A morte é um tabu na maioria das sociedades ocidentais. Apesar de hoje termos tantas pessoas falando sobre o tema, como, por exemplo, criadores que usam a hashtag #DeathTok fazendo sucesso considerável nas plataformas de vídeos curtos, ainda assim é um assunto “espinhoso”. Quando se trata de mulheres no ramo, então, o assunto parece ser ainda mais complexo. Como em todos os campos que envolvem dureza emocional e física, o espaço para mulheres se desenvolverem e crescerem nessas carreiras acaba reduzido por tabela.

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Mas, por sorte, isso não significa muita coisa quando existem tantas mulheres dispostas a abrirem espaço à força — com dedicação e… pás. Em Coveiras: Memórias Desenterradas, Juliette Cazes reúne algumas das mulheres que fizeram uma verdadeira revolução silenciosa nos ritos fúnebres de vários países. De embalsamadoras a carpideiras, Cazes nos mostra como mulheres sempre estiveram envolvidas nesses trabalhos, seja por acaso do destino, seja por escolha.

Uma delas, porém, foi ainda mais longe: a ciência forense como a conhecemos hoje se deve em partes a uma mulher chamada Frances Glessner Lee, e ao seu hobby de dioramas. Vem com a gente que a Macabra te conta essa história.
Quem foi Frances Lee
Frances Glessner Lee (1878-1962) teve o privilegio de nascer em uma família rica, com diversas oportunidades. Desde cedo, se interessou pelos estudos, e tinha, disponíveis para ela quando quisesse, muitos livros variados. Mas Frances também teve o azar de nascer em uma família rica e ser uma mulher. Apesar de todos os avanços do século XIX, Frances a família de Frances a criou para a aristocracia, para um casamento com outro homem com certo poder aquisitivo, e não para os estudos.

Ela foi impedida de estudar quando quis se especializar em Medicina e Direito. Posteriormente, acabou se casando com um amigo de seu irmão que estudou em Harvard, Blewett Lee, em 1898. Frances tinha apenas 19 anos, enquanto Lee tinha 30. Algum tempo depois, ela dá à luz seu primeiro filho. O casamento, porém, logo entra em crise, e eles se divorciam em 1914.

Mesmo que o divórcio não fosse algo tão comum nos Estados Unidos naquele momento, Frances sentiu alívio. Cada vez mais interessada na medicina legal, uma área que se desenvolvia e estava em alta nos círculos médicos norte-americanos, Frances poderia, finalmente, se voltar a esses estudos.
A chave está nos locais do crime
O século XIX foi um século de avanços no que diz respeito a muitas áreas, e uma delas foi a perícia criminal. Apesar de muitos conceitos que hoje são ultrapassados — como a teoria do “Homem Delinquente” de Lombroso —, a maior atenção dada a criminosos pela psiquiatria e pelos próprios departamentos de polícia — que viam surgindo novos assassinos, cada vez mais aterrorizantes, em um curto período — levou a um rápido avanço nessas áreas.

Frances Lee, porém, compreendia que era importante olhar para outro lugar, além do crime em si: os locais dos crimes eram quase tão importantes quanto o resto. A cena também importava.
Após o divórcio, Frances mantém amizade com o dr. George Burgess Magrath, um médico-legista que também se graduara em Harvard.
Ao longo dos anos, Frances segue seus estudos e seus hobbies, quando, no início da década de 1930, sofre um duro golpe: seu irmão e seus pais falecem. Apesar do luto, Frances percebe que está, por fim, ainda mais livre, e tem, agora, uma herança substanciosa para tirar proveito.
Dioramas criminais

É em 1931 que Frances Lee começa, de fato, a trabalhar a favor da perícia criminal, financiando, com seu próprio dinheiro e apoio de Magrath, a criação de um departamento de medicina forense na Universidade Harvard. Ela pensava que, assim, conseguiria ajudar os investigadores a se prepararem melhor.
Naquele momento, porém, as regras para as investigações não eram tão rígidas. Apesar de tentarem preservá-los, locais de crimes, por exemplo, eram frequentemente alterados, e não havia rigor para esse tipo de análise. Então encontrou outra forma de ajudar.

Quando criança, uma das atividades que eram apoiadas pelos pais de Francis, era a montagem de casinhas de boneca. Ela pensou: por que, então, não criar casas de bonecas dos locais de crimes para que eles ajudassem na análise e resolução?

Se você está familiarizado com a série CSI: Investigação Criminal, deve se lembrar dos episódios entre a sétima e oitava temporada em que uma assassina, chamada de “a Assassina da Miniatura”, envia dioramas com réplicas idênticas dos crimes que planeja cometer. No caso de Frances Lee, ela trabalhava no sentido oposto: ela criava os dioramas com detalhes minuciosos das cenas dos crimes, permitindo que a perícia, ainda muito nova naquela época, pudesse observar com calma e sem interferência.

Essa arte/técnica foi chamada “Nutshell Studies of Unexplained Death” — ou, em português, “Estudos resumidos sobre mortes inexplicáveis”. Frances criou com afinco esses dioramas, e ela mesma os apresentava aos investigadores, convidando-os a observar e analisar aqueles lugares com distanciamento — porém acuidade. É em 1943, que Frances recebe uma das maiores honrarias da polícia: ela é nomeada capitã honorária da polícia de New Hampshire, se tornando a primeira mulher a receber esse título no país.
Em 1961, porém, o teto de onde estão armazenados os seus trabalhos tão cuidadosos desaba, destruindo todos eles. Um golpe em sua saúde, sem dúvida, que depositou tantos anos naqueles trabalhos. Frances falece em janeiro de 1962, vencida pelo câncer de mama. Deixa sua herança para ser dividida entre os filhos e sua fundação, o Fundo Frances Glessner Lee para o Estudo da Medicina Legal.

Apesar da fundação ter sido encerrada alguns anos depois, a memória e o legado de Frances permanecem. Em 1990, seus dioramas são restaurados e estão em exibição no Centro de Medicina Legal de Maryland, em Baltimore, servindo como ferramentas educacionais para as novas gerações de investigadores.
Frances é apenas uma de muitas mulheres que a história geral desconhece — ou se esquece, ou não dá a devida importância —, mas que, graças ao trabalho de pessoas como Juliette Cazes, pode ser reapresentada a gerações mais novas. Frances fez muito pela criminologia e pelo trabalho de mulheres no ramo.
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O livro Coveiras: Memórias Desenterradas, de Juliette Cazes, está disponível em pré-venda na Loja Oficial da DarkSide Books. E você, já conhecia a história de Frances Glessner Lee? Comente com a gente no Instagram e em suas redes sociais.

