O jogo da vida

Elizete lida com um novo pesadelo em casa e o confinamento a faz abrir os olhos. Com medo do que o futuro pode trazer, ela encontra uma saída na natureza.

Violência contra a mulher é crime.
Denuncie ligando para o 180.

*

Quando a derrota é quase certa, você conta até três pra não encarar uma partida.

Elizete, divorciada duas vezes e mãe de dois meninos, andava fugindo de um confronto conjugal há pelo menos cinco anos, quase a soma do tempo que convivia com seu novo marido. Evitando discussões, enterrando sonhos, vivendo sua vida pelo avesso.

Mas Messias dos Santos era um bom homem, era o que todos diziam, dentro e fora da Campos Serenos — a igreja frequentada pelo casal. Pastor Elifas também dizia nos cultos que o divórcio era um pecado horrível, e aos olhos de Deus, uma falha ainda maior que a traição ou o perjúrio. Sim, claro que sim. Afinal de contas, o divórcio não arruinava só o casamento, mas a família, a vida dos filhos, uma separação conjugal desnutria o futuro de toda edificação moral da sociedade.

Era uma cartilha confortável, como sempre é mais confortável seguir qualquer coisa do que construir seu próprio caminho.

Quando a TV falou daquele novo vírus, Messias riu e abriu outra cerveja. Ele não deveria beber, era o que o pastor dizia, mas beber era um pecado bem mais brando que a sobriedade do divórcio.

— Deus tenha piedade — Elizete disse para a repórter da TV, entoando os mesmos mantras que ouvia na igreja. Ainda era jovem, por volta dos trinta, mas o excesso de contrariedade do rosto a atiravam para bem perto dos cinquenta.

— Isso aí não é nada, é conversa de esquerdista — o homem disse.

— E desdi quando você é di direita, homi?

— Enquanto eu pagá as contas dessa casa, sou do jeito que eu quiser. Cadê os menino?

— Na cada da Gorete. O menininho dela ganhou um videogame do avô e chamou os menino pra brincá.

— Quero os dois aqui.

— E por que isso, homi de Deus?

— Porque eu tô mandando. Quanto mais cedo eles aprenderem que são pobres, melhor.

Elizete acatou, como sempre acatava, acatou como quem evita uma disputa que nunca poderia vencer.

*

Foi no mês seguinte que todo mundo ficou trancado em casa.

Pra não irritar mais ainda seu homem (que já tinha perdido o emprego e investido boa parte do que recebeu em cerveja), ela cuidou das compras do mês e do dízimo da igreja, com o dinheiro que tinha conseguido juntar com a venda de cactos e suculentas. Não era uma renda suficiente para se libertar daquele casamento (mesmo que não fosse pecado, claro), mas era o bastante para algumas regalias para os dois meninos.

E mesmo fazendo de tudo para manter a paz entre os três homens da casa, o começo do isolamento foi muito duro. Sem ter onde extravasar toda fúria masculina, o mamute dono da melhor poltrona da sala descontava nos garotos. Mário tinha dez, Augusto, doze. Em comum, só mesmo a mãe. Marinho era calmo, ordeiro, mas seu irmão Guto era praticamente o dedo indicador do apocalipse (e um dedo do tipo contagioso, que sempre arrastava o irmão caçula com ele).

A primeira vez que Elizete precisou entrar em jogo depois de muito tempo teve o dedo dos dois meninos, melhor dizendo, suas mãos inteiras. A ideia foi de Guto, mas possivelmente a execução (ou a vigília durante a execução) tenha partido de Mário. A grande ideia? Trocar a única cachaça do dono da casa por água da privada. Messias ficou fora de si, saiu correndo pelo pequeno apartamento, gritando e acusando, buscando explicações para o que tinha acontecido. Elizete deixou como estava, afinal de contas, ouvir o marido gritar era mais comum que fazer o arroz do almoço, e os meninos mereciam uma chamada.

Não demorou muito para que os gritos trocassem de boca e terminassem nos berros de Marinho.

Elizete entrou na sala e o menino já estava de bunda pra fora, levando tapas que seguidamente avermelhavam a pele do traseiro. O irmão mais velho, chorando de raiva, se agarrava ao braço pendente do agressor, sem nenhum efeito maior que aumentar a potência das pancadas.

— Misericórdia, homi de Deus! Vai aleijá o menino! — ela gritou.

