Com uma narrativa potente, bem-humorada e pra lá de macabra, Psicopata Vitoriana tem todos os ingredientes que os fãs de terror e true crime poderiam querer: um cenário gótico, com uma mansão que, ainda que não decadente por fora, apresenta um estilo de vida repleto de pequenas degenerações e crueldades, personagens completamente odiosos e uma protagonista com (fortes) tendências psicopáticas. Virgínia Feito reuniu os elementos perfeitos para criar uma história que a gente não consiga parar de ler até terminar.

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Uma história tão fascinante não demoraria a virar filme. A adaptação de Psicopata Vitoriana chega aos cinemas nos circuitos comerciais em novembro de 2026 — anteriormente, a data de estreia era em setembro, mas seu lançamento foi adiado nos Estados Unidos. Protagonizado por Maika Monroe, com Thomasin McKenzie, Ruth Wilson e Jason Isaacs no elenco, e dirigido por Zachary Wigon, o filme teve uma sessão em Cannes e nos deixou ainda mais curiosos para conferi-lo.

Mas, enquanto o filme não chega, Macabra traduziu uma entrevista que Virginia Feito concedeu ao site NPR, para a colunista Ayesha Rascoe, em fevereiro de 2025, a respeito de suas inspirações e intenções com a escrita de Psicopata Vitoriana. Confira abaixo.
Virginia Feito: (lendo) “Entro na casa pela cozinha, onde a cozinheira me confronta com uma camisola dramaticamente ensanguentada que encontrou escondida atrás da porta da caldeira.
‘A sra. Able falou que você não nos deu uma camisola para lavar esta semana’, diz ela, ‘então esta daqui deve ser sua.’
‘É sim’, respondo, tomando nas mãos a camisola pesada e encrostada.’Obrigada.’
A cozinheira me olha, surpresa por eu aceitar o item sujo tão prontamente. Suspiro pelo esforço desnecessário que agora preciso fazer.
‘Achei que estivesse muito manchada, sabe’, explico, ‘e seria muito humilhante chamar atenção para isso. Então tentei escondê-la.’
‘Mas… o sangue?’
‘Ocorrência natural, sabe. Um mal feminino.’
‘Mas está por toda a gola…’
‘Está’, digo animada, como se isso resolvesse o assunto.
‘Srta. Notty…’, começa a cozinheira, seu rosto se alarmando.
Finjo um desmaio. Considero os desmaios a mais proveitosa das encenações.”
Rascoe: Esse trecho é do novo livro Psicopata Vitoriana. Uma história gótica ultraviolenta com humor ácido sobre uma mulher que não consegue se conectar com coisinhas como empatia, simpatia e o básico da gentileza humana. Você estava lendo Jane Eyre e assistindo a Psicopata Americano e então…
Feito: Misturando medicamentos — não, brincadeira. Na verdade, a primeira coisa que veio a mim foi uma das frases que ainda está no romance, desde o começo. Fala algo sobre seios que balançam no corset. E aquela voz… eu não conseguia me livrar dela. Eu entendi imediatamente quem era aquele personagem, e entendi que era uma questão de época. Mas também era anacrônico, e irreverente, e sarcástico. E tinha muita raiva naquela voz, e eu dei a ela um trabalho como governanta, e dei a ela a particularidade de ser uma psicopata.

Rascoe: (rindo) Sim, srta Notty, ou Winifred Notty — ela não está escondendo nada do leitor…
Feito: Sim.
Rascoe: … No começo, ela entrega tudo dizendo: “É início do outono, o frio começa a se estabelecer. Em três meses, todos nesta casa estarão mortos”.
Feito: Sim. A Winifred é muito autoconsciente, ainda que ela seja muito brincalhona. Eu acho que ela usa esse humor para meio que nos manipular e justificar suas ações ou empatizar com ela. Mas Winifred vai até essa casa, essa grande, nobre, uma casa de campo inglesa — a mansão Ensor, em homenagem a James Ensor, inclusive, apenas porque suas pinturas são totalmente grotescas e estranhas.
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E quando eu estava investigando a Era Vitoriana, eu continuei me deparando com essa quantidade insana de histórias sobre abuso, misoginia e crueldade. E, evidentemente, criados não estavam em boa posição para se defenderem, e eles eram posses, basicamente. A situação das crianças não era muito melhor, trabalhando várias horas nas fábricas. Havia epidemias de infanticídio. Quando eu estava fazendo a leitura e a pesquisa, eu fui ficando mais nervosa. Mas era tanto que foi meio que engraçado, de uma forma estranha. Então essa voz é a que está nas páginas do livro.
Rascoe: Você pode ler outra passagem? Essa é a que Winifred está nos estábulos.
Feito: Claro.
(lendo) “No chão, ao meu lado, encontro um pegador de açúcar de ferro forjado, gravado com o brasão da família Pounds. Há algo doce preso entre meus dentes no fundo da boca. A princípio, presumo que seja um torrão de açúcar, porém, ao tirá-lo, descubro que é um molar cariado solto, meu ou de outra pessoa. Está pegajoso; será que arranquei um dente com a tesoura de açúcar? Eu não deveria beber vinho do Porto após o jantar.”

