Seu corpo pode te destruir — e o terror sabe disso

Impactante e geralmente explícito, o body horror é um dos subgêneros que mais crescem dentro do terror. A Macabra faz um passeio pela história e por obras marcantes do horror corporal.

Podemos traduzir vários dos medos que aparecem nas telas dos filmes de terror. Já é clássica a interpretação das décadas no cinema de gênero em que sabemos que, por exemplo, o medo das experiências científicas como a bomba atômica, nos anos 1950, se traduziram em produções com monstros gigantes e outros mutações, resultando em filmes como Godzilla e O Mundo em Perigo, ambos de 1954.

O Mundo em Perigo

Esse é um dos exemplos mais clássicos, mas temos outros: com o boom do avanço dos assassinos em série entre os anos 1960 e 1970, em que alguns dos assassinos mais aterrorizantes surgiram, como Manson e sua Família e o Filho de Sam, logo isso seria, também, traduzido nos filmes de terror. A história de Gein, dos anos 1950, deu vida a três dos filmes de terror mais seminais, que logo influenciaram tantos outros: Psicose (1960), O Massacre da Serra Elétrica (1974) e O Silêncio dos Inocentes (1991); cada um iniciando sua própria tendência dentro do gênero. Além disso, após esses casos famosos, os slashers tomaram conta dos cinemas.

Psicose

É uma das maiores qualidades do gênero, aliás, conseguir relacionar tão bem, às vezes tão sutilmente, os medos, fobias, terrores e até arrependimentos de um período e as produções que estão sendo lançadas. De Frankenstein, de Mary Shelley, e sua relevância centenárias, às produções de tech-horror e eco-horror, que mostram que o mundo tem caminhado para um lugar de descontrole absoluto quanto a nossas criações, os filmes de terror e horror conversam conosco enquanto sociedade.

Mas um medo permanente, que pode perpassar a maioria dos gêneros de uma forma ou de outra, é o medo de perder o controle do próprio corpo. Filmes e livros de terror, como um todo, têm uma ligação muito íntima com o corpo de sua audiência; como William Ian Miller argumenta em Anatomia do Nojo, nossas reações aos filmes, e até mesmo aos livros, de terror, advêm, primeiro, de sentimentos que sentimos com nosso corpo. O terror, acima da maioria dos outros gêneros, exige reações corporais.

Grave

Há, porém, um subgênero, que lida com isso mais enfaticamente que todos os outros dentro do terror. O body horror esteve em evidência esses últimos meses, principalmente pelo lançamento de filmes como A Substância e A Meia-Irmã Feia, lidando diretamente com o medo da carne e do corpo, do que é sentido, literalmente, na pele. 

Seu corpo pode tentar te destruir a qualquer momento. A Macabra passeia pelo body horror e dá um panorama geral sobre o subgênero que cada vez ganha mais fãs.

O body horror seminal

Quando pensamos em body horror, imediatamente nos vêm à mente os filmes de David Cronenberg, o maior nome dentro da categoria. Cronenberg realmente trabalha com o tema há anos, desde seus primeiros filmes, mas antes dele houveram outros.

Na literatura, não podemos não mencionar Frankenstein de Mary Shelley: um homem que busca criar vida e une pedaços de corpos de outros seres humanos para criar sua maior obra como cientista, mas falha em ver essa criação como o humano que ele mesmo fez. O body horror, aqui, é descritivo, principalmente durante a criação da própria Criatura, mas não deixa de explorar vividamente alguns dos limites da carne — além, claro, dos limites do espírito.

Gregor Samsa depois de seus sonhos intranquilos

Quase 100 anos depois de Frankenstein, Franz Kafka deu ao mundo A Metamorfose, obra que inspirou um sem-número de produções posteriores. Há algo mais desafiador aos limites de seu próprio corpo do que acordar de sonhos intranquilos no corpo de um inseto gigante, e tendo que permanecer são diante desses acontecimentos?

Tanto Frankenstein quanto A Metamorfose trazem questões significativas quanto ao que é, afinal, a carne. Receptáculo do espírito? Prisão? Delimitador da experiência como humano? Um corpo construído a partir de outros e um corpo que se molda, de repente, em algo que não é — ou que não deveria ser.

Os primeiros passos no cinema

Considera-se que o primeiro filme de body horror, como o pensamos, foi Terror Que Mata, ou The Quatermass Xperiment. Na história, o professor Bernard Quatermass está levando a cabo sua experiência de enviar o primeiro foguete com tripulação para o espaço. Quando o foguete retorna, porém, há algo dentro dele, que conseguiu sumir com dois dos tripulantes e se apossou do corpo do terceiro. Aos poucos, este homem vai deixando de ser humano.

Adaptado de uma série de TV de 1953, The Quatermass Experiment, Terror que Mata foi um divisor de águas para a produtora Hammer, que conseguiu com o filme uma ótima bilheteria no ano de seu lançamento, e fez com que as portas para o mercado internacional fossem, de fato, abertas para ela. Grande parte do sucesso do filme se deu graças aos efeitos especiais, que ficaram por conta de Phil Leakey, para transformar o terceiro tripulante, Carroon (Richard Wordsworth), na criatura na qual ele se transforma.

