Tradição sobrenatural e literatura gótica em A Mulher de Preto

Um clássico moderno da literatura gótica, A Mulher de Preto recupera uma tradição britânica natalina e nos presenteia com arrepios e horrores. Saiba mais sobre a obra de Susan Hill.

O Castelo de Otranto, O Morro dos Ventos Uivantes, Jane Eyre, O Retrato de Dorian Gray, A Volta do Parafuso, Drácula e Frankenstein… A literatura gótica do século XIX, seja ela repleta de elementos sobrenaturais ou apenas características que evocam algo fora do comum, ainda causa furor nos leitores, que redescobrem essas histórias de tempos em tempos. Esse tipo de literatura gerou uma série de desdobramentos, dos penny dreadfuls — a literatura “barata”, “sensacionalista”, feita para causar as emoções mais fortes em seus leitores com cenas descritas explicitamente — até o gótico moderno, que por vezes utiliza os cenários e algumas particularidades narrativas do gótico tradicional, mas sendo escrito por autores contemporâneos.

Uma das ilustrações de Eric Pape que acompanhava a versão serializada de The Turn of the Screw [A Volta do Parafuso] na Collier’s Weekly
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Nesse sentido, podemos citar O Silêncio da Casa Fria, de Laura Purcell; Gótico Mexicano, de Silvia Moreno-Garcia; e, não menos importante, Rebecca, de Daphne Du Maurier, adaptado às telas de cinema por Alfred Hitchcock (e também por Ben Wheatley em 2020, para o streaming). Mas, dos livros que apostam no gótico sobrenatural e na representação do século XIX, há um nome que se sobrepõe. Adaptado para o audiovisual e teatro, A Mulher de Preto, de Susan Hill, retoma uma das tradições novecentistas mais curiosas — a de contar histórias sobrenaturais na noite de Natal — e a usa como mote para contar uma história arrepiante.

Agora, A Mulher de Preto ressurge em uma edição especial pela Macabra, em parceria com a DarkSide Books, reacendendo os horrores causados pelo nevoeiro londrino e os estranhos acontecimentos narrados por Arthur Kipps naquela noite de Natal.

Eram nove e meia da noite de Natal…

Em A Mulher de Preto, Arthur Kipps nos narra os acontecimentos de sua vida. Ele começa nos contando que, em uma noite de Natal, seus enteados estão contando casos sobrenaturais em frente à lareira. Quando lhe pedem que ele conte algum, logo ele se torna irritadiço. É naquela noite que ele decide que precisa contar para alguém o que se passou em sua vida, e que deixou uma grande marca em seus dias.

Conhecemos, então, através dele, sua história. Quando era um jovem advogado, prestes a ser promovido, Kipps é enviado para tratar dos documentos de uma recém-falecida, sra. Drablow, que vivia sozinha em um local conhecido por Pântano das Enguias, em um lugarejo afastado de Londres. Lá seu tormento começa, e desde então sua vida se tornou um pesadelo. Apesar de ter encontrado um pouco de calmaria nos dias em que nos narra esses acontecimentos, Arthur também deixa claro que jamais poderá se esquecer do que se passou ali.

Um dos maiores feitos de Hill, para os leitores que conhecem sua obra, é como a autora consegue dar descrições vívidas dos sentimentos de seus personagens. O desespero de Arthur Kipps é quase palpável conforme ele nos conta o que aconteceu naqueles dias no Pântano das Enguias. O mesmo pode ser dito de Eu Sou o Rei do Castelo, outro livro da autora publicado pela Macabra. 

Susan Hill

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Os sentimentos dos personagens de Hill atravessam as páginas e chegam a nós, os leitores, completos e prontos para serem absorvidos. Mesmo que você leia A Mulher de Preto em um dia de sol no Brasil, conseguirá sentir a desolação do nevoeiro londrino ou as inquietações que Arthur passou no pântano. 

Natal assombrado

Talvez o mais próximo que nós, brasileiros, consigamos chegar de relacionar o Natal com fantasmas seja quando pensamos em Um Cântico de Natal, de Charles Dickens. Com certeza Scrooge ultrapassou as barreiras culturais e é facilmente reconhecido como um representante desse feriado — seja pelo livro em si, seja pelas adaptações que ganhou na TV e no cinema.

Dickens não fez essa união de histórias sobrenaturais + Natal sozinho. Quando Charles Dickens publicou Um Cântico de Natal, em 1843, como nos conta o artigo “Why We Used To Tell Ghost Stories On Christmas Eve (And Why We Should Restart The Tradition)”, de K.W. Colyard, a tradição de contar histórias de terror, bem como a própria comemoração do feriado de Natal, era algo que estava arrefecendo, sim, mas que ainda era lembrado por pessoas mais tradicionais. Dickens trouxe isso novamente para o centro do palco. Antes disso, porém, havia uma base cultural.

