Retrospectiva macabra: as múmias no cinema

Faça uma viagem com a Macabra pela história das múmias nos filmes para se preparar para o lançamento de Maldição da Múmia, de Lee Cronin, que chega aos cinemas em 16 de abril.

Dentre os monstros que se tornaram clássicos com os filmes da Universal, Drácula e Frankenstein são imbatíveis. Não apenas a quantidade de seus filmes é muito superior aos outros monstros, como a qualidade também costuma ser. Nos últimos anos, tivemos como exemplo o Frankenstein de Del Toro e Drácula – Uma História de Amor Eterno de Luc Besson — além, claro, dos derivados, como o Nosferatu de Robert Eggers e até mesmo A Noiva! de Maggie Gyllenhaal.

Imagem do filme Frankenstein, 2025

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Quanto ao resto dos monstros… é sempre uma alegria para os fãs quando os diretores resolvem olhar com mais carinho para eles. A Forma da Água (2017) — também de Del Toro, um amante dos monstros como nós — e O Homem Invisível (2020) são provas disso. 

Entretanto, quando falamos da Múmia, há um espaço cinzento. Mesmo seu filme original não obteve tanto sucesso — apesar de Karloff, como sempre, ter uma atuação irretocável. Quando pensamos em A Múmia, nos lembramos dos filmes do final da década de 1990, com Brendan Fraser e Rachel Weisz, e nos esquecemos de seu original, nos anos 1930. Além desses, houveram muitos outros, a maioria thrash demais até mesmo para ser considerado como remake ou qualquer coisa do tipo, como Múmia – A Ressurreição (2014) — isso pra não falarmos da tentativa frustrada de criar um universo compartilhado de monstros que levou ao filme A Múmia (2017) com Tom Cruise.

Filmes clássicos de terror da década de 1930: A Múmia
Imagem do filme A Múmia, 1932

Agora, porém, chega às telonas uma nova tentativa de trazer esse icônico monstro de volta à vida. Maldição da Múmia, de Lee Cronin, chega aos cinemas brasileiros em 16 de abril, e a Macabra te conta um pouco mais sobre a produção.

Por que, afinal, Múmias?

Diferente da maioria de seus amigos monstros, a Múmia não surgiu exatamente de um livro. Com o sucesso de Drácula e Frankenstein em 1931, e com o frenesi causado pela abertura da tumba de Tutancâmon em 1922, Carl Laemmle Jr, a lenda que possibilitou a produção desses filmes, até pediu que procurassem um livro sobre o tema, mas seus olheiros não encontraram. Mas vamos por partes.

Howard Carter e membro da equipe na abertura da tumba de Tutancâmon. Imagens de: The Griffith Institute

A exotização e exploração do Egito não começou exatamente no século XX. Ela já vinha acontecendo há algum tempo, principalmente após a invasão de Napoleão, que aconteceu entre os anos 1798–1801, e onde diversas peças foram levadas à Europa, servindo como atrações de gabinetes de curiosidades e sendo expostas em museus. Em 1818, por exemplo, Shelley já escrevia sobre Ozymandias — o nome grego usado para o faraó Ramsés II. 

Nos anos seguintes, outros nomes se aventuraram com esse tema, como a obra de ficção científica The Mummy!: Or a Tale of the Twenty-Second Century, de Jane C. Loudon, publicado de forma anônima em 1827, The Mummy’s Soul, de um escritor anônimo e publicado em 1862, After Three Thousand Years, de Jane G. Austin, 1868, e ainda Lost in a Pyramid, or The Mummy’s Curse, de Louisa May Alcott, de 1869.

Como conta também Juliette Cazes em seu livro Cabinet de curiosités: Insolites, médicales et macabres, uma curiosidade macabra é que, ainda antes disso, dos séculos XVI ao XVIII, era comum que utilizassem um ingrediente chamado pó de múmia como fármaco — graças a uma confusão de nomenclatura, porque Ibn Sīnā, médico persa também conhecido como Avicena, disse certa vez, no século XI, que o pó de múmia era um ótimo ingrediente pra diversos males, mas ele utilizou a palavra correspondente para “betume”, um ingrediente comum entre os persas, dos quais os egípcios se utilizavam para mumificar seus cadáveres; isso levou a séculos de múmias vendidas (e falsificadas) moídas fazendo parte da alimentação dos cidadãos.