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Rascoe: (rindo)
Feito: Essa é a Winifred fazendo comédia stand-up
Rascoe: Sim (rindo)
Feito: … Essencialmente. O livro inteiro é meio que “bem-vindo ao meu show, estarei aqui até segunda”.
Rascoe: Uma das coisas estranhas — uma das muitas coisas estranhas (risos) — sobre Winifred é que ela parece ter algum tipo de fixação oral. Ela está sempre colocando coisas na boca, mordendo coisas…
Feito: Realmente.
Rascoe: … Pessoas, cavalos. Do que se trata isso? Bebês geralmente têm uma certa fixação oral, certo?
Feito: Bom, isso é interessante. Eu estava pensando mais em animais, eu acho. Eu me lembro de um bilhete da minha editora em um dos manuscritos iniciais. Ela estava, tipo, minha garota está sempre farejando. Ela sempre fareja tudo, lambe tudo, sempre está tocando tudo. E especialmente eu acho que ela gosta muito de fazer coisas que muitos de nós consideraríamos nojentas como, não sei, nojento, como uma verruga com pelo. E eu acho que ela é, não sei, animalesca e visceral.
Rascoe: Winifred realmente encontra um espírito parecido com o dela em uma das crianças sob seus cuidados, a adolescente Drusilla Pounds. O que você acha que Winifred e Drusilla veem uma na outra?

Feito: Winifred, eu acho, descarta a Drusilla de cara. E eu acho que muitos leitores também vão, honestamente, porque, como escritora, eu também fiz isso. Ah, mais uma adolescente rica, tanto faz. E então, de repente, eu pensei, espera, há algo que pode ser aproveitado aqui. Ela provavelmente tem uma vida interior incrivelmente insana, essa garota. Ela vive dentro dessas paredes, o irmão dela é o herdeiro, seus pais não ligam para sua educação porque, por que se incomodar? Ela só tem que casar, eventualmente. Claro, ninguém liga para sua personalidade e seus hobbies. Que hobbies?
Os criados obviamente tinham péssimas vidas, mas eu não tenho certeza se as pessoas ricas eram muito melhores, especialmente as mulheres. Elas não poderiam se exercitar porque seus úteros poderiam cair ou qualquer coisa assim. Atividades criativas não eram bem vistas para elas. Elas tinham só que se sentar e ser obedientes.
Então eu acho que Drusilla e Winifred têm algo em comum. Havia uma certa escuridão crescendo dentro delas. É diferente em cada uma, certo, porque vem de contextos diferentes. E eu acho que todos nós carregamos uma escuridão dentro de nós, independentemente como isso possa parecer. Pode ser alguma coisa que estamos tentando controlar, algo que não gostamos, como ganância, inveja ou…
Rascoe: … ou raiva, fúria…
Feito: (rindo)
Rascoe: … Falando pessoalmente.
Feito: Vamos falar mais sobre isso.
(risos)

Feito: Mas sim, são espíritos parecidos de uma forma surpreendente. Eu acho que, no fim, talvez todos sejamos.
Rascoe: Falando sobre a história, realmente não há redenção. Não há ninguém, como dissemos, para torcer. Há um sentido mais amplo na história, ou é apenas um tipo de aventura sangrenta e agitada para pessoas que, como eu, amam essas coisas?
Feito: Assim, é uma ótima leitura, mas eu adicionei camadas com um monte e um monte de coisas abstratas, grandes conceitos como o mal, por exemplo, e a natureza disso — de onde vem as motivações de pessoas diferentes para cometerem atos malignos. E há, também, um pouco de questionamentos de como estamos abordando essa perspectiva feminista que está meio que na moda. Eu me pergunto às vezes se estamos fazendo mulheres descoladas o tempo todo, sem nos perguntar se elas são apenas más, ou se, talvez, não valha a pena justificar suas ações. Ou as várias assassinas na cultura popular, que são geralmente retratadas de forma muito sexy, habilidosas, em vez de serem apenas brutas.
E eu queria abordar a forma como mulheres geralmente não matam da mesma forma que homens, explorar isso. O que aconteceria se uma mulher começasse a matar de uma forma muito sanguinolenta? Geralmente, ao longo da história, mulheres mataram com venenos. É diferente. É mais íntimo, mais psicológico. Então acho que eu queria ver o que aconteceria se uma mulher simplesmente matasse sem motivo algum, a não ser pelo prazer de matar. As duas leituras funcionam, está tudo certo. Cada leitor pode decidir o quanto quer levar tudo isso a sério. Mas eu queria, sim, acrescentar algumas camadas e levantar questões mais complexas.
Confira abaixo o trailer de Psicopata Vitoriana:
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