Flor Vermelha

Um crime trágico acaba alterando para sempre a sorte de uma aldeia. Confira o texto inédito de Verena Cavalcante para a Macabra.

Ela chegou com as águas do verão, vestindo pele de moça, mãos de odalisca, olhos de ave de rapina, boca de dormideira encarnada. Montou uma tenda à beira do rio, vendendo emplastros, bálsamos, soluções, amuletos, bricabraques, relíquias, joias feitas de ossos, com sorriso de esfinge. Trazia pendurados restos mortais de gato-do-mato, porco-selvagem, raposa-caranguejeira, lobo-guará, até dente de marfim de besta estrangeira, item de colecionador, de valor inestimável, que não estava à venda. 

Os homens da aldeia, enfeitiçados pelos tesouros, pelos aromas, pelas ondas femininas, curvas de sucuri ensandecida, tomaram da mulher o corpo, bestas famintas na meia-noite, e em multidão sôfrega, pau, garrafa e faca, fizeram festa na carne esburacada. Um por vez, dois ou quatro, todos juntos, cinco, sete, dez ou vinte, não importava, eles cavavam nela mais uma boca, mais um buraco, de onde, misteriosamente, alecrim, murta, artemísia, camomila, misturada ao cheiro do gozo, do mijo, do sangue, da merda, exalava. 

Assisti apenas o fim, na madrugada da manhã seguinte, quando, já exauridos, os homens tinham desistido de mantê-la em silêncio e, vestindo as roupas, levando consigo as mercadorias, trocando risos de hiena, abandonaram o corpo arruinado, brutalizado, um embolado vermelho de carne na relva úmida. Foram seus estertores, ruído de sangue que borbulha pela boca e ecoa no vale, que me trouxeram até a fogueira apagada, carregando comigo o balde cheio de leite, os pés descalços sujos de terra e os olhos acesos de adolescente curiosa. De trás das árvores, via as asas de uma enorme borboleta vermelha, flor escarlate, que se batiam debaixo do peito branco, rasgado em múltiplos orifícios imundos, esgarçados, e havia ali tanta vida e movimento, que me aproximei, vacilante, de passos curtos. Tomei a cabeça ensanguentada dela entre os braços juvenis. Só conseguia discernir os olhos de tempestade, arregalados, o resto do rosto tomado em magenta, carmesim, e cantei canção de ninar, embalando aquela que tinha sido uma mulher um dia, até que os pulmões ferozes deixassem de bater e os olhos ferinos finalmente se fechassem. 

As colheitas apodreceram. O rio secou. Os ratos invadiram o moinho, os celeiros, as mercearias, as casas, roeram os recém-nascidos como se fossem pão de sal. Há ninhos bulbosos e teias de aranhas cobrindo cada galho, cada folha, cada flor que se ergue acima do chão. Ao tocá-las, explodem em milhares de filhotes venenosos, que se enfiam nas narinas, nos ouvidos, germinam como brotos de feijão. Os homens se reuniram na capela com o padre para discutir que medidas tomar, saber quantos cavalos ainda estão vivos, por que é que não achamos o caminho para fora daqui através da névoa que recobre a estrada. No céu, há uma nuvem negra, espessa e pesada, e raios caem por minuto, incendiando o que restou da plantação, das árvores, da população da nossa pequena vila. Da janela do porão, enquanto escuto meu pai cavar três túmulos no chão enlamaçado, vejo correrem os cães selvagens, a derrubarem as portas das casas, a roerem a carne dos vivos, famintos e risonhos. Sob cada cadáver que cai, nasce do solo, frondosa, perfumada, uma belíssima flor vermelha.

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Verena Cavalcante é escritora, e trabalha também com tradução e revisão de textos. Formada em Letras, vive reclusa em uma casa no interior de São Paulo com dois gatos, dois cachorros, um homem, um bebê, e seus demônios. É autora de Larva e O Berro do Bode, e agora é também autora da DarkSide Books, com nova obra a ser publicada em 2021.