Detalhe da obra The ghost – a Christmas frolic – le revenant, de I.M. Wright (pintor) e W. Nicolls (escultor), datada de 1814. Fonte: Library of Congress

No hemisfério norte, o feriado do Natal acontece em um período extremamente frio, assim como o Halloween — ou, como antigos povos os conheciam, o Yule (data aproximada que teria sido “emprestada” para o Natal) e o Samhain. Como nos conta Colyard, a ideia de se juntar perto do fogo, em uma fogueira ou lareira, e contar histórias de terror vinha principalmente pela segunda data, onde diziam-se que os véus entre o mundo dos vivos e o dos mortos estava mais fino e frágil, e que isso tenha se mantido até o “feriado” seguinte. Quando o calendário e a prática religiosa foram alterados, os nomes mudaram, mas alguns elementos das tradições permaneceram.

Não apenas isso. Essas datas e tradições são antigas e tipicamente das regiões do centro e norte europeus. Se pensarmos, também, que uma quantidade enorme de histórias dos séculos passados — saindo da virada do milênio até os séculos XVII e XVIII —, de literatura escrita aos contos orais — como “as verdadeiras histórias dos contos de fadas” — tinham elementos fortemente ligados ao sobrenatural, faz sentido que o tema escolhido para as lareiras de uma reunião tenha sido esse. Contar histórias de terror, que causem sentimentos fortes nos nossos interlocutores, é inato ao ser humano. Ponto.

Colyard também explica como e por que o Natal estava em “decadência” no período em que Dickens escreveu Um Cântico de Natal. O Parlamento de Oliver Cromwell proibiu os festejos natalinos durante vinte anos, no século XVII. As festividades retornaram no período da Restauração da Monarquia, ainda no mesmo século, mas, logo em seguida, com o processo de industrialização cada vez mais forte, apesar de poder ser comemorado, muitos indivíduos e famílias não tinham tanto interesse assim. Como bem nos mostra o livro de Dickens, muitos trabalhadores permaneciam trabalhando até tarde neste dia. 

Arte de John Leech para a publicação original, em prosa, de A Christmas Carol, em 1843

Mas Um Cântico de Natal parece ter reacendido uma velha chama. Aliado, talvez, a tantas outras histórias de terror que se tornaram um fenômeno no período, houve uma retomada de histórias sobrenaturais na noite de Natal e em sua véspera. Como bem notou Jerome K. Jerome no final do século: “Sempre que cinco ou seis pessoas que falam inglês se reúnem em volta de uma lareira na véspera de Natal, começam a contar histórias de fantasmas umas às outras… É uma época festiva e agradável, e adoramos divagar sobre túmulos, cadáveres, assassinatos e sangue”. Um exemplo notório é a reunião de contos de terror natalinos publicada pela Wish, Natal dos Fantasmas, com doze histórias que reúnem autores como Dickens, Robert Louis Stevenson, Elizabeth Gaskell e o próprio Jerome K. Jerome.

As adaptações

Traduzir sensações tão fortes como as descritas por Hill em uma adaptação televisiva ou teatral é um trabalho complexo. A Mulher de Preto, bem como boa parte das histórias de terror que tanto amamos, teve incursões nesse sentido. 

Adaptação para a TV de A Mulher de Preto, lançada em 1989. Posteriormente, o filme foi lançado em DVD em 2020

A primeira dessas tentativas foi um filme lançado diretamente para a TV em 1989. Dirigido por Herbert Wise, o roteiro do livro foi adaptado por Nigel Kneale, conhecido pelos fãs de terror por seu trabalho com a franquia Quatermass, principalmente pelo roteiro de Terror que Mata (1955). No filme, alguns nomes são alterados — Kipps se torna Kidd e Sam Daily se torna Toovey, interpretados, respectivamente, por Adrian Rawlins e Bernard Hepton —, mas muitos afirmam ter sido uma das produções mais aterrorizantes da TV britânica daquela década.

Imagem do filme A Mulher de Preto, de 2012

Em 2012, a história de Hill ganhou tratamento em larga escala ao ser produzido um filme para os cinemas estrelado por Daniel Radcliffe. Com direção de James Watkins, que também dirigiu Sem Saída (2008), e roteiro de Jane Goldman, roteirista de filmes como Kick-Ass: Quebrando Tudo (2010) e X-Men: Primeira Classe (2011), o filme altera alguns pontos da história original, mas trouxe novamente o trabalho de Hill para os holofotes.

Além disso, o livro também foi adaptado para o teatro e para o rádio, e é utilizado pelo currículo nacional das escolas britânicas, sendo frequentemente utilizado para exames e testes escolares.

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A nova edição de A Mulher de Preto, de Susan Hill, lançada pela Macabra em parceria com a DarkSide Books, conta com nova tradução e ilustrações em xilogravura do artista Andy English. Um item indispensável para os leitores amantes do sobrenatural e do macabro, a pré-venda já está disponível no Site Oficial da DarkSide Books

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Acordo cedo todos os dias para passar o café e regar minhas plantas na fazenda. Aprecio o lado obscuro da arte e renovo meus pactos diariamente ao assistir filmes de terror. MACABRA™ - FEAR IS NATURAL.