Que Peter Cushing e Christopher Lee são alguns dos maiores mestres do terror do século XX já é algo que todos concordamos. A dupla já esteve em uma variedade espantosa de produções do gênero e seguem conquistando corações conforme mais pessoas os assistem por aí. Mas temos o costume de relacionar esses nomes, junto ao de Vincent Price, com a Hammer, quando, na verdade, eles tiveram um escopo de trabalho semelhante — ou até maior — em outra produtora, que fez tanto pelo horror britânico quanto sua precedente: a Amicus.

Conhecida por muitos como rival da própria Hammer e por suas antologias, a Amicus merece a redescoberta por sua produção. A Macabra relembra um pouco a história de algumas das quatro grandes produtoras de terror do século XX e te conta um pouco mais sobre a história da Amicus.

Uma breve história das produtoras de terror
A história dessas grandes produtoras se mescla com a história do terror como gênero porque, ainda nos primórdios do cinema falado, eram elas a verdadeira cara dessa arte. Hoje, nós, como fãs, pensamos muito na autoria do terror — pensamos primeiramente nos diretores, atrizes, atores, os nomes responsáveis pelos roteiros. É isso que nos chama a atenção quando escolhemos o que assistir. Apesar de A24 e Neon serem, por exemplo, constantemente mencionadas como exemplos de sucesso nesse gênero, é nos nomes por trás dos filmes que nos concentramos.
Nesse contexto do século XX, muitas são as produtoras dignas de nota. As de baixo orçamento, principalmente, que mantiveram o interesse pelo gênero mesmo quando o terror não estava em alta. Em grande parte, alguns cineastas eram seus próprios produtores, colocando dinheiro do próprio bolso para produzir e conseguir colocar esses filmes nos circuitos de cinema.

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Mas, quando falamos das grandes produtoras do período, quatro nomes são os que estão mais intrinsecamente relacionados ao terror. A Universal e a RKO na primeira metade do século nos Estados Unidos, e a Hammer e a Amicus no início da segunda metade, no território britânico. Os filmes produzidos por esses quatro nomes não apenas ajudaram a moldar os elementos primordiais do gênero, como ainda hoje são lembrados com carinho pelos fãs.
Primeiro, tivemos a Universal. Graças a ela, os filmes de terror receberam esse nome, e uma grande tradição de filmes de monstros foi iniciada: Drácula, Frankenstein, a Múmia, a Noiva, o Lobisomem, Gill-man e o Homem Invisível — junto do que logo ficou conhecido como a velha casa sinistra — foram os personagens basais dessa leva de filmes, que logo traria ainda mais frutos — crossovers, novos filmes, até mesmo filmes de comédia com Abbott e Costello, dupla cômica de imenso sucesso na primeira metade do século XX.

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A relação entre a Universal e o terror surgiu ainda no início da década de 1930, e se estendeu, no século passado, por pouco mais de 20 anos — uma relação que se iniciou estável e sólida e começou a derreter aos poucos. Hoje, segue fazendo filmes de terror, e constantemente renova seu rol de personagens macabros.
Ao mesmo tempo que a Universal cuidava de monstros, a RKO também garantia seu espaço. Apesar de não ser focada somente no terror, King Kong (1933) foi uma de suas maiores produções, seguido de perto pelos bem-sucedidos empreendimentos de Val Lewton, que fez seu nome e o da RKO brilharem com os filmes dos anos 1940, com Sangue de Pantera (1942) e A Morta-Viva (1943), por exemplo.

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O final dos anos 1950 trouxe um revival dos monstros. Quando a Universal começava a perder forças nesse meio, a Hammer assumiu seu lugar com vários remakes britânicos dos clássicos, entre eles Frankenstein e Drácula, fazendo novamente um enorme sucesso entre o público — principalmente os mais jovens, que agora tinham, também, revistas e vários objetos produzidos diretamente dos filmes para se divertirem.
É nesse cenário, também, que surge a Amicus.

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A Amicus
Criada por dois norte-americanos, Milton Subotsky e Max Rosenberg, a Amicus ficou em atividade entre 1962 e 1977. Um período curto, com uma produção considerada pequena — dentro do terror, pelo menos, foram produzidos cerca de 16 filmes —, mas com alguns dos títulos mais interessantes do período. Com um foco em antologias, a produtora reuniu histórias curiosas e aterrorizantes.

