Dizem que algumas pessoas nascem com o talento para criar obras que ficarão marcadas para sempre em seus admiradores. Que parecem reunir em si múltiplas formas de sensibilidade, como se cada traço carregasse mais de um mundo. O artista Edward Gorey foi capaz de, com tinta e caneta, ilustrar personagens icônicos e imprimir no papel uma personalidade excêntrica, melancólica, sombria, e, ao mesmo tempo, divertida e muito carismática.
Edward Gorey afirmou certa vez que herdou o dom da ilustração de sua bisavó materna, Helen St. John Garvey, que era uma famosa cartunista de cartões do século XIX, mas o artista, na verdade, esteve cercado pelas artes de todas as formas: seu pai foi, brevemente, um jornalista, e sua madrasta foi Corinna Mura, uma cantora de cabaré que teve um pequeno papel em Casablanca. Enquanto cursou o equivalente ao ensino médio norte-americano, seus colegas de classe incluíram nomes como Charlton Heston, Warren MacKenzie e Joan Mitchell.

Isso tudo não faz um artista, como sabemos. O que faz um artista como Gorey foi sua veia excêntrica, seu humor ácido e cínico e uma morbidez debochada e descontraída.
A Macabra te leva para conhecer um pouco mais desse grande artista e te mostrar algumas de suas artes mais icônicas.
Das capas dos livros aos palcos da Broadway
Gorey iniciou sua vida como ilustrador ainda nos anos de colégio, fazendo algumas artes para os anuários de sua escola. Anos mais tarde ele ingressaria no departamento de artes da editora Doubleday, ilustrando capas de livros e designs tipográficos. Nesta época, ilustrou as capas de grandes clássicos como A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells e Drácula de Bram Stoker — mais tarde, ele retornaria a trabalhar com essa história.

Seu primeiro trabalho escrito e ilustrado por ele mesmo foi publicado em 1953, The Unstrung Harp. Foi na galeria da Gotham Book Mart que Gorey encontrou um ponto fixo para expor seu trabalho, como conta o obituário do artista no The New York Times: “Tornou-se o principal ponto de encontro para o Sr. Gorey, apresentando exposições de seu trabalho na galeria da loja e, eventualmente, transformando-o em uma celebridade internacional”.
Não demorou para que o estilo de desenho original de Gorey chamasse a atenção, com suas ilustrações focando o período vitoriano e eduardiano com um ar sombrio e levemente perturbador. Em um período em que Chas Addams estava em alta com A Família Addams, é curioso como ambos os artistas cartunistas atraíram a atenção com obras que se concentravam no ar soturno e debocharam, de certa forma, de situações sociais.

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As coincidências entre ambos os artistas não param por aí. Em 1977, Gorey alcançou fama internacional por trabalhar no revival da Broadway de Drácula, que, em determinado ponto, foi estrelado por Raúl Juliá — que se tornou o rosto mais conhecido por nós como Gomez Addams.
O design brilhante de Gorey para Drácula

Escrito na década de 1920 por Hamilton Deane e revisado por John Balderston, em parte graças aos esforços de Florence Stoker em sua cruzada contra o Nosferatu de Murnau, foi essa peça que originou o clássico filme de 1931.
Até então, a peça havia sido deixada de lado, mas na década de 1970 o produtor John Wulp decidiu trazê-la de volta, e abordou Gorey para trabalhar no design dos figurinos e cenários da montagem, que contou com a direção de Dennis Rosa e Lloyd Battista como Drácula, estreando no Nantucket Stage Company em 1973. Três anos depois, em 1976, o produtor Eugene Wolsk resolveu levar essa versão para Broadway, ainda com os designs de Gorey, mas dessa vez com Frank Langella como Conde Drácula.

O estilo de Drácula casou muito bem com o design de Gorey. A produção foi estrondosa, conquistando o prêmio Tony de “Produção mais Inovadora de um Revival”, mas foi o trabalho de Gorey, em si, que roubou a atenção. Seus designs, que passam dos cenários e figurinos para os pôsteres, programas e produtos licenciados, se tornaram o ponto alto do espetáculo, e acabou ganhando reconhecimento próprio ao ganhar o Tony de figurino. Depois de três anos em cartaz, Langella deixou o papel principal — tendo estrelado, também, o filme Drácula, de 1979 —, e quem assumiu o protagonismo foi Raúl Juliá.

Depois disso, Gorey ainda criou a macabra abertura da série Mystery!, que era apresentada por Vincent Price, recebendo sua audiência na famosa “Mansão Gorey”.
A galeria sombria de Edward Gorey







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Edward Gorey faleceu em abril de 2000, mas seu trabalho permanece eterno no coração dos amantes do Macabra. Você conhecia o trabalho do artista? Comente com a gente no Instagram e em suas redes sociais.

