A infância é um dos momentos mais delicados na vida de uma pessoa. A base para a construção da personalidade, do caráter, de gostos e de interesses se inicia nesse período; é neste momento que muita coisa se forma. E sabemos, também, que é nessa fase da vida que muito se perde. Os desafios e negligências causados na infância podem desencadear grandes consequências para os anos vindouros.
Em Anjos Cruéis, de Daniel Cruz, somos apresentados a esse universo em que a psicopatia pode nascer ainda na infância — e, muitas vezes, o ambiente em que essas crianças crescem é o fator decisivo que faz a balança pender entre uma vida de comportamentos desviantes ou uma trajetória convencional e não criminosa. É recorrente, embora não seja uma regra, que vejamos assassinos que, desde pequenos, já apresentavam traços desse tipo.

LEIA+: 25 CRIANÇAS MACABRAS DOS FILMES DE TERROR
A literatura e o cinema de terror são um terreno fértil para esse tema. Há algo sinistro em vermos crianças malignas representadas nas telas e nas páginas. Ao longo da história do horror, a infância desviante foi tratada em diferentes níveis — de crianças que nasceram malignas, seja por algum motivo sobrenatural ou pela natureza humana, a crianças que se tornaram malignas, quase sempre pelo ambiente em que cresceram.
A Macabra percorre algumas das obras mais emblemáticas com crianças malignas para este Dia das Crianças.
A infância corrompida sobrenaturalmente
Quando pensamos em crianças malignas, alguns nomes nos vêm à mente, sendo Damien e Regan dois dos seus mais fortes representantes. Ambos, entretanto, foram corrompidos sobrenaturalmente.

Damien, de A Profecia, é um caso à parte, talvez: ele não foi corrompido, ele já nasceu maligno. Sua infância — e posteriormente sua vida como adolescente e adulto, como vemos nos filmes seguintes da franquia, Damien: A Profecia II e A Profecia III – O Conflito Final — foi dedicada a causar o mal. Ele é um enviado do Diabo para levar tragédias ao mundo.
Já Regan é um caso diferente: ela foi corrompida sobrenaturalmente pela possessão. Causando diversos ultrajes e blasfêmias ao longo do filme e do livro O Exorcista, ela não tem culpa do que aconteceu. Uma das interpretações da obra, inclusive, nos mostra que, na verdade, talvez seu lar seja o culpado — naquele período, visto como “um lar desfeito”, a mãe de Regan, Chris MacNeil, foi considerada culpada por ser uma atriz e mãe solo, sendo então permissiva demais e deixado Satanás agir em sua casa.

Ao longo de O Exorcista, acompanhamos uma batalha espiritual para salvar a vida e, mais importante, a alma de Regan. No filme seguinte, O Exorcista II – O Herege, sabemos que os padres envolvidos foram bem-sucedidos, sendo Regan uma das responsáveis por ajudar uma outra jovem com problemas.
LEIA+: 7 FILMES COM CRIANÇAS DEMONÍACAS
Más influências

Pode até não ter sido o diabo que mandou fazer o mal, mas as outras crianças com certeza influenciaram a decisão. Filmes como Colheita Maldita e Os Meninos nos apresentam crianças que foram induzidas por outras a cometer atos terríveis. Na literatura, Quando os Adams Saíram de Férias e A Garota da Casa ao Lado — inspirados em um caso real — são dois dos mais brutais exemplos.
Não é incomum que também encontremos casos de folie à deux entre crianças. Alma Gêmea, livro de Peter Graham, nos conta a história de Pauline Parker e Juliet Hulme, duas adolescentes da Nova Zelândia, na década de 1950, que cometeram juntas o assassinato a sangue-frio da mãe de uma delas. A história também serviu como base para o filme de mesmo nome de Peter Jackson, de 1994.

Nestes casos, forças sobrenaturais e espirituais não estão presentes — com exceção de Colheita Maldita que nos apresenta uma entidade; mas, ainda assim, a influência das crianças sobre elas mesmas é ainda mais forte que o receio dessa criatura —, sendo a própria maldade o combustível para os atos cometidos.
Personalidade maligna
Há alguns outros casos também representativos de crianças problemáticas e assustadoras no terror que não possuem vínculo com o cara lá de baixo. Transformadas em símbolos de terror, essas crianças arrancam arrepios apenas por serem elas mesmas.

Rhoda Penmark, de Tara Maldita, adaptado do livro Menina Má de William March, se encaixa nessa categoria: ela não é assombrada, e não teve influências sombrias de outras crianças, ela apenas é aterrorizante e gosta de levar a maldade por onde passa, beirando a psicopatia propriamente dita.

Outros exemplos são Henry, de Anjo Malvado, e Kevin, de Precisamos Falar Sobre Kevin. Eles são apenas maus. Mesmo com criações preocupadas e pais dedicados, falta empatia nesses pequenos terrores.
O mundo me fez assim
Algumas crianças, entretanto, acabam sendo tidas como “aterrorizantes” por motivos mais complexos. Em Hereditário, Charlie é uma menina introspectiva, solitária e incompreendida, com hábitos pouco convencionais e uma sensibilidade que ninguém ao seu redor parece disposto a acolher. Nem mesmo o irmão mais velho consegue enxergá-la além das excentricidades. Sua estranheza acaba servindo como máscara para algo muito maior — forças que a ultrapassam, manipulando-a desde o nascimento. O que o filme mostra, no fundo, é o destino cruel de uma criança usada como peça em um jogo do qual nunca fez parte.

De maneira semelhante, Carrie White, de Carrie, a Estranha, é mais uma jovem moldada pela rejeição. Criada sob o peso do fanatismo religioso e do bullying cruel de seus colegas, ela não nasce má — é forjada pela humilhação e pelo isolamento. Seu poder telecinético surge quase como uma resposta física à dor, uma forma desesperada de reagir a um mundo que só a conhece pelo medo. O horror de Carrie não está nela, mas na sociedade que a empurra para o colapso.

Estranha, crescendo à margem e se transformando em uma das bruxas mais icônicas da literatura e do cinema, encontramos também Elfaba. Temos um breve vislumbre de sua vida antes de se tornar a Bruxa Má do Oeste em Wicked, mas é em Elfie que sabemos, com mais profundidade, como foi a infância dessa personagem. O que temos certeza, é claro, é que não foi fácil: com sua pele cor de esmeralda e uma família que não lhe era de muito apoio, Elfie cresceu em meio a um mundo hostil, que não cessou quando era adolescente e muito menos quando era adulta.
*
Crianças podem até carregar o rótulo de “malignas”, mas quase sempre são moldadas — e às vezes feridas — pelos contextos em que crescem. O terror, ao explorar essas infâncias à beira do abismo, nos obriga a encarar o que há de mais humano por trás do medo. Qual o seu filme favorito sobre o tema? Comente com a gente no Instagram e em suas redes sociais.

