Breu

Um cômodo fechado, um encontro com as mariposas e a morte. Confira o texto inédito e exclusivo de Paula Febbe para a Macabra.

O Caronte.

Ele ia muito em casa.

Não queria que fosse, mas quando ele chegava, meu desconforto se aquietava.

Não deveria, mas parte do mal em mim sumia.

Disseram para mim que era medo, talvez, mas inquietude e submissão tornam-se zelo em um tempo alheio.

Da janela para fora, havia morte.

Da porta para fora, havia o fim.

Me desconstruía nele.

No fim e nele.

Construía-me no que havia naquilo que faltava em nós, pois o excesso de morte traz a intimidade que não é possível quando há excesso de vida.

Perguntava-me se a proximidade seria capaz sem este iminente fim dos outros.

Perguntava-me se nossa proximidade caminhava sobre os mortos.

Questionava se existíamos por baixo dos panos que cobriam os rostos e dentro dos caixões da obra de Magritte.

Estava lá, pois ali vivia, sendo pouco no muito da vontade dele. E ser pouco, agora, me convinha, pois a vida estava pequena e curta demais, se comparada ao tamanho que já tinha tido antes.

Ou talvez estivesse maior, na verdade.

Tão grande que não se via o fim.

Ironicamente.

Periquitos moribundos.

Ironicamente.

Estávamos lá, pois estávamos perto ou estávamos por fascínio?

Fato é: ninguém vai respirar tão profundamente quanto quem, quase sempre, quase morre.

A morte nunca vira costume quando falamos sobre a nossa própria.

Ninguém vai respirar tão profundamente quanto alguém que se acaba naquilo que cria.

Quanto alguém que se putrefaz no que faz nascer.

Estou aqui, pois aqui vivo sem que você me exija eternidade, apesar de trazê-la a cada visita.

Estou aqui, pois o que há de animal em mim é bem vindo no espaço que desencontra minha muita humanidade.

Mas fique tranquilo.

Não é nobreza.

É afeto pelo controle.

Da janela para fora, há morte, e aqui dentro só há o tanto de morte que eu decido deixar entrar.

 

24/06/2020

A mariposa morta estava parada dentro do abajur, que tem uma entrada por não sei onde. Eu deveria ter tirado ela lá de dentro, para que o corpo morto dela não queimasse mais cada vez que eu acendesse a luz, mas não consegui. Talvez quisesse deixá-la presa no abajur. Talvez eu estivesse sentindo certa familiaridade. Meu corpo queima cada vez que acendo a minha luz também.

Caminhar pelo apartamento, que sempre foi vazio, parecia mais vazio do que sempre foi.

A presença, que um dia foi trazida por ele, não conseguiu sustentar o que eu poderia querer.

Achei que as coisas poderiam estar diferentes.

As coisas haviam ficado diferentes.

Porém, tenho certeza de que se eu perguntasse, ele diria que não havia percebido. Ou que toda minha percepção havia sido um mal-entendido.

Estranho.

Minha percepção só parecia entender as coisas erroneamente quando diziam respeito a ele, e ele as conseguia desmentir.

Talvez as desculpas que eu dava a mim mesma estivessem me desfazendo.

Era claro o que havia mudado.

Claro como água.

Mas eu não queria ver, não é?

Queria que tivesse sido diferente, não é?

Por isso as tantas mesmas perguntas repetidas de mim para mim mesma, tantas e tantas vezes, como esperança de as respostas mudarem.

 

25/06/2020

Lembro dele.

Se foi sem aviso.

Um dia me consumia e, no outro, foi consumido.

Os amores em São Paulo são rápidos como comer um Big Mac, sem fritas, no drive thru.

Tão solitários que, às vezes, sinto falta de uma atenção na qual eu possa me desfazer.

Hoje em dia, só conheço atenções vis.

Infelizmente.

Acho que ele também sentia falta.

Talvez sentisse tanta falta, que achava que não e, por isso, sentia mais do que eu.

Nem sabia mais como era achar que se sente falta de algo assim.

Bauman se revirava no caixão cada vez que a gente transava.

Ele também.

 

26/06/2020

Hoje à tarde ele chegou.

13:54.

Não sei nem como entrou em casa.

Não estava chovendo. Não era um dia triste.

A porta estava trancada.

Não havíamos combinado.

Eu não queria mais deixá-lo entrar.

Ele entrou mesmo assim.

Eu usava meu vestido mais curto e mais leve, apesar de ser junho.

Estava bonita.

Tinha muito sol na rua, e tudo parecia relativamente normal, não fosse a quase morte de todos os outros a todo segundo.

Quando olhei no sofá, levei um susto.

Ele já estava sentado lá.

Quarentena.

Não deveria poder estar em casa, mas estava.

Pingando uma água amarela no meu tapete, com a pele machucada e despedaçando, ele me olhava e tentava me dizer alguma coisa que eu não conseguia entender.