Carter e lord Carnarvon na tumba de Tutancâmon. Imagens de: The Griffith Institute

Então, em meados do início da década de 1920, algo aconteceu: começaram a aparecer histórias de que a tumba de Tutancâmon era amaldiçoada. Descoberta em 1922 por Howard Carter, a tumba de Tutancâmon e suas histórias arrepiantes foram um ponto de virada nas histórias de terror. Pouco após a descoberta da tumba e as diversas notícias ao redor do mundo, lord Carnarvon, que financiava o projeto, faleceu, e um apagão tomou conta do Cairo. Para ajudar, Arthur Conan Doyle, que já havia se voltado ao espiritismo, disse aos jornais que foi um espírito elemental maligno ligado à tumba que causou a morte de Carnarvon. Outras mortes que se sucederam também aumentaram as especulações. O circo estava armado. 

A Múmia de 1932

Imagem do filme A Múmia, 1932

Então, Carl Laemmle Jr. estava atrás de uma história que pudesse ser tão aterrorizante quanto Drácula ou Frankenstein. Ele contratou o famoso editor Richard Schayer para a busca que talvez não tenha encontrado o que Carl procurava nos livros e livretos mencionados, mas se uniu à escritora Nina Wilcox Putnam para escrever um tratamento de roteiro, utilizando a história de Alessandro Cagliostro — um ocultista italiano do século XVIII — sobre um mago de 4000 anos que sobreviveu injetando nitretos em si mesmo.

Depois do tratamento, Carl convidou John L. Balderston, que já havia escrito os roteiros para Drácula e Frankenstein, para escrever o roteiro do que se tornaria A Múmia. Balderston também era jornalista, e havia coberto a história da abertura da tumba de Tutancâmon para o jornal New York World, então alterou a localização para o Egito e mudou o título do filme, transformando, também, seu antagonista em Imhotep. O nome vem da figura real de um chanceler do rei Djoser, e possível arquiteto das pirâmides desse rei. 

Imagem do filme A Múmia, 1932

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O filme, então, foi dirigido por Karl Freund, que havia sido o diretor de fotografia de Drácula e Metrópolis, fazendo sua estreia na direção. Protagonizado por Boris Karloff como Imhotep, o filme narra a história de uma antiga múmia solta na cidade do Cairo em busca da antiga amante. Zita Johann faz o papel de Helen e Anck-es-en-Amon, inspirada na figura real de Ankhesenamun, única esposa de Tutancâmon.

No meio do caminho, havia uma tumba

Contudo, o primeiro filme sobre múmias não é o de 1932. De acordo com os registros, o primeiro filme de múmias teria sido Robbing Cleopatra’s Tomb (1899), filme mudo de Georges Méliès — a quem também cai a honra de ter feito o primeiro filme de terror, de que temos notícias, O Solar do Diabo (1896). Conhecido por ser um “trick filme” (filmes feitos justamente para apresentar e experimentar truques e efeitos especiais no cinema mudo), a história se concentra nas tentativas de reanimar a múmia de Cleópatra.

Imagem que acredita-se ser do filme perdido Robbing Cleopatra’s Tomb, 1899

Há uma polêmica envolvendo esse curta: considerado um filme perdido por muitos anos, dizem que ele foi reencontrado em 2005. Porém, registros também afirmam que o filme encontrado na verdade seria The Oracle of Delphi (1903), outro filme de Méliès sobre múmias. 

O primeiro filme a levar o nome de The Mummy, entretanto, surgiu em 1911. Contando a história de um homem que deseja ganhar o respeito de um egiptólogo por estar apaixonado por sua filha e, por isso, compra uma múmia e decide revivê-la com eletricidade, o filme foi produzido pela Thanhouser Company — estúdio que fez mais de 1000 filmes na era muda, mas não era exatamente conhecido por fazer filmes “de terror” (mesmo que um prototerror).

Imagem do filme A Mão da Múmia, 1940

Até o filme de Freund houveram outra meia dúzia de filmes, em sua maioria mudos, que não ganharam muito reconhecimento no panteão do terror. Após o filme de Freund, a Universal decidiu seguir um caminho um pouco diferente, retirando Imhotep da jogada e transformando o protagonista em outra múmia, chamada Kharis, que teve sua própria série de filmes nos anos 1940: A Mão da Múmia (1940). A Tumba da Múmia (1942), A Sombra da Múmia (1944) e A Praga da Múmia (1944). Esse personagem inicialmente foi interpretado por Tom Tyler, no primeiro filme da série, seguido por Lon Chaney Jr. nos outros três. Em seguida, ainda teve um breve revival nos anos 1950 com Abbott e Costello em Caçando Múmias no Egito (1955). Quando a Hammer passou a fazer produções inspiradas nos filmes de terror da Universal, quem viveu Kharis foi sir Christopher Lee em A Múmia de Ananka (1959).

