Diante das tragédias sociais e políticas que o Brasil enfrentou nos últimos anos — e ainda enfrenta todo santo dia —, há algo de inspirador e revoltante que faz com que parte da produção cultural se volte para esses problemas, para ampliá-los e debater sobre eles. Um dos melhores exemplos recentes no cinema nacional é o filme Mormaço, dirigido por Marina Meliande e lançado em 2018.
Meliande é uma das grandes diretoras que tem movimentado o cinema de horror nacional dos últimos anos. Ao lado de nomes como Gabriela Amaral Almeida, Juliana Rojas e Anita Rocha da Silveira, Meliande inseriu um de seus trabalhos nas listas de melhores filmes dos últimos anos.
A diretora, roteirista e montadora é formada pela Universidade Federal Fluminense. Sua carreira é composta principalmente por obras em que trabalhou em conjunto com Felipe Bragança, com dois curtas premiados, chamados Por Dentro de uma Gota D’água, de 2003, e O Nome dele (o clóvis), de 2004. Entre os anos de 2007 a 2009, Meliande esteve na França, sendo residente do Centro de Arte Contemporânea de Le Fresnoy, onde realizou duas videoinstalações: Lettres au Vieux Monde e L’Image qui reste.
É em 2009 que Meliande e Bragança lançam seu primeiro longa, parte de uma trilogia, chamado A Fuga, a Raiva, a Dança, a Bunda, a Boca, a Calma, a Vida da Mulher Gorila. O filme foi aclamado pela crítica e ganhou o prêmio da Mostra Tiradentes daquele ano. O longa conta a história de duas irmãs que saem de casa em uma kombi e montam um espetáculo para conseguir dinheiro. O segundo longa da trilogia, A Alegria, foi lançado em 2010. Tido como drama, o filme tem elementos sobrenaturais e acompanha a história da adolescente Luiza, cujo João, seu primo, morreu em um Natal. Certo dia, ao voltar pra casa, João a espera como fantasma pedindo para que se esconda em sua casa.

O terceiro longa da dupla, de 2010, é o filme colaborativo Desassossego, que teve apoio de diretores como Juliana Rojas e Marco Dutra.
Meliande também ministrou um curso, em 2012, na Cal Arts – California Institut of Arts, e serviu como consultora de roteiro no laboratório PAN LAB (Panorama Coisa de Cinema, Bahia 2015 e 2016.
Seu último longa até o momento foi Mormaço, com roteiro de Bragança a partir de sua ideia original.
Mormaço se passa no verão do Rio de Janeiro de 2016, pouco antes das Olímpiadas. Por conta a especulação imobiliária, algumas famílias de uma comunidade estão sendo “realocadas” para abrir espaço nas proximidades do parque olímpico. E quando dizemos realocadas, na realidade, as famílias estão sendo removidas e despejadas de seus lares.
A defensora pública Ana (Marina Provenzzano), assume o cargo de diálogo e defesa dessas famílias, mas também passa por problemas em casa: ela também precisa encontrar outro lugar para morar, pois a imobiliária de seu apartamento quer que todas as famílias saiam para que um hotel seja construído. Toda essa situação leva Ana até um ponto de estresse indescritível, e a jovem advogada precisa lidar com tudo isso sob o sol e o calor da cidade.
Enquanto tudo isso acontece com Ana, ela acaba descobrindo estranhas marcas em sua pele, que logo descobre ser algum tipo de alergia ou alguma doença, sem que ninguém saiba o motivo ou como pode ser tratada. Suas atitudes começam a mudar, e Ana aos poucos vai sendo uma pessoa completamente diferente, com gostos diferentes, e começa a temer a morte.
Mormaço se mostra um filme denso, crítico e importante. O trabalho de direção de Meliande também é algo a ser aplaudido: as cenas de Ana com suas coceiras, aliado o trabalho de sonoplastia, já ao final do filme, enquanto é tomada pela doença, nos apresenta um trabalho incrível de direção, roteiro e atuação.
Em entrevista para o site Papo de Cinema, a diretora afirma que as suas inspirações vieram desse grande sentimento de medo e apreensão que circulava no Rio, prestes a ser sede de dois enormes eventos que foram a Copa do Mundo, em 2014, e as Olimpíadas, em 2016.
O descaso com a população a partir do governo é visível no longa de Meliande, através dos discursos e das próprias situações mostradas em cenas comuns de comunidades que todos os dias tem suas propriedades questionadas. A diretora teve sensibilidade ao utilizar de uma situação diária e apresentá-la sob o prisma de um acontecimento fantástico, não deixando que um apagasse o outro, mas que ambos funcionassem em conjunto. Para o filme, o pano de fundo real é tão importante quanto o funcionamento da “alergia” de Ana.
Meliande faz um trabalho crítico excelente em Mormaço, utilizando o sentimento de horror e apoiando sua crítica em algo tão comum, que vemos nos noticiários todos os dias, com a metáfora do monstruoso e utilizando muito bem o body horror como elemento narrativo. Matéria-prima para novas obras críticas, Meliande com certeza tem, e aguardamos ansiosos pelos próximos trabalhos desta grande diretora macabra.
*
Gostou de conhecer um pouco mais sobre a carreira da diretora? Confira a tag Diretoras Macabras para saber mais sobre cineastas do terror. Comente com a Macabra no Twitter e Instagram.