Como o caso Charles Walton ajudou a moldar o imaginário do folk horror

O assassinato que inspirou o Homem de Palha abriu debates na sociedade britânica e fez com que um novo tipo de terror aflorasse no país.

Quando pensamos em folk horror, geralmente pensamos em religiões antigas, que cultuam deuses dos quais não nos lembramos mais, povoados e vilarejos afastados, onde a cultura popular é uma tradição perpétua, e um forasteiro, que chega ao local e é sugado para uma rede de intrigas e terrores. Superstição, rituais, paranismo e feitiçaria criam o clima de terror nessas regiões afastadas, onde esses povos, distantes do que é considerado “civilizado”, lidam com as coisas de sua própria forma. 

Apesar de relativamente novo, com seus filmes vindos principalmente da segunda metade do século XX, os fãs têm especial carinho pelos temas e principalmente pela carga de horror que cabem nessas narrativas. O Homem de Palha (1973), O Estigma de Satanás (1971), O Caçador de Bruxas (1968) e, mais recentemente, Midsommar (2019), November (2017) e O Ritual (2017) são alguns dos exemplos mais citados dentro do subgênero. 

O Homem de Palha, 1973

LEIA+: RITUAIS E CULTOS MACABROS: 13 FILMES DE FOLK HORROR

É justamente O Homem de Palha que, diz-se, inaugura o folk horror. Em um contexto histórico bastante singular, o filme dirigido por Robin Hardy e protagonizado por Edward Woodward e Christopher Lee, na verdade, guarda similaridades com um caso real bastante curioso, para dizer o mínimo, que aconteceu na década de 1940 na Inglaterra.

The Last Sacrifice, 2024

Jogando luz sobre o acontecido, o documentário The Last Sacrifice, escrito e dirigido por Rupert Russell, se aprofunda não apenas no crime em si, mas no contexto histórico em que ele ocorreu e como, então, levou ao pontapé inicial do folk horror. A Macabra te leva em uma viagem para te contar essa história.

O crime

No dia 14 de fevereiro de 1945, em Meon Hill, Lower Quinton, no Condado de Warwickshire, Inglaterra, Edith Isabel Walton ficou preocupada quando seu tio, que a tinha adotado após o falecimento de sua mãe, não voltou para casa. Trabalhando para um fazendeiro local, chamado Alfred Potter, aparando os arbustos, Walton havia saído cedo para o trabalho. Edith buscou ajuda, procurou o fazendeiro, e ambos foram atrás de seu tio. 

Foto de Lower Quinton

 

Eles o encontraram depois de um tempo, mas ele estava morto, ao pé de uma pequena colina. Walton havia sofrido ferimentos na cabeça, sua garganta estava cortada por uma foice, e um forcado havia sido enfiado em seu pescoço, prendendo-o ao chão — todos esses elementos eram do próprio Walton.

A partir daí iniciou-se uma investigação: quem poderia ter cometido esse crime? Meon Hill era um local pequeno, com menos de meia centena de habitantes, e Walton havia morado por ali durante todos os seus 75 anos. Alguém precisava saber alguma coisa.

Investigadores famosos aceitam o caso

Quando a polícia local percebeu a magnitude do caso, a Scotland Yard foi contatada. Como, em um vilarejo tão pequeno, um crime desse havia ocorrido e ninguém sabia de nada? Tamanha brutalidade e violência contra um morador que passara a vida toda ali.

De início, quem chefiou o caso foi o famoso investigador britânico Robert Fabian. Detetive superintendente da Polícia Metropolitana de Londres, Fabian ficou conhecido desde cedo por sua atuação na força policial, mas foi depois de se aposentar que a fama realmente se estendeu: tendo escrito o livro Fabian of the Yard, logo seus casos mais famosos foram transformados também em série pela BBC, sob o mesmo título, e cada episódio contava com um epílogo comentado pelo próprio Fabian. 

