O eterno vezes seis

Nada atravessa as paredes tão rápido quanto o ódio. Confira o texto inédito e exclusivo de Paula Febbe para a Macabra.

Todo mundo que entra aqui morre pelo menos cinco vezes. Quando é pego, quando passa pelo portão de entrada, quando perde a dignidade tentando ter alguma, quando a família deixa de visitar e quando morre de vez.

Mas esse ano.

Esse ano teve gente aqui que morreu seis.

30 de dezembro de 2019.

Ninguém pode ser preso dia 31, então muitos são presos um dia antes.

Nove pavilhões.

Unidade Pandinha.

“Chiado” chegou, preso por quase pouco de maconha.

Asmático, era o melhor traficante de Rondônia, pois não podia fumar nem cheirar, então só vendia. 

Os piores profissionais são aqueles que consomem a própria mercadoria. Pouca chance de futuro, mesmo que próximo e curto, pois um futuro próximo e curto é, quase sempre, a única possibilidade.

Ainda assim, a excelência em um trabalho ilegal não o impediu de ser preso no fim do ano.

Chiado preso, quase quando a maioria podia sair.

Preso, pois queria comprar um presente pós Natal para a mãe.

O presente virou a possibilidade de passar o ano que estava por vir, na prisão.

Talvez alguns anos por vir.

Quem diria!

Mas a lei no Brasil é essa. Não se é preso por quantidade, mas por porte. E porte houve.

Naquele momento, pouco.

Na vida, bastante.

“Chiado” nem chiou.

Só sentiu pena da mãe, que achava que ele era o filho bom.

E era mesmo, mas agora ela teria dúvidas, e não teria o, já atrasado, presente.

Na penitenciária de Porto Velho, você precisa escolher se quer fazer parte do Comando Vermelho ou do PCC.

Facções não podem ser misturadas.

“O homem errado na cela errada pode ser fatal.”

Aqui, quem é preso, é preso, para sempre, umas cinco vezes, também, pois quando sai, sabe que vai voltar.

Aqui, homens se misturam mesmo quando não querem.

Por fluídos e sentimentos que param no chão e no ar, respectivamente. 

Tudo que for bom.

Tudo o que for ruim.

Nada atravessa as paredes tão rápido quanto o ódio e doenças.

Gotejos de saliva alheia cuspida no chão repousam por entre dedos que se abrem em excesso quando algum preso tenta se equilibrar nos chinelos gastos de tamanho errado, usados anteriormente por algum outro detento que já morreu de maneira brutal.

Brutal é a palavra.

Lava-se o sangue.

Coloca-se a borracha pra secar.

Chinela pra que te quero!

É pé no quase sapato ou pé no chão.

E aqui, escorrega-se.

Escorrega-se também no mijo.

Escorrega-se nas fezes sobrevoadas pelas moscas e incrementadas pelas baratas.

Escorrega-se no passado que deveria ter sido melhor, e não foi.

Vírus passa pela boca, mesmo quando o que é dito é briga.

Sai com amor ou sem ele, da mesma forma.

Mais de 15 homens na mesma cela. 

No mínimo.

2020.

Pra piorar, em março haverá uma pandemia, mas “Chiado” ainda não sabe. 

Nem sua asma.

Em abril, ele vai ficar doente.

A nova doença que entrará por fluídos de ódio de homens da mesma ou de outra gangue.

Não vai fazer diferença.

Doença nova.

Essa que mata mais pobre e preto.

Se eles já nunca haviam conseguido respirar direito, imagina agora!  Amontoados.

“Chiado” vai cair no chão.

Em abril.

Roxo de falta de ar e excesso de vírus.

Enquanto tentará respirar, vai enxergar um policial olhando para ele e vai ter raiva.

Mais raiva que fôlego. 

“Chiado” vai ver uma barata olhando para ele.

“Chiado” vai se identificar.

Pensar que ali eles são baratas.

Ali eles são baratas, mas até barata, uma hora, tem fim.

A barata vai ser pisada e arrastada pro lado, mas não será retirada da vista.

Ficará lá, arrastada e com as pernas pra cima até que suma.

Com a doença nova, homens cairão mortos do mesmo jeito.

E serão arrastados pro lado até que sejam retirados de vista.

No mundo há muita gente, mas nem todas são ruins.

No presídio há muita gente, mas nem todos são ruins.

Na rua, as pessoas se aglomeraram, há pouco tempo, para as compras e trocas de presentes de Natal.

Formigas.

Só dentro do presídio sentem-se como baratas.

Chiado morreu quando tentou inspirar e expirar mais vezes por minuto do que uma barata conseguia tontear.

Puxou o ar e não sentiu o pulmão.

Os lábios ficaram pálidos, e o policial olhou e fingiu que não viu.

Como faziam com as baratas.

Era o que estava acontecendo agora lá.

Todo mundo que entra aqui, morre pelo menos cinco vezes. Quando é pego, quando passa pelo portão de entrada, quando perde a dignidade tentando ter alguma, quando a família deixa de visitar, e quando morre de vez.

Mas esse ano.

O pouco de humanidade que havia foi levado quando os polícias começaram a só assistir às mortes dos presos.

Eram espectadores.

Ninguém queria pegar a doença nova.

Ninguém queria nem tocar em ninguém.

Comando Vermelho e PCC perderam soldados pra algo que não tinha nome.

Esse ano teve gente aqui que morreu seis vezes.

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Paula Febbe é escritora e roteirista, com trabalhos para sites, TVs, rádios e veículos impressos como Rolling Stone e Folha de São Paulo. Teve seu primeiro conto publicado em 2010, e desde então encontrou seu próprio caminho em meio a escrita. É autora de Relato Inspirado por Orelhas, Não, Sarau Inconsciente de um Alter Ego Esquizofrênico, Mãos Secas com Apenas Duas Folhas, Metástase e Cartas no Corredor da Morte, o último em parceria com a autora Cláudia Lemes. Em 2021, lançará um novo título pela DarkSide Books.