O cinema mexicano de terror, uma das tradições mais sólidas e subestimada no gênero, também teve sua dose de múmias. Ainda nos anos 1950, Rafael Portillo dirigiu A Múmia Azteca (1957), primeiro de uma série de filmes que ainda contaria com outros sete filmes: A Maldição da Múmia Azteca (1957), A Múmia Azteca Contra o Robô Humano (1958), Gomar, O Monstro Assassino (1963), Las luchadoras contra la momia (1964), Las lobas del ring (1965), O Anjo enfrenta as mulheres panteras (1967) e O louco criador de monstros (1969).

Imagem do filme A Múmia Azteca, 1957

Nesse meio-tempo, até chegarmos ao clássico moderno dos anos 1990, houveram produções dignas de nota: O Sarcófago Maldito (1967), de John Gilling, também da Hammer; Os Monstros do Terror (1970), de Tulio Demicheli, Hugo Fregonese, Antonio Isasi-Isasmendi e Eberhard Meichsner, uma coprodução entre Espanha, Alemanha Ocidental e Itália; Vingança Eterna (1994), de Gerry O’Hara, cuja história é bastante semelhante ao clássico de 1932, mas não contou com uma produção que ajudasse o roteiro; sem deixar de mencionar o clássico de comédia de horror de Fred Dekker, Deu a Louca nos Monstros (1987), que não foca exatamente na história de uma múmia, mas que a tem em sua lista de personagens icônicos.

Com o revival das histórias de monstros nos anos 1990, Stephen Sommers deu uma cartada certeira ao fazer A Múmia (1999), um dos filmes que, vez ou outra, é redescoberto e renova seu séquito de fãs. Ainda hoje movimentando multidões, quandose soube da notícia de que haveria um novo filme com Fraser e Weisz a internet quase foi à loucura. O filme de 1999 conta com elementos do filme clássico, mas tem um charme diferente, personagens carismáticos demais, e mesmo as falhas da produção — o CGI do segundo filme, O Retorno da Múmia, por exemplo — o tornam único.

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E, se estamos listando a história das múmias no cinema, não podemos deixar ainda alguns filmes que vieram depois de A Múmia: Bubba Ho-Tep (2002), da mente insana e divertidíssima de Don Coscarelli, que conta a história de uma múmia em uma casa de repouso, com um JFK negro e o Elvis Presley; Legion of the Dead (2005), um filme de baixo orçamento e baixíssima qualidade produzido pela Asylum; e Mil Mascaras vs. the Aztec Mummy (2007), que inicia uma série de três filmes com o lutador mexicano Mil Mascaras. Importante mencionar também a produção de baixo orçamento da diretora Josie Eli Herman, baseada na história de Bram Stoker A Joia das Sete Estrelas, que contou com algumas outras adaptações anteriormente e agora é apresentada em 2026 em House of Ka.

O filme de Lee Cronin

Pôster de Maldição da Múmia, 2026, de Lee Cronin

Assim como o filme de Leigh Whannell reimagina a história de O Homem Invisível, trazendo-a para um cenário mais moderno, Maldição da Múmia, de Lee Cronin, serve como um certo tipo de ponte para a tradição dos monstros no cinema, entre o que conhecemos da história clássica de 1932 e 1999 e uma modernização. 

De acordo com a sinopse oficial, a história seguirá a filha de um jornalista que desaparece no Egito durante uma viagem. Oito anos depois, porém, ela reaparece, deixando todos em sua família chocados, tornando o que deveria ser um reencontro feliz um verdadeiro pesadelo. 

Imagem do filme Maldição da Múmia, 2026

Cronin não é, a essa altura, um nome novo no terror; o cineasta já deixou muito claro o que é capaz de fazer com A Morte do Demônio: A Ascensão, um filme que também pega uma franquia já considerada clássica pelos fãs de terror e traz elementos novos que funcionam bem. O gore, também, está em sua assinatura, e pelo que as primeiras resenhas nos revelaram, esse talvez seja o filme de múmia que mais aposta nessa característica. 

Confira o trailer de Maldição da Múmia abaixo.

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Estamos muito curiosos para conferir Maldição da Múmia, que estreia nos cinemas brasileiros em 16 de abril. E você, vai embarcar nessa viagem? Já conhecia alguns desses outros filmes de Múmia? Comente com a gente no Instagram e em suas redes sociais.

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Acordo cedo todos os dias para passar o café e regar minhas plantas na fazenda. Aprecio o lado obscuro da arte e renovo meus pactos diariamente ao assistir filmes de terror. MACABRA™ - FEAR IS NATURAL.