Visitinha

Nem todas as visitas são agradáveis, e às vezes elas demoram anos para ir embora. Confira o novo conto exclusivo de Verena Cavalcante na Macabra.

Vai ver seu avô, filha. Faz tempo que você não faz uma visitinha.

Na praia, na balada, na rave, dançando na multidão, meu corpo vibrando em uníssono com a música e o trepidar das paredes que parecem respirar, penso que vou sim, vou, mas teria sido bom se antes disso o avô tivesse morrido em uma briga de bar. Posso até ver as mãos ásperas recobertas de cacos de vidros, depois de terem sido descobertas suas fuleiragens por aí, o pinto meia-bomba socando na boca de outras criancinhas, vários bastardinhos feitos em fodas de estrada, em putas semipúberes que nem peitinho têm. 

— Ele sempre pergunta de você.

Na casa de swing, por outro lado, enquanto um cara me fode na frente, outro atrás, enquanto beijo duas ou três ou quatro pessoas, nem sei mais, decido que a melhor forma de morte do velho teria sido corroído por alguma doença venérea, sífilis ou gonorreia ou qualquer outra coisa da qual eu não entendo, as cuecas encardidas manchadas na frente de pus purulento, um fedor ainda pior que o da porra dele nas minhas calcinhas de lacinho. 

— Ele tá tão velhinho, coitado.

Ou então, quem sabe, divago na academia, ofegante, esperando minha vez na bicicleta ergométrica, ele poderia ter ido amassado dentro de um carro velho, uma trilha de gasolina na estrada se acendendo em chamas amarelas — que espetáculo! — a boca podre com que beijava minhas coxas soltando labaredas, fazendo a vez de dragão, enquanto sua carne chamuscada recendia a churrasco de carne de quinta categoria enchendo as bocas de saliva.

— Eu sei que você tá tomando cuidado.

Mas meu avô nunca abusou dos prazeres dionisíacos, nunca frequentou bares, nunca comeu putas, e dirigia uma caminhonete bonita e nova, com toda a prudência, respeitando todos os limites de velocidade. Considerava-se um homem abençoado por Deus e, tão absorvido era pela prática de exercícios, pelos padrões greco-romanos de boa forma, que o canalha do velho não nos concedeu nem ao menos um infartozinho, nem uma veiazinha entupida de gordura, filho da puta do caralho. 

— Vai à tarde, quando a cuidadora não tá lá. Você sabe como ele é reservado. 

No shopping, compro lanches, sorvetes, passo a tarde sentada na praça de alimentação, observando o ir e vir, enchendo o estômago de merda, sentada próxima a uma mesa de adolescentes que riem, eufóricos, em um grupo de dez ou doze pessoas. O lazarento podia ter morrido envenenado, sangrando pelo cu, mergulhado em uma cama de urina e bosta, depois de ter tomado litros de chá com veneno de rato. Que desperdício de violência!

— Acho que não tem problema se você mantiver um certo distanciamento, deixar as janelas abertas.

No dia da visita, acordo tossindo, com o sol cegando meus olhos sensíveis. No termômetro infravermelho, 39,3. Rio, choro, rio de novo, tusso, vomito o macarrão da noite anterior em cima do edredom rasgado. É hoje, seu velho escroto! Você não quis ir por bem, por conta própria, num ataque cardíaco, bonitinho numa cerimônia de caixão aberto, cetim roxo e flor de pinheiro cobrindo seu corpo inofensivo. Você não quis, a escolha foi sua, o azar é todo seu.

— Não se esquece da máscara.

O avô deixou a porta destrancada e está realmente só quando eu entro. Ele se levanta com dificuldade da poltrona. Consigo ver a mesa do café posta, toda arrumadinha, na sala de jantar. Ele usa a mesma camisa mostarda de sempre. A mesma bermuda de cintura elástica, bem fácil de abaixar. Meu corpo vacila, suado, exausto, dolorido, desoxigenado. Algo em mim lateja, vejo raios de luzes, quase desisto, mas percebo que é apenas a febre a me fazer alucinar.

— Oi, vô. Vim fazer uma visitinha.

O desgraçado me olha com inocência, genuinamente feliz com a minha presença, ausente há tantos anos. O sorriso vai perdendo a forma quando tiro a máscara e me aproximo, tossindo muito, tossindo sem conseguir retomar o ar, sentindo o pulmão queimar, o peito doer, as pernas tremerem. Perco o equilíbrio e ele tenta fugir, mas seguro o corpo velho com força nos meus braços, numa inversão de papéis, colando meus lábios aos dele e escarrando na boca vazia que, se eu conseguisse sentir gosto, teria sabor de dentadura e café com leite.

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Verena Cavalcante é escritora, e trabalha também com tradução e revisão de textos. Formada em Letras, vive reclusa em uma casa no interior de São Paulo com dois gatos, dois cachorros, um homem, um bebê, e seus demônios. É autora de Larva e O Berro do Bode, e agora é também autora da DarkSide Books, com nova obra a ser publicada em 2021.