Toda história tem dois lados — ou três, ou quatro. Subversivo como é, o terror é um dos gêneros que mais possibilita que a gente conheça outros pontos de vista da mesma história. Filmes e livros onde os “monstros” — literais ou não, responsáveis por atos monstruosos ou não — nos dão suas perspectivas sobre suas vidas e suas ações fazem bastante sucesso com os fãs.

Mas, então, quem são esses monstros? E como eles passaram de seres sem voz — literalmente, em alguns casos — para seres que conquistam seus próprios filmes e contam suas histórias? Como se tornaram uma potência tão forte no terror? Vem com a Macabra discutir esse fenômeno.
Quem, afinal, são os monstros?
Desde o início dos tempos temos essas figuras antagônicas que nos ajudam a contar uma história. Mesmo fora dos livros e filmes de terror, é comum encontrarmos uma figura que se opõe ao protagonista, ao “mocinho” ou à “mocinha”. Personagens malvados, que criam todos os tipos de intriga, a depender do contexto em que estão inseridos, são forças motrizes para que essas histórias sigam adiante. Não raras vezes, também, essas fronteiras são bastante borradas. No ciclo arturiano, por exemplo, Rei Arthur encontrou muitos antagonistas, mas muitas vezes eles próprios tinham motivações que fizeram os leitores questionar: afinal de contas, quem é o vilão? Quem é o monstro, aqui?

Em alguns casos, a depender de qual ponto de vista é utilizado, o antagonista pode muito bem se passar pelo mocinho da história. Contada a partir da voz do Xerife de Nottingham, Robin Hood dificilmente seria um herói.
No terror não é tão diferente, e isso fica bem claro, por exemplo, em algumas histórias de fantasmas que habitaram o século XIX, onde esses espectros revoltados e vingativos retornavam para resolver questões pendentes. Quando temos um protagonista que apenas causa terror e dor por onde passa, e um antagonista que, a partir de suas motivações, consegue ganhar a admiração do público, a balança de bem vs mal fica desequilibrada.
A definição de monstro
Monstro pode ter algumas definições. De acordo com o dicionário Michaelis, pode ser aquele “ser fantástico, sobrenatural, geralmente grande e ameaçador, que pertence à mitologia ou ao imaginário das histórias e lendas infantis”, ou “pessoa extremamente cruel, diabólica e desumana”, ou ainda “qualquer ser ou coisa contrário às leis da natureza; monstruosidade”.

Quando pensamos em monstros no cinema de terror, muitos podem se lembrar imediatamente dos Monstros Clássicos da Universal: Drácula, Frankenstein, o Homem Invisível, a Múmia, a Noiva de Frankenstein e o Lobisomem. O terror, gênero que tanto amamos, se iniciou com eles. Mesmo que eles sejam os mais conhecidos dessas histórias, eles são os vilões: seus atos “vis” proporcionam o combustível para os mocinhos (dos quais, sinceramente, poucos se lembram) seguirem adiante. Ainda assim, o ponto de vista não é o deles. Eles são os antagonistas.
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No cinema dos anos 1950, os monstros mudaram: criaturas gigantes, que se transformaram em monstros e atacaram a humanidade muitas vezes por acidentes causados contra eles, como Godzilla, ou ainda criaturas que foram perturbadas em seus habitats naturais por humanos ambiciosos, como O Monstro da Lagoa Negra.

Conforme o horror avançou para as décadas seguintes, entre os anos 1960 e 2000, os “monstros” assumiram mais a posição de vilões, se encaixando mais na segunda definição da palavra monstro — “pessoa extremamente cruel, diabólica e desumana”. Freddy Krueger, Leatherface, Michael Myers, ou mesmo Hannibal Lecter, Norman Bates e Patrick Bateman, todos eles são cruéis e diabólicos; suas motivações, em grande parte, são internas, e pouco tem a ver com o que o mundo fez a eles, como no caso das criaturas dos anos 1950 ou ainda alguns dos clássicos dos anos 1930.
Mas houve algo entre os anos 2000 e 2010 que alterou novamente a figura dos vilões.
Deixe os “monstros” falarem

Chegou a hora dos monstros assumirem sua própria voz. Não que antes não tivéssemos filmes assim (o próprio Psicopata Americano serve de exemplo), mas chegamos em um momento dos filmes de terror que o “ponto de vista” desses “monstros” se tornou muito mais frequente. Pearl é um dos exemplos recentes e mais bem-sucedidos nesse quesito. Depois da estreia da personagem, em uma versão mais velha, em X: A Marca da Morte, ela retorna em Pearl em seus anos de juventude, nos mostrando como sua história começou, o que a levou a ser quem era, quais foram as motivações para que ela atingisse o ponto que atingiu em X.
Ela é, sim, uma assassina psicótica e descontrolada, mas ela provoca empatia na audiência. Ela nos conta o que a levou a ser assim. Suas motivações, nesse caso, acabam sendo tanto externas quanto internas.

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A Bruxa, filme não tão recente quanto X ou Pearl, nos dá um caminho semelhante para Thomasin. Nós torcemos por ela, mesmo que ela faça um pacto com o Diabo em pessoa. Não sabemos exatamente o que ela vai fazer a partir dali, mas ela está aliada às forças das trevas. E nós adoramos. Ela pode não ter se apresentado ainda como uma criatura cruel, mas se aliou à essa força sobrenatural da natureza para sobreviver e subjugar aquilo que tentou destruí-la. Sendo a bruxa uma figura monstruosa, ainda que disruptiva, dentro do terror, Thomasin se encaixa na ideia de monstruosidade e de um point of view monstruoso.

Nesse sentido, Elfie, de Gregory Maguire, lançamento da DarkSide Books, assim como Wicked, também agem contando a história prequel de uma personagem icônica do imaginário: a Bruxa Malvada do Oeste. Se em O Mágico de Oz nós conhecemos Elfaba como a maior vilã daquele universo, em Wicked e Elfie nós nos aprofundamos mais sobre quem é essa personagem, o que aconteceu a ela, quem, afinal de contas, é essa figura monstruosa — que guarda, então, as três definições citadas anteriormente sobre o monstro: um ser sobrenatural, um ser cruel, e um ser que foge às leis da natureza (tendo a pele esverdeada).
Elfie dá seguimento àquilo que Wicked iniciou: queremos saber mais sobre Elfaba, e, nesse caso, sobre quem ela era antes de entrar da Universidade Shiz, de como foram seus dias como criança, de como ela se tornou a personagem enigmática e interessante que vimos em Wicked. Elfaba não desafiou apenas a gravidade, como também desafiou uma narrativa construída há anos em que a personagem era vista apenas como a perseguidora implacável da mocinha que caiu em Oz — em cima de sua irmã, é necessário dizer (e convenhamos, se alguém chegasse de repente e caísse com sua casa em cima de nossa irmã, não faríamos algo parecido?).

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Elfie, de Gregory Maguire, está disponível em pré-venda no site oficial da DarkSide Books. E para você: qual a melhor história de ponto de vista do monstro? Comente com a gente no Instagram e em suas redes sociais

