Sabemos como elementos insólitos — não apenas dentro do terror, mas principalmente — muitas vezes falam diretamente com o contexto que estão inseridos. Não é coincidência que o assunto de testes nucleares nos filmes tenha acontecido em um momento em que esse era um tema tratado com exaustão no período, da mesma forma que não é de forma aleatória que assassinos em série passam a aterrorizar subúrbios quando nos demos conta que os verdadeiros assassinos poderiam ser nossos vizinhos, ou estarem dentro de nossas casas.

Da mesma forma, muitas lendas urbanas acabam sendo criadas (ou transformadas) dentro desta lógica: um elemento fantástico que reflete e espelha a realidade política, social ou cultural da qual está inserida. Um dos exemplos mais flagrantes aqui, da América Latina, é a história da Llorona. Originalmente uma lenda urbana sobre uma mulher que afogou os filhos após ser traída, ela passou a aparecer como uma mãe de luto pelos filhos mortos por guerras urbanas e disputas com homens no poder. No Brasil, claro, também temos algumas histórias assim. A lenda urbana da gangue dos palhaços, ou a lenda da van branca que sequestrava crianças, apareceram em contextos onde o desaparecimento de crianças e a violência contra os mesmos aumentou em níveis alarmantes.

É nessa lógica de que o fantástico ocupa o espaço deixado pelo silêncio que nasce uma das lendas urbanas mais curiosas do Brasil: a Perna Cabeluda, que aparece no filme O Agente Secreto. Em clima de premiações e torcendo para que o Brasil leve mais uma estatueta pra casa, a Macabra te conta um pouco sobre essa história.
A censura na ditadura
Dentre os anos de 1964 e 1985, o Brasil passou por um estado de exceção — onde garantias individuais foram revogadas — após o golpe de estado de 1964. Naquele momento, muitas pessoas, de intelectuais a pessoas simples, foram perseguidas. Muitos foram mortos, alguns ainda hoje desaparecidos e não identificados. O maior exemplos dessas atrocidades é a Vala Comum dos Perus, no cemitério Dom Bosco, onde foram descobertos 1.049 sacos com ossos humanos em 1990, todos, pelo que consta, deixados ali a partir de 1976, durante o período da ditadura.
Foi um período aterrorizante de nossa história, e já tivemos alguns filmes que retratam aqueles anos — dentre eles O que é isso, companheiro? (1997), Cabra Marcado para Morrer (1984), Marighella (2019) e, mais recentemente, Ainda Estou Aqui (2024) —, mas podemos dizer que O Agente Secreto é bastante único em sua abordagem. Única, também, foi a forma que O Diário de Pernambuco, no Recife, escolheu para preencher as lacunas deixadas pela censura jornalística que pairava em diversos escritórios de grandes jornais pelo país.

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Enquanto redações do país inteiro contavam com censores apagando e reescrevendo diversas de suas matérias, fazendo com que principalmente notícias violentas fossem excluídas das páginas, muitos jornais optaram por tentar preencher esses vazios. O caso mais clássico, que volta e meia retorna às notícias quando falamos sobre censura, é o do Estado de S. Paulo, que começou a publicar receitas culinárias.
Nesse ínterim, O Diário de Pernambuco, conhecido por ser o jornal mais antigo da América Latina que ainda está em publicação, resolveu escrever histórias ficcionais de cunho sobrenatural.
Surge um novo medo em Recife
Mais de 50 anos depois, o mesmo, porém diferente, Diário de Pernambuco relembra o episódio e relata “Em tempos de silenciamento dos fatos e da realidade social, o fantástico encontrou espaço livre para aterrorizar o inconsciente coletivo nas páginas policiais. […] A máscula, cabeluda e implacável perna era o fantástico grotesco de uma realidade mutilada pela censura”. Na época, depois de tantos abusos da censura que vetava as notícias que realmente importavam — muitas delas, inclusive, ligadas à violência contra a mulher —, o editor de Justiça e, hoje, ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Og Fernandes, sugeriu a criação da coluna “Romance Policial” para ocupar as páginas deixadas em branco.

Ao que se tem notícia, é de 10 de dezembro de 1975 o primeiro texto que relata a aparição da Perna Cabeluda. A “assombração” teria surgido na casa de José Luís Borges, e atormentado a ele e seu filho Wanderley (ou Valderez). A residência estava localizada na Rua Amendoim, n. 13, no bairro de Tiúma, em São Lourenço da Mata. Não demorou muito para que a história alcançasse a população. Com a ajuda do rádio e da literatura de cordel, aos poucos todos tinham ouvido falar da “criatura”.
Um dos maiores responsáveis por imortalizar a imagem da Perna Cabeluda foi o jornalista Raimundo Carrero, com ilustração de Wilde Portela, que conta, em entrevista ao Diário, data de 2026, que “a verdade é que, em muitos casos, envolviam maridos que encontravam as esposas com outros homens, o que não justificaria espancá-las, é claro. As vítimas que não podiam dizer que tinham apanhado do marido, falavam que era a perna cabeluda”.

Dos personagens que foram criados pela coluna, há ainda o “Cachimbo Eterno”, que aparecia em áreas suburbanas muito bem-vestido e portando um cachimbo, e era acusado de enganar as mulheres. Além de O Agente Secreto, a Perna Cabeluda também é uma personagem no filme Recife Assombrado 2 – A Maldição de Branca Dias (2025), dirigido por Adriano Portela, do qual ganhou uma escultura gigantesca em Recife para a divulgação do filme.

Nascida em um período de silenciamento e medo, a Perna Cabeluda acabou sendo uma maneira de dar nome ao que não podia ser dito. Décadas depois, ela retorna ao imaginário popular como memória viva de um Brasil que encontrou, no fantástico, uma maneira de sobreviver à própria realidade.
E você, conhecia a história da Perna Cabeluda? Já conferiu O Agente Secreto no cinema? Comente com a gente no Instagram e em suas redes sociais.