O investigador Robert Fabian

Dizia-se que Fabian conseguia resolver todos os casos que colocava as mãos, mas ele teve problemas tentando encontrar o assassino de Charles Walton. Fabian foi auxiliado por seu parceiro, Albert Webb, e ambos começaram os interrogatórios. O suspeito mais provável, que primeiro caiu sob o escrutínio da polícia, foi o próprio Alfred Potter, para quem Walton trabalhava no fatídico dia de sua morte.

Fabian estava convencido de que Potter era o suspeito e o culpado do assassinato, mas não havia formas de provar. Enquanto investigavam outros suspeitos e testemunhos, ao menos três possibilidades a respeito do crime foram levantadas, e cada uma delas é fundamental não apenas para esse caso, como para o próprio terror britânico que cresceria dali alguns anos.

As hipóteses do assassinato

Em The Last Sacrifice são elencadas algumas hipóteses para o assassinato de Walton. A hipótese mais aceita inicialmente era a de que Walton havia sido morto por Potter, mas não parecia haver muitos motivos para isso. Potter estava esquivo ao longo de seu interrogatório, e muitos que o viram após a descoberta de assassinato não acharam que ele se parecia com uma pessoa que estava angustiada com o acontecimento; mas motivos, em si, não haviam muitos. A não ser a ganância.

Recorte de jornal ligando o caso de Charles Walton à possibilidade de bruxaria

Surgiram alguns boatos de que Walton andava com bastante dinheiro por aí, e que Potter ou outro poderiam ter ficado de olho na quantia. Edith, por outro lado, afirmou que isso não era verdade, que o tio não andava com somas em dinheiro. 

Houve, porém, uma outra hipótese levantada, e é essa que mais nos interessa: a possibilidade de Walton ter sofrido um assassinato ritualístico, tanto como sacrifício de sangue, como para extirpar algum mau agouro que ele pudesse trazer com ele. Ambas as teorias partem de um mesmo lugar, mas acabam chegando a conclusões e possibilidades diferentes. Para entendê-las, é melhor contextualizarmos a situação.

A ruptura entre a tradição e a modernidade

Como é apontado no documentário, a Grã-Bretanha, como um todo, é uma região de tradições e rituais — de muitas formas. Podemos pensar na tradição da monarquia, que ainda hoje é algo muito presente na vida dos britânicos, mas também podemos pensar em tradições mais antigas, antes mesmo de a Igreja Católica intervir naquela parte do mundo.

Imagem do documentário Secret Rites, 1971, que mostra um coven real e alguns de seus rituais

Enquanto os Estados Unidos passava os anos 1960 com o movimento de direitos civis, o paz e amor e o início do boom de serial killers, a Grã-Bretanha passava por um movimento parecido: a tradição clássica, aquela visão que temos dos britânicos tomando chá às 17h, a visão da monarquia, entrava em contraste com a liberdade sexual, o rock dos Beatles, uma rebeldia jovem (ainda que britânica, diferente da rebeldia punk dos Estados Unidos). 

Secret Rites, 1971

Essa contenda abriu caminho para um outro tipo de tradição, que já tinha adeptos, mas começou a ser mais amplamente divulgada e adotada. O ocultismo, em suas variadas formas, ganhou adeptos; matérias dos jornais falavam sobre a propagação da bruxaria. Era uma febre.

Um assassinato ritualístico na década de 1940?

Dois eventos principais levaram à bruxaria ao centro do que poderia ter acontecido com Walton: uma mulher, que alegou com certeza que o que havia acontecido com ele foi alvo de bruxaria, e a entrada de Margaret Murray no caso. Murray foi uma arqueóloga, egiptóloga, historiadora, folclorista e antropóloga britânica, que focava muitos de seus estudos justamente nos assuntos da bruxaria. Junte a isso o boom de ocultismo que a Inglaterra passava naquele período, e a receita para boatos e burburinhos estava pronta.