A primeira produção de Subotsky e Rosenberg, que levaria à criação da Amicus, foi The City of the Dead, também conhecido por Horror Hotel. Dirigido por John Llewellyn Moxey — que dirigiu posteriormente alguns episódios de séries famosas como Assassinato por Escrito —, o filme contou com roteiro de George Baxt a partir de uma história do próprio Subotsky. Dentre os nomes do elenco, se destaca o de Christopher Lee.
Na história, uma estudante, para completar um artigo sobre bruxaria, viaja até um vilarejo em Massachusetts para pesquisar o tema. Lá, porém, ela se depara com um estranho coven, que está cometendo sacrifícios em nome do Diabo. Uma clássica história de bruxas, que se passa em um local bastante marcado por esses relatos, mas que possui alguns elementos que merecem destaque, como a construção da narrativa, se assemelhando bastante a, por exemplo, Psicose. Apesar dos temas tão diferentes, a estrutura entre esses dois títulos é facilmente percebida — por exemplo, antes de Pânico se utilizar de uma “protagonista falsa”, esses dois títulos trabalharam esse tema. Bloch, inclusive, passaria a trabalhar com a Amicus em muitos projetos logo em seguida.

Dois dos primeiros filmes da produtora em si, quando já trabalhava sob o nome de Amicus, foram filmes musicais, It’s Trad, Dad! (1962) e Just For Fun (1963), mas nossa intenção é focar na sua produção de filmes de terror. Enquanto muitos confundiram os filmes da Hammer com a Amicus, podemos notar que a Hammer, além de seus monstros clássicos, também habitava muito o imaginário do gótico, enquanto a Amicus se empenhou em produções mais contemporâneas, e foram suas antologias que se tornaram tão icônicas.
As antologias da Amicus
Também conhecidos como “portmanteau filmes”, essas narrativas são construídas a partir de três ou mais segmentos, que podem ou não estar interligados por temas ou autores, e a Amicus dominou essas produções nos anos 1960. Elas podem até não ser tão lembradas por seus nomes, mas seus elementos e características principais foram extensamente utilizadas nos anos seguintes — talvez por suas semelhanças com as histórias de Contos da Cripta e os quadrinhos da EC Comics.

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A primeira delas foi As Profecias do Dr. Terror (1965) onde cinco estranhos em um trem tem suas sortes lidas por um homem que surge na cabine deles. Peter Cushing faz o papel do excêntrico cartomante. Dirigido por Freddie Francis — que posteriormente dirigiu episódios de Contos da Cripta e trabalhou como diretor de fotografia de filmes como O Homem Elefante e Cabo do Medo — o filme foi inspirado, de acordo com Subotsky, que também assume o roteiro, por Na Solidão da Noite (1945) e sua admiração pelo estúdio Ealing. Os títulos dos segmentos também dão pistas sobre os temas de cada um deles: “Werewolf”, “Creeping Vine”, “Voodoo”, “Disembodied Hand” e “Vampire”.
Dois anos depois, a segunda antologia da Amicus seria As Torturas do Dr. Diabolo, dirigida novamente por Francis, mas agora com uma adição interessante: Robert Bloch, autor de Psicose, assume o roteiro do longa. No filme, quatro segmentos contam as histórias de visitantes do show de horrores do dr. Diabolo — interpretado por Burgess Meredith, que ficou mais conhecido nos anos seguintes por interpretar o treinador de Rocky Balboa, Mickey. Peter Cushing também integra o elenco.