De seus genitais, saíam vermes que caíam no chão.

Quarentena.

O mundo lá fora estava esquisito.

Quando sentei ao lado dele, encostou a mão no meu rosto, olhando-me com pesar.

Olhei para ele e chorei.

Senti uma lágrima escorrer como se eu soubesse que poderia ter sido mais bonito se ele tivesse me visto antes.

Se ele, algum dia, tivesse me visto.

Mas há muito tempo os olhos estavam ocupados.

Só consegui perguntar: “Por que você não falou comigo? Eu queria saber.”

Quando ele abriu a boca para responder minha pergunta, um barulho ensurdecedor tomou conta de todo o apartamento.

Um dos vidros da cozinha quebrou.

Copos quebraram.

O box do banheiro estremeceu.

Até ele mesmo se assustou.

Começou a chorar ao perceber que não conseguia dizer nada que não pudesse quebrar alguma coisa que estava dentro da minha casa.

Ele poderia ter dito antes, quando era vivo.

Agora, não conseguia mais.

Cada vez que tentava abrir um pouco a boca, um barulho mais terrível e mais alto ecoava.

Eu sempre me assustava.

Ele sempre chorava com a frustração de não conseguir falar.

A água amarela caindo dele.

Os vermes andando pelo chão.

 

27/06/2020

Almoço.

Abri a geladeira e só tinham cabeças de bode para cozinhar.

Escolhi uma e coloquei numa panela.

Uma cabeça pequena, se comparada a uma panela grande. Grande demais para aquele apartamento.

Quando terminei de fervê-la, a fome tinha passado.

Eu que não ia comer aquilo.

Deixei no lixo.

A que cozinhei e todas as outras.

Vestidas com máscaras, para nenhuma ficar doente.

Ele me viu de longe e acenou.

Fingi que não o vi.

Não poderia.

Senão eu morreria também.

 

28/06/2020

O jeito que ele me olhou, nunca vi ninguém me olhar.

Uma vez, há muito tempo.

Outra vez, sem querer, em um restaurante.

Sem querer.

Nunca imaginei que ele estaria lá.

Não me lembrava dele há anos.

Quase não o reconheci, mas o reconheci.

E naquele olhar se foi minha paz, e quem eu havia sido até então.

Até aquele momento, havia sido tudo início.

Ensaio.

Era quem eu queria ser no mundo, mas ninguém nunca deixava.

O olhar que me acolheu e me amaldiçoou. Tudo ao mesmo tempo.

Um segundo que mudou tudo o que eu ainda seria.

Talvez nunca tenha sido amor, afinal isso não é possível, pois sabemos que o amor não existe.

O jeito como ele olhava para todos.

O jeito como ele olhava para qualquer um, nunca tinha visto ninguém olhar.

 

29/06/2020

Não vi mais a mariposa no abajur.

Tudo apagado.

Janelas fechadas.

Talvez eu não fosse mais solar.

Olhei para minhas mãos e não as vi também.

Breu

Nunca amei ninguém tanto quanto o amei.

Mas o amor não existe.

Não há tempo para isso.

Não há tempo para fincar, em uma pessoa, o que se finca em todas.

E ele…

Ele nunca existiu, não é?

Ele não está mais em lugar nenhum.

Nem sei se um dia esteve.

Saudade do bom dia.

Solar.

Ele disse que eu tinha cara de paraíso.

Mas o paraíso é só algo quieto que salva da tragédia.

Ele entendeu errado.

Eu sou a tragédia.

Não aguentava mais ficar em casa.

Não aguentava.

Era minha noite de voar, eu acho.

Mariposa.

Abri a janela do décimo andar e vi o sol de novo.

Saindo.

De dentro de mim.

Iluminei a noite.

Voei mal e porcamente.

Minhas asas deviam estar quebradas.

Caí no chão.

Não sou mais gente, sou mancha.

Um coração malfeito no asfalto.

Se olhar bem profundamente, de um ângulo certo.

Da esquerda.

Você vê o coração?

O amor não existe.

Só existiu nele, que também nunca esteve aqui.

Boa noite pra você dentro de mim.

Estou tão morta quanto a mariposa que um dia voou.

Breu.

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Paula Febbe é escritora e roteirista, com trabalhos para sites, TVs, rádios e veículos impressos como Rolling Stone e Folha de São Paulo. Teve seu primeiro conto publicado em 2010, e desde então encontrou seu próprio caminho em meio a escrita. É autora de Relato Inspirado por Orelhas, Não, Sarau Inconsciente de um Alter Ego Esquizofrênico, Mãos Secas com Apenas Duas Folhas, Metástase e Cartas no Corredor da Morte, o último em parceria com a autora Cláudia Lemes. Em 2021, lançará um novo título pela DarkSide Books.