Você com certeza conhece pelo menos uma de suas criações: de Glee (2009–2015) a American Horror Story (2011–), Ryan Murphy foi chamado algumas vezes de “o homem mais poderoso da TV” por veículos como o Time e o New Yorker, com um acordo bastante único com a Netflix — um contrato de cinco anos no valor de 300 milhões de dólares assinado em 2020 —, considerado o maior da história da televisão e streaming até então.

Polêmico seria uma das palavras para descrever suas obras, que, mais do que qualquer outro showrunner em atividade hoje, caminha em uma corda bastante complexa entre o amor e o ódio do público. Se por um lado assina episódios frequentemente apontados como alguns dos melhores da TV, por outro também coleciona capítulos lembrados entre os piores já exibidos.
Chamado frequentemente de “camp”, o produtor afirma que não gosta do título. Em uma entrevista ao The New Yorker, Murphy afirmou que prefere “barroco” como adjetivo. Como escreve Emily Nussbaum, “As pessoas raramente usam o termo para descrever um melodrama feito por um ator sério; mesmo quando ‘camp’ é usado como elogio, carrega uma conotação negativa, sugerindo uma insignificância antiquada. ‘Barroco’ é grandioso”.

Murphy diz que não acha que “quando John Waters fez Problemas Femininos [1974], ele estivesse pensando: ‘Quero fazer uma peça cam’’. O Barroco é uma sensibilidade que eu apoio […] É uma abordagem maximalista para contar histórias que sempre me agradou. O Barroco é uma escolha. E tudo o que eu faço é uma escolha absoluta”.
Mas Murphy segue entregando projetos milionários e apresentando ideias no mínimo curiosas. A Macabra te leva para conhecer um pouco sobre a carreira do produtor.
O início da carreira de Murphy
Sendo hoje um grande nome na produção de séries bem-sucedidas, Murphy não começou sua carreira na TV, mas sim no jornalismo, escrevendo para jornais de grande circulação como The Miami Herald, Los Angeles Times, New York Daily News, Knoxville News Sentinel e Entertainment Weekly. Seu primeiro roteiro, pelo que consta na página do IMDb do produtor, é com o curta The Furies, de 1999, mas, na mesma época, Murphy quase teve um roteiro seu produzido por Steven Spielberg. O filme, que se chamava Why Can’t I Be Audrey Hepburn, foi escrito baseado em um recente término do próprio Murphy, e acompanhava uma jovem âncora de TV abandonada no altar pelo companheiro. Apesar de não ter chegado a ser produzido, em 2001 foi anunciado que o filme contaria com Jennifer Love Hewitt no papel da protagonista.

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Foi nessa época que Murphy iniciou sua ascensão, com a série teen de comédia Popularidade (1999–2001), criada por ele e Gina Matthews. A série não explodiu, mas foi um sucesso considerável para, então, a companhia de Murphy assinar um contrato com a Warner. Em seguida, produziu o que viria a ser por muitos como o primeiro grande sucesso de Murphy, Nip/Tuck (2003–2010). Demoraria alguns anos para Murphy emplacar a obra que se tornou seu maior sucesso. Até lá, ele ainda trabalharia em alguns roteiros para filmes, como Correndo com Tesouras (2006), e dirigiria alguns filmes para TV, como Pretty/Handsome (2008).

Então, a era Glee (2009–2015) chegou, e trouxe a Murphy uma popularidade ainda maior que aquela experimentada por ele com Nip/Tuck. A série adolescente, que misturava musical, drama e comédia, atraiu muitos jovens (e adultos) que ainda hoje são aficionados por seus personagens favoritos e as versões de músicas famosas. Mas, mesmo naquela época, Murphy atraiu olhares enviesados ao criticar artistas que não cederam suas músicas para as versões da série — ao que ele se desculpou posteriormente.
Um pé no terror…
Apesar de ter ficado conhecido principalmente por sua obra musical, e dançante — que, ainda assim, continha seus dramas —, a faceta que Murphy tem mais explorado nos últimos anos é a do terror e do true crime, iniciando com American Horror Story, que começou a ser produzida em 2011 e segue com temporadas novas.
Criada junto de Brad Falchuk, a primeira temporada de American Horror Story chamou a atenção dos fãs de terror, não apenas por ser tão diferente do que o produtor estava acostumado a fazer, mas também por ser ousado e diferente de muito do que estava sendo produzido na época, principalmente na televisão. Nas temporadas seguintes, Murphy apenas provou o potencial de seu trabalho no gênero.