E tome mais um tapa, e outro, e mais um.

Quando terminou, o menino foi direto pro chão, já com os músculos travados de tanta dor. Antes que Guto conseguisse correr, Messias o agarrou pela camiseta. Trouxe pra bem perto da cara e gritou:

— Se você e o seu irmão relarem nas minhas coisa de novo, eu juro que mato um!

Soltou o menino e caminhou até a porta da rua.

— Onde cê vai, homi? Tá perigoso lá fora, cê não ouviu a TV, não?

Messias nem respondeu.

*

— Vem, fio, levanta do chão. Vâmo colocá uma salmora nessas perna.

Com a ajuda da mãe, o menino foi mancando até o banheiro. O irmão preferiu ir até a geladeira e escarrar dentro da jarra de alumínio com água que era propriedade exclusiva do barão Messias.

Chegou ao banheiro e o irmão já estava de pé, com a bunda vermelha ainda pra fora. A mãe jogava um pouco de sal grosso diluído em água morna que preparou ali mesmo, em uma bacia.

— Devia largá dele — o mais velho disse.

— Vocês dois não devia tê feito malcriação. E largá do marido é pecado.

— Mas você largô o pai — Marinho disse. Ela o salgou com um tapinha.

— Ai!

— Quem largô a gente foi ele. E o teu pai — disse ao outro — era bandido, deve tá até morto. Separação não é bem vista aos olhos de Deus, meus filho. E quando Deus fica contrariado, ele desconta no mundo. Não tão vendo essa gripaiada? Isso é castigo, porque a humanidade se perdeu do caminho do bem.

— Se ele batê ni mim, eu mato ele — Guto disse. — Mato memo.

A mãe deixou o menino mais novo e o encarou.

— Nunca mais diz isso.

— Mas eu mato.

Elizete o agarrou pelos braços.

— Promete pra mãe que não vai mais pensá nisso! Nunca mais!

— Ele é ruim! Ele que fique longe de nóis!

— Matá é pecado, oviu! É um pecado pior que tudo. Não quero você carregando essa conta nas costa. Nem pelo Messias e nem por ninguém. E chega dessa conversa. Termina aí com teu irmão que eu vou fazê algum doce pra acalmá teu pai.

— Ele não é meu pai.

Elizete deixou o banheiro sem dar importância.

O menino mais velho apanhou a bucha e embebeu na salmoura. Deixou cair na pele do irmão.

— Cê matava memo ele, Guto? Matava de verdade?

Guto tornou a embeber a esponja do sal e apertou até que suas mãos tremessem.

*

Na semana seguinte, nada muito sério aconteceu dentro de casa, mas do lado de fora, as pessoas morriam como moscas. Nos próximos sete dias, o estado aumentou a fiscalização dos bares que continuavam abrindo, e isso realmente mexeu com os ânimos de Messias. Agora, ele não podia “sair pra respirar” como justificava, e mesmo que saísse, não teria opções melhores que ir à igreja pra encontrar a meia-dúzia de cu-de-ferro que esfregava seus empregos na cara de todo mundo.

Notando que a TV não se acertava em nenhum canal, Elizete chegou mais perto do marido, trazendo um pratinho com petiscos e um copo de suco de uva.

— Come um pouco, ajuda a acalmar. É palitinho de azeitona com queijo.

Ele a encarou e respirou fundo.

— Serve.

Apanhou o prato, ela se sentou no sofá ao lado.

— Você devia ligar pro pastor. Ele tá consolando o povo. Tá fazendo celebração e tudo por telefone.

— Quem precisa da igreja num inferno desses? Ele que vá se foder. Se você não tivesse enfiado nosso dinheiro naquela porcaria de igreja, a gente não tava nessa pindaíba.

— É bom. Assim você fica sem bebê.

— O bom é calar essa boca.

Os dois se encararam, e pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu vontade de jogar. Messias não andava podendo comprar bebida, então, de certo, o inimigo já não tinha tanto poder sobre ele.

— Não precisa falá assim comigo, bem — ela entrou de leve em campo, sem intenção de causar nenhuma falta.

O homem lançou um olhar bovino, e logo o mesclou com aquela espécie de fúria que se acumulava dentro dele.

— Tá ficando valente?

— Não é isso. É só que é nós dois e os menino. A gente não devia brigar igual cachorro e gato.

