20 anos de Pulse: o filme que deveria ter sido de Wes Craven

Originalmente um filme que seria dirigido por Wes Craven, o remake norte-americano do filme de Kiyoshi Kurosawa acabou dando muita dor de cabeça. Vem conhecer essa história.

O início dos anos 2000 viu um boom de remakes de filmes asiáticos de terror. Com o sucesso de filmes como O Chamado e O Grito, logo as produtoras voltaram seus olhos para o que estava sendo lançado do outro lado do mundo. 

Um desses filmes, Água Negra, dirigido por Walter Salles, merece uma atenção exclusiva — Salles, cineasta brasileiro que há pouco tempo havia chamado a atenção do cinema exterior com Central do Brasil e, pouco depois, havia dirigido Diários de Motocicleta, acabou dirigindo uma versão norte-americana do filme japonês Honogurai mizu no soko kara, de Hideo Nakata, adaptado do livro de mesmo nome de Koji Suzuki. 

Pôster do filme Pulse, 2006

Hoje, porém, vamos dedicar um tempinho falando sobre Pulse, de Jim Sonzero — um filme que, originalmente, era um projeto de Wes Craven, do qual os irmãos Weinstein fizeram muitas artimanhas para tirá-lo de suas mãos. A Macabra te conta um pouquinho sobre esse pequeno capítulo da história do cinema de terror. 

A versão original de Pulse

Kairo, 2001

Vamos começar pelo início. A versão original de Pulse, cujo título é Kairo, foi lançada em 2001, dirigida e escrita por Kiyoshi Kurosawa. O cineasta japonês não é, de forma alguma, desconhecido do público do terror. Kairo, inclusive, é um título que se tornou muito reconhecido, não apenas por sua grande dose de horror, mas pelas inovações: ele foi um dos primeiros filmes a utilizar a internet como força motriz de seus terrores.

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A história acompanha duas tramas paralelas, mas ambas dizem respeito a como fantasmas estão tentando contatar — e invadir — o mundo dos vivos pela internet. Na trama geral, que une a história como um todo, acompanhamos um grupo de jovens de Tóquio que, após um de seus amigos cometerem suicídio, começa a presenciar estranhos acontecimentos. 

Kiyoshi Kurosawa

Além disso, Kurosawa, de certa forma, é um avô para Resident Evil: foi seu filme, Sûîto hômu (uma orientalização de Sweet Home), de 1989, que inspirou o jogo de mesmo nome, lançado ainda em 1989 pela Capcom para o Famicom, e que, poucos anos depois, em 1993, inspiraria também a criação da famosa série de jogos Resident Evil.

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A história do remake

Como mencionado anteriormente, os estúdios e produtoras de terror começaram a prestar mais atenção no que estava sendo produzido no Oriente, e foi em uma dessas que a Dimension Films soube do lançamento de Kairo. De início, antes do filme começar a ser efetivamente produzido, os boatos eram que Kurosawa estava ligado ao projeto, mas logo Wes Craven o assumiu. Na época, quando Craven já havia sido desligado, Kurosawa, em entrevista para o DVD Talk, contou que se sentia um pouco dividido a respeito do remake. 

Kairo, 2001

“Uma parte de mim fica satisfeita por meu filme estar sendo refilmado nos EUA”, comentou o diretor, “Mas, francamente, sinto ansiedade e receio de que, sendo produzido dentro do sistema de Hollywood, seja muito difícil preservar a mesma sensibilidade que imprimi à obra original. Creio que, de modo geral, é impossível reproduzir, no sistema de Hollywood, a sensibilidade presente nesses filmes japoneses. Acho isso lamentável e não tenho interesse em participar de empreitadas desse tipo. No entanto, reconheço que há muitos americanos que trazem grande inteligência e reflexão para o cinema. Se houvesse uma maneira de refazer meu filme em inglês, fora de Hollywood e voltado para esse tipo de público, seria maravilhoso.”

Creio que, de modo geral, é impossível reproduzir, no sistema de Hollywood, a sensibilidade presente nesses filmes japoneses

Utilizar o mesmo diretor em um remake norte-americano não era uma novidade. Isso já havia sido feito, por exemplo, em O Grito (2004) e seu original Ju-On (2002), ambos dirigidos por Takashi Shimizu; e posteriormente também seria feito por Michael Haneke, em Violência Gratuita (o original austríaco sendo de 1997 e o remake norte-americano de 2007). Mas, como dito na entrevista de Kurosawa, não era algo que ele teria interesse.

Wes Craven

 

Os ânimos estavam lá em cima enquanto Wes Craven esteve ligado ao projeto, ao longo de 2002. Em junho daquele ano, foi noticiado que ele havia escrito o roteiro com Vince Gilligan, que, nos anos seguintes, se tornaria ainda mais conhecido por seu trabalho ao criar a série Breaking Bad. Não é preciso dizer que Craven conferia autoridade a esse projeto. O filme seria protagonizado por Kirsten Dunst, que, ainda jovem, já tinha um longo histórico de sucessos, como Entrevista com o Vampiro (1994) e As Virgens Suicidas (1999), tendo acabado de trabalhar com outro mago do terror, Sam Raimi, em O Homem-Aranha (2002).