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Desde o lançamento de AHS, Murphy trabalhou em outras séries de terror como produtor executivo e/ou próprio criador: Scream Queen (2015–2016), Ratched (2020), American Horror Stories (2021–2024) e Bem-Vindos à Vizinhança (2022–). Dentro do gênero, talvez sua produção mais curiosa tenha sido em O Telefone do Sr. Harrigan, filme de 2022 que adapta o conto de mesmo nome de Stephen King, inserido no livro Com Sangue. Mais recentemente, em 2024, Murphy também acrescentou a série Grotesquerie ao seu repertório.
Nunca me sinto sobrecarregado ou afogado, porque acredito que todas as coisas boas vêm dos detalhes. — Ryan Murphy
… e o outro no true crime
Mas Murphy também apostou no true crime nesse meio tempo. American Crime Story (2016–), assim como AHS, é uma série antológica onde cada temporada conta uma história diferente. No caso de ACS, as histórias são centradas em polêmicas e crimes norte-americanos. O caso de O.J. Simpson, o assassinato de Gianni Versace e o escândalo de Bill Clinton e Monica Lewinsky foram os temas das três temporadas lançadas até agora.

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Ainda no true crime, mas agora com uma pegada bastante diferente, mais dramatizada e focando em serial killers e assassinos que abalaram a história dos Estados Unidos, Ryan Murphy também criou, junto de Ian Brennan, a série antológica Monstros (2022–), cujas três temporadas lançadas até o momento abordaram as histórias de Dahmer, os Irmãos Menéndez e Ed Gein, respectivamente. Apesar de terem sido criticadas pelo acréscimo de detalhes que não fazem parte da biografia desses assassinos — principalmente no caso de Gein —, Monstros é um dos grandes sucessos nas mãos de Murphy.

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Moda, luxo, glamour e Hollywood
Apesar de manter os dois pés em tramas sangrentas e assustadoras, Murphy tem, também, um faro para histórias glamourosas — e que não deixam de ser violentas de certa forma. Muitas vezes trabalhando com casos inspirados e que vieram do movimento LGBTQIA+, sendo ele próprio um homem homossexual, Murphy se tornou expoente dessas produções, sempre adicionando um elemento inusitado, geralmente dramático, ao contar essas histórias.

Nesse nicho, a maior representante com certeza é Pose (2018–2021), um dos maiores sucessos do produtor. Como série, Murphy também dirigiu Hollywood (2020), Diários de Andy Warhol, e outra série antológica, Feud: A Disputa (2017–2024), que contou com duas temporadas, a primeira contando sobre a rixa de Joan Crawford e Bette Davis nos bastidores de O que Terá Acontecido a Baby Jane?, e a segunda sobre Truman Capote e seu envolvimento com as socialites que ficaram conhecidas como “swans”.

Murphy também atuou como produtor de filmes sobre histórias reais marcantes, como Atrás da Estante (2019), sobre a loja Circus of Books, a maior distribuidora de filmes pornô gays dos Estados Unidos da década de 1980, e Secreto e Proibido (2020), que conta a história de Pat Henschel e a jogadora profissional de beisebol Terry Donahue, que se apaixonaram em 1947 e ficaram juntas por mais de seis décadas.
No que Ryan Murphy está trabalhando agora
A carreira de Murphy segue a todo o vapor, e ele segue sendo um dos maiores nomes dos seriados na TV ou no streaming. Atualmente, Murphy continua atuando como produtor da série policial 9-1-1, criada por ele, Brad Falchuk e Tim Minear. A série conta com 9 temporadas até o momento e dois spin offs: 9-1-1: Lone Star e 9-1-1: Nashville.

Também criada por Murphy, com Matthew Hodgson, é a série The Beauty: Lindos de Morrer, que está em andamento atualmente. As novas temporadas de AHS e Monstros também foram anunciadas. A nova temporada de Monstros contará a história de Lizzie Borden, acusada de assassinar o pai e a madrasta em 1892.
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Podemos esperar ainda muitas novidades vindas da cabeça fascinante e estranha de Ryan Murphy, com certeza. E você, gosta das obras do produtor? Comente o texto com a gente no Instagram e em suas redes sociais.

