O luto pode ser encarado de diversas formas: com celebração ou se recolhendo para prestar homenagens em silêncio. Entre um tipo de luto e outro, existem ainda diferentes tradições — algumas regionais, outras mais antigas e gerais, e ainda aquelas que não sabemos exatamente como surgiram.

É nessa última categoria que se encaixa uma tradição difícil de datar e de saber onde foi iniciada: a de receitas encravadas em lápides. A Macabra te leva para conhecer mais dessa tradição tão inesperada e curiosa, e conta sobre como a comida e a celebração dos mortos está tão ligada em algumas culturas.
Lápides que contam histórias
Estamos acostumados a ver lápides com os nomes, das datas de nascimento e falecimento e, quando muito, uma frase que represente quem foi aquela pessoa: “bom pai e marido”, “mãe dedicada e gentil esposa”, e coisas desse tipo. Mas há, também, lápides que se aprofundam nas histórias dessas pessoas que se foram.

Em uma matéria do site Atlas Obscura sobre essa tradição tumular, eles mencionam o artigo da linguista Colleen Cotter, intitulado “Claiming a Piece of the Pie: How the Language of Recipes Defines Community”, no qual ela afirma que “uma receita pode ser vista como uma história, uma narrativa cultural que pode ser compartilhada e construída por membros de uma comunidade”.
É natural fazermos essa ligação: a comida é algo que une as pessoas — vejam as ceias de Natal, as receitas passadas em família, até mesmo o churrasco no fim de semana. Sejam elas tradicionais de um povo inteiro ou comuns em reuniões de uma única família, a comida é algo que aproxima e gera afeto.
Refeições como forma de relembrar
Em Para Toda a Eternidade, a agente funerária e a maior representante do movimento da “boa morte” Caitlin Doughty nos conta um pouco mais sobre várias tradições funerárias ao redor do mundo. Em algumas delas, não é difícil identificar um elemento em comum: refeições.

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Principalmente ao longo da América Latina, encontramos culturas que fazem comida e levam ao cemitério para honrar seus mortos. No México, por exemplo, o Día de los Muertos é celebrado com o que se chama de Pan de muerto, um pão, geralmente doce e polvilhado de açúcar, adornado com figuras como ossos e caveiras, e que é levado para os altares das celebrações. Já na Europe Oriental, a Koliva, um prato à base de trigo cozido, é usada liturgicamente na Igreja Ortodoxa Oriental após os funerais para homenagear os mortos.

Muito comum também é o costume chinês de oferecer comida aos mortos. Como é mencionado em um artigo do site Metropolitan Memorial Parks, “Durante o Qingming, ou Dia da Limpeza dos Túmulos, as famílias visitam os túmulos ancestrais e oferecem comida e bebida, além de queimarem representações em papel de bens materiais”.
Eurysaces, o padeiro
Apesar de a maioria das lápides com receitas estarem nos Estados Unidos hoje e serem algo já do século XX, podemos encontrar um exemplo muito mais antigo: o do padeiro Marcus Vergilius Eurysaces, um dos maiores e mais bem conservados monumentos funerários de libertos de Roma.

Construído por ele mesmo para ser seu lugar de descanso final, o monumento guarda referências ao seu ofício, como representações em relevo do que seria o funcionamento de uma padaria, além de algumas aberturas circulares na parte superior, bastante incomuns para esse tipo de monumento, que agora se acredita representarem cumbucas típicas para amassar pão ou misturar os ingredientes, ou recipientes para medir grãos.
O monumento de Eurysaces pode não conter uma receita, mas continua uma homenagem àquilo que o tornou um homem rico — prosperando em um momento em que homens libertos dificilmente tinham essa chance.
Um tour pelas receitas gravadas em lápides
Muito mais presente do que aparenta, a relação da comida como uma forma de honrar aqueles que já se foram é uma tradição bastante ampla. Seja nas formas apresentadas até agora — oferecendo esses alimentos aos mortos ou celebrando com eles —, ou na forma de receitas inscritas em lápides.
Rosie Grant, do instagram @ghostly.archive, começou a reunir essas receitas e essas histórias, e a contar para seu público na rede social um pouco mais sobre os motivos que levaram essas pessoas a erigir monumentos aos seus entes queridos esses alimentos. Em sua página, Grant conta que começou a procurar essas receitas ao se deparar com a lápide em formato de livro aberto de Naomi Odessa Miller Dawson. Logo ela passou a encontrar muitas outras pessoas que deixaram esses registros, o que a fez se interessar por conhecer essas histórias.
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Não apenas uma forma de lembrar dessas pessoas que já se foram e contar suas histórias, Grant também testa essas receitas, tendo concluído o livro To Die For: A Cookbook of Gravestone Recipes, dando os créditos a cada uma dessas pessoas que já se foram, mas deixaram para trás essas refeições tão especiais que estarão ligadas a elas por toda a eternidade.

Ainda hoje, a morte é vista como um tabu, e estar próxima a ela — seja através de seus trabalhos, como agentes funerários ou coveiros, seja por se interessar pelo assunto de forma geral — gera questionamentos nas outras pessoas. Mas a morte pode ser ressignificada, pode nos fazer olhar com mais carinho para a vida e para as pessoas ao nosso redor. Ressignificar como vemos esse processo de lidar com o luto e o morrer pode ser uma boa forma de se escolher viver.
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