O início da transformação de Carroon

Os anos 1950 foram, de fato, recheados de filmes sobre mutações. Apesar de muitos deles não entrarem nas listagens de body horror, muitos por, diferente de Terror que Mata, eles não lidarem com imagens explícitas dessas transformações, eles não deixam de ser filmes que lidam diretamente com o medo das mutações que o corpo pode sofrer em determinadas circunstâncias. As primeiras versões de A Mosca e Enigma de Outro MundoA Mosca da Cabeça Branca, de 1958 e O Monstro do Ártico, de 1951, respectivamente —, são, afinal, dessa década.

O pai do body horror

Quem mais conseguiu transformar esse sentimento de terror diante das possíveis mudanças corporais em imagens mais vividamente, porém, é claro, foi David Cronenberg. Seus filmes, em sua maioria, lidam com a pressão corporal: doenças, mutações, transformações de todos os tipos, e os contextos são dos mais variados. 

Cronenberg também fez algo que, das obras citadas, nenhuma fez: a ligação entre horror corporal e o ato sexual. Calafrios, Enraivecida na Fúria do Sexo, Os Filhos do Medo e Crash: Estranhos Prazeres são alguns dos exemplos mais fortes nessa questão. A experiência sexual e a sexualidade, em muitas de suas obras, andam lado a lado com as vivências aterrorizantes de seus personagens.  

Os Filhos do Medo

LEIA+: DAVID CRONENBERG: MESTRE DO HORROR CORPORAL

Apesar de sua grande contribuição para o corpo de obras dessa categoria, Cronenberg não é muito fã do termo body horror. “O que me incomoda um pouco é o termo ‘horror corporal’, porque eu nunca o uso!”, contou ele em entrevista ao site The Talks. “Foi um jovem jornalista que o inventou e ele [o termo] pegou, está fora do meu controle. Mas eu jamais pensei que o que eu fazia fosse horror corporal. […] Na verdade, estou falando da beleza, da incrível beleza do corpo, inclusive a beleza interior!”

Videodrome: A Síndrome do Vídeo

Ainda assim, seus personagens vivenciam momentos de absoluto terror, como em diversas cenas de Videodrome: A Síndrome do Vídeo e Scanners: Sua Mente Pode Destruir. Afinal, o terror também pode falar de beleza, e isso não o torna menos aterrorizante ou menos bonito. 

A nova geração do body horror

As últimas décadas viram um número cada vez maior de filmes de body horror adentrando as salas de cinemas — do underground ao mainstream. Uma nova geração de cineastas tem apostado cada vez mais no subgênero e o transformado — lapidando um conceito que tem muito potencial. E quem tem feito isso muito bem são as novas diretoras. 

A Substância

Seja porque hoje o terror é visto com olhos mais bem vistos, seja porque essas mulheres conquistaram mais espaço (a duras penas) nesses últimos anos, ou, o que é mais certo, uma junção das duas coisas, o body horror dirigido por mulheres tem conquistado mais espaço a cada dia. 

LEIA+: O BODY HORROR MACABRO NA ARTE DE AMANDA MIRANDA

Citamos, anteriormente, A Substância e A Meia-Irmã Feia, filmes de terror lançados nesses dois últimos anos e que conquistaram o público e a crítica. Com gore explícito, transformações bizarras, efeitos especiais aterradores e questões extremamente atuais — sobre envelhecimento e beleza, e como a sociedade força mulheres a serem sempre aprazíveis aos olhos —, os dois compartilham algo além da subcategoria da qual fazem parte: eles foram dirigidos por mulheres — Coralie Fargeat e Emilie Blichfeldt, respectivamente.

A Meia-Irmã Feia

Mas isso não foi uma coincidência. Alguns dos maiores sucessos de body horror lançados nos últimos anos foram dirigidos por mulheres: Titane e Grave, de Julia Ducournau, Huesera, de Michelle Garza Cervera, e, mais antigos, American Mary, de Sylvia e Jen Soska, e Em Minha Pele, de Marina de Van, são alguns dos filmes que sempre encontramos nas listas do subgênero, e que valem cada minuto assistido. 

Huesera

LEIA+: 9 FILMES DE BODY HORROR PARA QUEM AMOU EM CARNE VIVA

Joyce Carol Oates pontuou que “o horror corporal em sua miríade de manifestações fala de forma mais poderosa com mulheres e garotas”, no texto que abre o livro organizado por ela de body horror, Em Carne Viva. Essa frase poderia se estender, também, para outros grupos, pois são nesses corpos em que os campos de batalha realmente acontecem: é a luta constante com o próprio corpo e o horror diante dessa guerra que fazem do body horror um dos subgêneros com maior potencial dentro do horror. 

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Acordo cedo todos os dias para passar o café e regar minhas plantas na fazenda. Aprecio o lado obscuro da arte e renovo meus pactos diariamente ao assistir filmes de terror. MACABRA™ - FEAR IS NATURAL.