Pôster do filme Amaldiçoados, 2005

Mas, em determinado ponto de 2003, os irmãos Weinstein — donos da Dimension, Miramax, e protagonistas do escândalo Me Too — decidiram que não queriam Craven ligado a esse projeto, e sim a um projeto de lobisomens que recebeu o nome posteriormente de Amaldiçoados (um nome que acabou soando acertado com o sentimento geral daqueles envolvidos na produção) e que foi lançado em 2005.

O capítulo Amaldiçoados

Desde que a ideia de Amaldiçoados foi apresentada a Wes Craven, ele não teve interesse em assumir a direção do projeto. Primeiro, porque o filme ainda não tinha um roteiro definido. Segundo, que Wes estava ainda traumatizado por ter dirigido Um Vampiro no Brooklyn (1995). Padraic Maroney conta esse episódio em detalhes no livro Pânico: O Legado do Grito.

Amaldiçoados, 2005

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Amaldiçoados seria a chance de reunir Kevin Williamson com Wes Craven novamente. O roteiro inicial de Williamson estava pronto ainda nos anos 2000. Na história, uma bailarina, que tinha os genes de licantropia, mas conseguia se controlar, acabava entrando em uma luta corporal com um serial killer e transmitia esses genes a ele, fazendo com que ele, então, tivesse talentos sobre-humanos, o que facilitava suas caçadas noturnas. 

Todos adoraram a ideia — menos Weinstein, que queria um filme de lobisomem mais nos moldes da fantasia da coisa do que um slasher, como era a ideia de Williamson. Ao longo da produção, Sean Hood e Tony Gayton reescreveram o roteiro, fazendo com que dois irmãos acabassem se envolvendo com um acidente de carro com um lobisomem, onde acabam feridos — e, consequentemente, começam suas transformações.

Amaldiçoados, 2005

Entretanto, quando a produção começou, não havia um roteiro. Wes estava na reta final de Pulse, com muitos dos antigos atores e produtores que já haviam trabalhado com ele em projetos passados, inclusive Patrick Lussier e Marianne Maddalena. Para fazer com que Craven se interessasse mais por Amaldiçoados, Weinstein afirmou que manteria esses trabalhadores na folha de pagamento e não os demitiria. Contra sua vontade, Craven acabou assumindo a direção desse novo projeto.

Mas não foi o suficiente.

O retorno de Pulse após a saída de Craven

Os Weinstein queriam Craven em Amaldiçoados de uma forma ou de outra, então, no final de 2003, faltando poucos dias para acabarem as gravações de Pulse, os Weinstein encerraram o projeto. 

Pulse, 2006

Mas, como você, leitor, deve saber, o filme existe, sim. Isso porque, depois que Craven estava completamente comprometido com Amaldiçoados — ainda que o filme tenha sido um fiasco desde o começo da produção, com problemas de roteiro, financiamento, etc —, os Weinstein retomaram as gravações de Pulse, mas com um novo diretor e um novo elenco.

Jim Sonzero assumiu a nova direção, com um elenco liderado por Kristen Bell e Ian Somerhalder. As primeiras alterações de roteiro foram feitas por Tim Day, que havia trabalhado anteriormente em Hellraiser 7: O Retorno dos Mortos (2005) (o que, desde o começo, poderia ter demonstrado como o projeto não poderia ser bom), mas depois Day foi substituído por Ray Wright. Nenhum dos envolvidos, é preciso dizer, tinham muita experiência lidando com o gênero do terror. 

Pulse, 2006

No fim, Pulse se mostrou um fracasso, um dos filmes menos queridos dessa leva de remakes, e um enorme prejuízo — seus mais de 20 milhões de dólares de orçamento renderam uma bilheteria de 30 milhões, com uma enxurrada de críticas negativas. Ainda assim, indo contra todos os instintos, o filme ainda teve duas sequências: Pulse 2 (2008) e Pulse 3 (2008), que se saíram ainda pior que o original, para a surpresa de ninguém.

No meio disso tudo, Amaldiçoados se mostrou ainda pior: seus 37 milhões em orçamento renderam uma bilheteria de cerca de pouco mais de 29 milhões. Os poucos fãs da obra se perguntam se um dia haverá o lançamento da versão original do filme, uma versão anterior, que continua Skeet Ulrich no elenco, mas como explica Brian Collins, essa versão nunca foi concretizada: quando quase 90% do filme estava pronto, excluíram tudo e começaram do zero. Ulrich saiu (ou foi retirado) do projeto, com Joshua Jackson assumindo seu papel. 

Nenhuma das escolhas dos Weinstein, nesse caso — e em alguns outros — foram boas. Dois filmes que poderiam ter sido muito mais queridos pelo público acabaram sendo alvo de um certo boicote por seus próprios produtores (da Dimension/Miramax) e receberam críticas negativas, além de um grande prejuízo.

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E você, conhecia a história de Pulse e o envolvimento de Craven? Gosta da versão norte-americana de Kairo ou de Amaldiçoados? Comente com a gente no Instagram e em suas redes sociais.

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Acordo cedo todos os dias para passar o café e regar minhas plantas na fazenda. Aprecio o lado obscuro da arte e renovo meus pactos diariamente ao assistir filmes de terror. MACABRA™ - FEAR IS NATURAL.