psicopata Vitoriana, lançamento da Macabra em parceria com a DarkSide Books, de Virginia Feito, não apenas se apodera da figura da babá e governanta, como também transgride qualquer regra que poderia ter sido pensada para essas figuras dentro de um gênero mais convencional — e isso é algo que apenas o terror pode proporcionar. Gostamos de quebrar regras, e a srta. Notty, protagonista de Psicopata Vitoriana, também.

A Macabra te conta um pouquinho sobre o livro — sem spoilers! — e fala também sobre a adaptação para as telonas que chega este ano aos cinemas.

Certas damas não foram feitas para bordar

Em Psicopata Vitoriana, uma jovem, srta. Notty, é empregada pelos ricos Pounds para ser a governanta e a tutora das duas crianças da família — trabalho, inclusive, que Notty leva com sarcasmo e até incredulidade. Mas a mulher tem um segredo: há algo sombrio no passado da srta. Notty que poderá abalar para sempre não apenas os Pounds, mas a própria sociedade cheia de regras de etiqueta e moralidade.

Em seu segundo romance, Virginia Feito nos apresenta uma personagem fascinante: sombria, sarcástica, com um humor afiado como uma adaga — o qual, inclusive, ela usa como arma —, Notty é um presente para os fãs do terror. Adepta do jargão “a vingança é um prato que se come frio”, Notty é, essencialmente, uma predadora paciente e completamente no controle de suas emoções (mesmo que às vezes não pareça).

Psicopata Vitoriana vai te deixar boquiaberto. Conforme a leitura avança, os sentimentos que temos por Notty logo atingem o ápice de que ela não fez nada errado, afinal de contas. Para aqueles que gostam de protagonistas de caráter duvidosos e motivações insanas, o livro de Virginia Feito é um prato cheio.

Humor obscuro

Quando você olha por muito tempo pro abismo… Muitos profissionais que trabalham com temas sensíveis acabam se protegendo dessa maldade intrincada no ser humano se utilizando do humor. É algo que David Simon, jornalista que passou um período em uma delegacia de investigação e escreveu, posteriormente, o livro Divisão de Homicídios, nos conta. É algo que vemos, também, em alguns profissionais da morte. Por mais que você leve sua profissão a sério, é necessário extravasar essa raiva.

Virginia Feito encontrou essa raiva enquanto pesquisava sobre a Era Vitoriana. Em entrevista ao NPR, a autora conta que se “deparava constantemente com histórias absurdas de abuso, misoginia e crueldade. E, evidentemente, os empregados domésticos não tinham condições de se defender e eram, essencialmente, considerados propriedade. As crianças também não estavam bem, trabalhando muitas horas nas fábricas […] Eu ficava cada vez mais irritada. Era tanto que chegava a ser engraçado, de um jeito estranho. Então, essa é a voz que está presente nas páginas deste romance”. 

Virginia Feito, autora de Psicopata Vitoriana

A voz da qual Feito comenta é muito facilmente identificável em Winifred Notty logo de início. Nada é escondido do leitor, em relação às intenções da governanta. Ela tem, sim, um grande segredo guardado, mas sabemos desde o início que a palavra excêntrica, usada para descrevê-la, é um enorme eufemismo. Notty não é apenas excêntrica, ela é maléfica — e nós, como leitores, adoramos isso nela.

Muito ambivalente — por vezes totalmente obscura, com diversas características insanas, e por vezes divertida e engraçada —, a complexidade da personagem, claro, é um dos pontos mais trabalhados por Feito. Além de querer se aprofundar sobre questões como o mal, sua origem e como cada um reage à própria maldade, Feito também queria se concentrar na possibilidade de ser uma mulher a realizar atos macabros. 

“O que aconteceria se uma mulher começasse a matar de uma forma extremamente sangrenta?”, a autora se questiona durante uma pergunta sobre redenção em seu livro. “Normalmente, ao longo da história, as mulheres matavam com veneno. Mas é diferente. É mais íntimo. É mais psicológico. Então, eu queria mostrar uma mulher matando sem motivo aparente, apenas por prazer. Tanto faz. Cada leitor pode decidir o quão a sério leva a questão, mas eu também queria inserir algumas perguntas complexas.”

Feito consegue essa proeza ao se debruçar sobre uma personagem interessante e absurdamente viva, que quase salta das páginas dos livros e nos serve um chá, enquanto nos conta sobre as atrocidades que pretende cometer — e que acompanharemos com tanto gosto.

Adaptação cinematográfica vindo aí!

E Psicopata Vitoriana já está ganhando vida nas telonas. Dirigido por Zachary Wigon com roteiro da própria Virginia Feito, o filme conta com um elenco de estrelas dessa geração: Maika Monroe, conhecida por Longlegs e Corrente do Mal, será a protagonista srta. Notty, e 

Thomasin McKenzie, de Noite Passada em Soho e Tempo, viverá a srta. Lamb, outra das trabalhadoras da casa dos Pounds. O patriarca da família será vivido por Jason Isaacs, e uma das crianças, Andrew, será interpretado por Jacobi Jupe. Ainda não sabemos se terão alterações no roteiro, mas o nome da atriz a interpretar a outra criança Pounds, Drusilla — uma peça fundamental do livro —, ainda não foi divulgado. 

Maika Monroe e Thomasin McKenzie

A sinopse divulgada oficialmente é a seguinte: em 1858, uma jovem e excêntrica governanta, Winifred Notty, chega à remota mansão gótica Ensor House. À medida que Winifred se adapta, os funcionários começam a desaparecer inexplicavelmente, e os proprietários se perguntam se há algo de errado com essa nova governanta.

Ainda não temos materiais de divulgação a respeito do filme, mas a distribuição será feita pela Diamond Filmes e, pelo que tudo indica, seu lançamento está planejado para setembro no Brasil.

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Estamos muito curiosos para conferir a adaptação desse livro tão divertido e sangrento. Psicopata Vitoriana está em pré-venda no Site Oficial da DarkSide Books. E você, já estava com o livro e o filme no seu radar? Comente com a gente no Instagram e em suas redes sociais.

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Acordo cedo todos os dias para passar o café e regar minhas plantas na fazenda. Aprecio o lado obscuro da arte e renovo meus pactos diariamente ao assistir filmes de terror. MACABRA™ - FEAR IS NATURAL.