Um bom casamento: o conto de Stephen King sobre o assassino BTK

Em 2010, Stephen King utilizou a descoberta do assassino em série BTK para um de seus contos. A Macabra te conta mais sobre Um Bom Casamento e sua adaptação para as telinhas.

Mesmo quando não estamos falando de não ficção, muitos autores utilizam histórias reais como base para seus livros. Alguns exemplos icônicos, dentro do terror, são de O Exorcista, em que William Peter Blatty utilizou um caso real do Missouri, ocorrido na década de 1950, Psicose, de Robert Bloch, inspirado em Ed Gein, e A Garota da Casa ao Lado, de Jack Ketchum, baseado em um dos crimes mais perturbadores da história, o assassinato de Sylvia Likens.

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Um episódio bem menos conhecido, porém, é o de quando Stephen King escreveu uma história baseada em BTK — ou melhor, baseada na descoberta de Paula Dietz de que seu marido seria o assassino em série BTK.

Dennis Rader, o Estrangulador BTK

A Macabra fala um um pouco sobre o conto (e o filme) Um Bom Casamento, e o porquê de talvez você nunca ter ouvido falar dele.

BTK — bind, torture, kill

Um dos assassinos em série que mais deixa os fãs de true crime de queixo caído é, provavelmente, BTK. Ele protagonizou um dos mais longos períodos de resfriamento já registrados entre criminosos que acabaram sendo capturados. Em atividade entre as décadas de 1970 e 1980 com os assassinatos, e perseguições nos anos 1990, Rader só foi pego nos anos 2000, e sua ruína foi o seu ego.

Depois que foi preso, descobrimos como funcionava o modus operandi de Rader: ele era, primeiramente, um perseguidor. Desde criança, Rader entrava em casas e roubava pequenos objetos e, da mesma forma, praticava voyeurismo e perseguição em determinadas áreas. Depois, quando o entusiasmo dos pequenos delitos já não o satisfaziam, ele passou a cometer assassinatos. Guardando desejos de violência desde a mais tenra idade, fascinado pela ideia da cultura bondage e sadomasoquista (de forma completamente doentia e pouco realista), sua primeira tentativa de sequestro não deu certo; mas, na seguinte, ele assassinou os quatro membros da família Otero, em 1974 — o que marcou seu primeiro crime grave e abriu as portas para que Rader começasse a planejar e concluir outros atos.

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Ao longo dos anos seguintes, BTK, como ficou conhecido ao se corresponder com a polícia (BTK: bind, torture, kill — “amarrar, torturar, matar”), Rader continuou perseguindo principalmente jovens mulheres — com algumas alterações na tipagem de vítimas — e cometendo assassinatos. Quando foi preso, em 2005, ele confessou suas atividades criminosas. Todas elas, com detalhes.

Na época em que foi preso, os crimes de BTK eram apenas um caso arquivado, mas uma comunicação do assassino fez a polícia voltar sua atenção para ele. Ao se corresponder novamente com a polícia — algo que tinha cessado anos antes —, Rader questionou (aos próprios policiais!!!) se seria seguro enviar a eles um disquete com detalhes de seus crimes, se este disquete poderia ser rastreado. Os policiais disseram que não — mas poderia, sim. Rader gostava da comunicação com a polícia, chamando isso de jogo de gato e rato, fazendo com que seu ego crescesse cada vez que um crime seu era mencionado, cada vez que via as atrocidades que havia cometido na televisão.

Uma das evidências apresentadas no julgamento de Rader: uma das máscaras que ele utilizava não apenas nele, como em suas vítimas

Depois que foi pego, muitos que conheciam Dennis Rader ficaram surpresos. Rader tinha uma família, era membro importante da comunidade, era um dos pais responsáveis pelos escoteiros e, ainda por cima, participava das atividades da igreja da qual fazia parte. Como um homem aparentemente comum era um sádico psicopata, capaz de sequestrar, torturar e assassinar tantas pessoas?