O Homem de Palha, 1973

LEIA+: BRUXAS NO FOLK HORROR: HEROÍNAS OU VILÃS?

Claro, não era apenas isso que fazia com que os boatos fossem ouvidos. Outras histórias surgiram, incluindo relatos de Fabian, no seu então livro, já publicado àquela altura, Fabian of the Yard, de que coisas aterrorizantes aconteceram a ele, inclusive o avistamento de um enorme cão preto. E é justamente a figura do cão, e a forma como Walton foi assassinado, que deram a liga necessária para esses boatos.

O Estigma de Satanás, 1971

Histórias antigas foram resgatadas, conectando Walton ao assassinato de Ann Tennant, uma mulher que foi assassinada também com um forcado em um outro vilarejo a 15 milhas de distância, no final do século XIX; conectaram Walton também a uma outra história folclórica da região, de um garoto que havia sido perseguido por um cão negro e ganhara poderes desde então. Este último caso foi narrado em um livro do antiquário James Harvey Bloom, o acontecimento teria se dado também ao final do século XIX, e o nome do garoto do livro era Charles Walton.

A conexão com o folk horror

É nesse contexto de Inglaterra tumultuada pela tradição e pelo ocultismo e da possibilidade de um assassinato ritualístico que surgem os primeiros filmes que são, de fato, de folk horror. O que mais guarda similaridades com o caso de Charles Walton é O Homem de Palha.

No filme, um sargento da polícia é enviado a um pequeno vilarejo em uma ilha escocesa, buscando uma menina desaparecida que os habitantes afirmam nunca ter existido. Ninguém a conhecia, ninguém sabe o que houve com ela. O sargento Howie (Edward Woodward), que está investigando o caso, sente-se perdido, mas então começa a perceber algo de muito estranho no local. 

O Homem de Palha, 1973

LEIA+: 7 CURIOSIDADES SOBRE O HOMEM DE PALHA, GRANDE CLÁSSICO DO FOLK HORROR

É bastante singular como O Homem de Palha e o assassinato de Charles Walton possam se parecer: apesar de a vítima no filme ser uma jovem, e Walton ser um homem idoso, o clima de receio com que Fabian entra neste universo tão fechado para tentar descobrir a realidade do assassinato e a ambientação, em um lugarejo isolado na Grã-Bretanha, nos fazem pensar que houve mais que apenas uma leve inspiração na criação do filme dirigido por Robin Hardy, como aponta o documentário The Last Sacrifice

O Caçador de Bruxas, 1968

Lançado em 1973, O Homem de Palha não é o primeiro filme de folk horror. O Caçador de Bruxas (1968), As Bodas de Satã (1968), O Estigma de Satanás (1971), entre outros, o precederam. Mas eles surgem em um mesmo contexto, e advém de um mesmo local: o Reino Unido, com suas batalhas por identidade de um povo que cresceu em uma região muito antiga, mas que se vê tentando compreender realmente quem é.

O documentário The Last Sacrifice, dirigido e escrito por Rupert Russell, se aprofunda nessa dualidade: uma frieza distante e racional, baseada em costumes que vieram diretamente da realeza e da aristocracia, e uma tradição que vem dos campos e das pessoas mais simples, do oculto e do sobrenatural, da emoção. O folk horror, afinal, é pautado justamente nessa duplicidade.

Midsommar, 2019

LEIA+: 8 FILMES DE FOLK HORROR PARA ENTRAR NO CLIMA DE CONDADO MALDITO

*

E você, qual o seu filme favorito de folk horror? Sabia das possíveis origens de true crime do subgênero? Comente com a gente no Instagram e em suas redes sociais.

Compartilhe:
pin it
Publicado por

Acordo cedo todos os dias para passar o café e regar minhas plantas na fazenda. Aprecio o lado obscuro da arte e renovo meus pactos diariamente ao assistir filmes de terror. MACABRA™ - FEAR IS NATURAL.