— Tá me chamando de cachorro?

— Messias… eu só não quero que a nossa casa vire um inferno e…

Plaft!

Não era a primeira vez, mas era a primeira vez em muito tempo, e era a primeira vez que ela não poderia correr pra casa de nenhum vizinho para chorar escondida até se acalmar um pouco.

— Pronto, conseguiu o que você queria — Messias disse.

— Mãe? — Augusto chegou quando ela ainda deixava aquele o choro escorrer. Uma umidade silenciosa e corrosiva, amarga como um câncer. — Cê bateu nela? — perguntou ao outro.

— Não te mete nisso, porrinha.

Mas o menino estava com um boneco do Ben 10 nas mãos, e o boneco voou direto pra testa do Messias.

Ele tateou o local da pancada, conferiu a palma seca em busca de sangue.

— Agora você conseguiu.

*

A surra demorou quase vinte minutos. Em menos de cinco, Elizete foi golpeada novamente. Aos oito, o caçula entrou pra apanhar junto, e aos quinze, todos choravam e esperavam que a raiva de Messias tivesse um fim.

Agora, cinco horas mais tarde, ele estava no chão, a boca com um fio branco de baba, os olhos arregalados. Ao lado dele, o menino mais velho, ainda assustado, esperava que o padrasto voltasse à vida. Não chorava, tampouco estava feliz. Queria ele mesmo ter acabado com aquele monstro, como havia prometido à mãe e ao irmão. Marinho ainda estava no quarto, a pedido da mãe, que agora trazia um telefone até a cozinha.

— Ele tava tomando sopa — o filho mais velho explicou de novo. — Daí começô a babá e tossi. E caiu no chão.

— É castigo de Deus, meu filho.

— Eu ia fazê pior se Deus não se metesse.

— Ia sim, a mãe sabe que ia. Agora fica quietinho pra mãe chamar os bombeiro.

Com aquela gripe no ar, ninguém se daria ao trabalho. Messias seria mais um, e seria esquecido tão rápido quanto fora odiado. Era bem possível que jogassem o infeliz numa daquelas covas sem nome, o que era bem mais do que ele merecia.

Terminado o translado do corpo, Elizete fechou a porta e voltou aos seus cactos.

Era bom mexer com o verde, rever o viço, lembrar da vida.

Sabia que você pode arrancar o braço de um cacto e vai nascer um cacto novinho com o coto? Elizete sabia. Eles resistem e se adaptam a tudo, são tão fortes que aprenderam a viver na secura do deserto. As suculentas ao lado dos cactos eram um pouco mais frágeis, mas também aquentavam as intempéries. As folhas gordinhas eram mais parecidas com seus dois meninos.

— Mãe? — o caçula entrou na varandinha do apartamento que tomava ares de um pequeno deserto verde.

— Conseguiu se acalmá?

— Acho que sim.

Com a mãe ocupada com os cactos (eles não só distraiam como dariam o sustento, teriam que dar), o menino ficou por lá. Marinho pensava que sem o padrasto ele talvez pudesse exercitar sua paixão pelas plantas sem ser chamado de veadinho, de gayzinho, dessas coisas absurdas que não paravam de sair pela boca do Messias.

— Que é essa coisa branca escorrendo das folhas, mãe?

Elizete deixou a muda de cacto na terra e enxugou a mão no avental.

— É leite da Espada de São Jorge. Mas não mexe nisso aí que é veneno.

******

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER É CRIME. DENUNCIE. DISQUE 180. O isolamento social está disparando os casos de violência doméstica no Brasil e no mundo inteiro. Por mais que o isolamento seja fundamental para a contenção da Covid-19, ninguém deve permanecer em um ambiente que ofereça sérias ameaças a sua vida. Se você está ou conhece alguém nesta situação, peça ajuda a quem puder, do jeito que for possível. Os canais oficiais de denúncia continuam atendendo normalmente pelos números 190 (Polícia Militar), 180 (Central de Atendimento à Mulher) e 100 (Disque Direitos Humanos). Vale lembrar que vizinhos e testemunhas também podem fazer a denúncia em nome da vítima. Clique aqui para saber mais.

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A beleza macabra do horror me conecta com o Outro Lado. Ofereço abrigo espiritual aos irmãos e irmãs da fazenda e acordo todos os dias às 3h da manhã. MACABRA™ - FEAR IS NATURAL.