Nos esquecemos que muitos assassinos em série — conhecidos e cujas identidades ainda não foram descobertas — são pessoas comuns: nossos vizinhos, parentes, amigos.

Um bom casamento

Pôster do filme Um Bom Casamento (2014)

Ao falar com a imprensa nos anos seguintes à sua prisão, Rader sempre fez questão de frisar que Paula, sua esposa, nunca foi envolvida em seus crimes e nunca soube de nada. Eles permaneceram casados por mais de 30 anos, tiveram dois filhos juntos, e pareciam ser um bom casal. Apesar de não serem ricos, ambos trabalharam muito para manter as coisas nos trilhos entre 1970 e os anos 2000 — nos trilhos, exceto pelo vício de Rader pela violência.

Os dois filhos de Rader e Paula, Kerri e Brian, também nunca desconfiaram de nada. Quando Rader foi preso, foi através do DNA de Kerri que conseguiram a comprovação de que Rader era o BTK. Não temos tantas informações de Brian ou de Paula após os acontecimentos que levaram à captura e prisão de Rader, mas temos alguns vislumbres de como Kerri se sentiu, não apenas por seu novo documentário, Meu Pai, o Assassino BTK, lançado pela Netflix em 2025, como também por declarações publicadas pela imprensa e no livro BTK: Meu Pai. Dentre elas, Kerri soltou uma declaração bastante nervosa de que certo autor, ao escrever utilizando a história de seu pai como base, estaria não apenas vitimizando novamente as vítimas do caso, como a própria família dela. 

Imagem do filme Um Bom Casamento (2014), com Darcy e Bob, interpretador por Joan Allen e Anthony LaPaglia

Publicado em 2010, o livro Escuridão Total Sem Estrelas, de Stephen King, é uma coleção de quatro novelas do autor. Uma delas, “Um Bom Casamento”, foi logo adaptada para as telas em 2014. Dirigido por Peter Askin, o filme conta com Joan Allen e Anthony LaPaglia como protagonistas, interpretando respectivamente, o casal Darcy e Bob Anderson. No prólogo do livro, King já informa o leitor de que Bob é baseado em BTK — uma inspiração bastante completa, diga-se de passagem.

Quando o livro foi publicado em 2010, enviaram um exemplar para Dennis Rader na cadeia. Rader ficou impressionado com a profundidade da pesquisa de King. Em BTK: Decifrando as Máscaras, Katherine Ramsland nos informa que Rader não apenas leu a história como apontou as semelhanças entre ele e o personagem de King. Não apenas os esconderijos que o próprio Rader utilizada em sua casa também estavam lá — apesar de Rader afirmar ter mais esconderijos do que Bob —, mas detalhes de sua vida, como a profissão da esposa e o fato de colecionar moedas.

“‘Ele [Bob] é bem parecido comigo. Suponho que SK fez sua pesquisa, depois usou sua imaginação e transformou fatos em ficção’”. escreveu Rader em uma de suas cartas. 

Apesar de ter gerado certo burburinho quando lançado, você pode nunca ter ficado sabendo dessa adaptação de King. O filme teve um lançamento muito modesto, sendo lançado diretamente para o mercado de aluguel e online na maioria dos países. Hoje, dificilmente é encontrado em streamings. Apesar de a interpretação de Joan Allen ter tido aclamações, no geral o filme recebeu críticas negativas. Mas, se você é um fã de King e se interessa por true crime, vale a pena conferir esse conto e sua adaptação, inspirados em um caso real e aterrorizante.

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E você, já tinha ouvido falar dessa adaptação de Stephen King e sua história por trás do conto que o inspirou? Comente com a gente no Instagram e em suas redes sociais.

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Acordo cedo todos os dias para passar o café e regar minhas plantas na fazenda. Aprecio o lado obscuro da arte e renovo meus pactos diariamente ao assistir filmes de terror. MACABRA™ - FEAR IS NATURAL.