Em 1971, que assume a direção da nova antologia da Amicus é Peter Duffell com A Casa que Pingava Sangue, novamente com roteiro de Bloch. Utilizando a casa do título como cenário, os segmentos dessa antologia contam histórias misteriosas de situações que aconteceram ali. Dois dos segmentos são inspirados em histórias da Weird Tales e um da revista Fury. Uma das histórias presentes da Weird Tales, do segmento “Waxworks”, também se encontra creditada no nome de Russ Jones, criador da revista Creepy, mas o mesmo não recebe os créditos no filme.
Contos do Além é a antologia seguinte, em 1972, com o retorno da direção de Francis. No filme, cinco estranhos se encontram em uma cripta e, ao se encontrarem com o guardião do local, têm visões de como morrerão. As histórias dos segmentos aqui foram retiradas de revistas de contos de terror, como a própria Tales from the Crypt — que também é o nome do filme originalmente em inglês. Além dela, também foram usadas The Vault of Horror e The Haunt of Fear. O Guardião da Cripta, contudo, é bem diferente do que nós conhecemos a partir da série dos anos 1980, e quem assume o papel é Ralph Richardson.

Ainda em 1972, a Amicus produz outra antologia: O Asilo do Terror, dirigida por Roy Ward Baker e com roteiro de Bloch, novamente. Na história, para conseguir cumprir uma exigência de emprego, um jovem psiquiatra precisa entrevistar quatro pacientes de um hospital psiquiátrico. Baker havia trabalhado na concorrente anteriormente, em O Conde Drácula (1970) e O Médico E A Irmã Monstro (1971), e retornou à Hammer dois anos depois, com A Lenda dos Sete Vampiros (1974).
A antologia seguinte, A Cripta dos Sonhos (1973), também foi dirigida por Baker. Assim como Contos do Além, todas as histórias vieram de famosas revistas do gênero: dos cinco segmentos, quatro vieram de números da Tales from the Crypt, e um deles da Shock SuspenStories. No filme, cinco homens estão presos no porão de um edifício de escritórios, e acabam compartilhando histórias enquanto esperam.

Por último, e não menos importante, veio Vozes do Além (1974), uma antologia dirigida por Kevin Connor em sua estreia na cadeira de diretor. Aqui, a história se concentra em uma loja de antiguidades e seu misterioso proprietário — interpretado por Peter Cushing.
Os filmes da Amicus
A Amicus também produziu filmes de terror que mantinham uma única história. O primeiro deles — excluindo Horror Hotel da lista, visto que este ainda não levava o nome de Amicus como produtora — foi A Maldição da Caveira (1965), também dirigido por Freddie Francis, com roteiro de Subotsky a partir do conto de Robert Bloch “The Skull of the Marquis de Sade”. Aqui, contracenam juntos Christopher Lee e Peter Cushing.

Em 1966, a Amicus lançou dois filmes de terror: As Bonecas da Morte, com direção de Francis e roteiro de Bloch, e A Picada Mortal, também dirigido por Francis, com roteiro de Robert Bloch e Anthony Marriott, a partir do livro A Taste for Honey, de Gerald Heard. Francis e Bloch, a essa altura, formavam uma boa dupla.
Depois de focar em antologias na segunda metade da década de 1960, a Amicus fez um novo longa, que, na verdade, seria uma das únicas vezes em que o trio parada dura do terror se reuniria em um filme: Grite, Grite Outra Vez!, dirigido por Gordon Hessler, contou com roteiro de Christopher Wicking a partir do livro de Peter Saxon, The Disorientated Man, e foi estrelado por Vincent Price (em um de seus poucos trabalhos para a Amicus), Peter Cushing e Christopher Lee.

Em seguida vieram uma série de adaptações de livros: O Soro Maldito (1971), dirigido por Stephen Weeks, com roteiro por Subotsky a partir de O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson; O Estranho Caso de Jack e Jill (1972), dirigido por Bill Bain, contando com roteiro de Roger Marshall a partir do livro The Ruthless Ones, de Laurence Moody; Os Gritos que Aterrorizam (1973) dirigido por Baker, adaptado do livro Fengriffen, de David Case, com roteiro de Roger Marshall; e A Casa dos Rituais Satânicos (1974), dirigido por Jim Clark, com roteiro coescrito por Ken Levison e Greg Morrison a partir do livro Devilday, de Angus Hall.
E então chegamos ao último filme de terror lançado pela Amicus: A Fera Deve Morrer. Mas este filme merece um tópico só dele.
A Fera Deve Morrer
Infelizmente, esse filme de Paul Annett é pouco lembrado, mas é uma das grandes obras de terror dos anos 1970 e, especificando ainda mais, uma das maiores obras de terror sobre lobisomens.

No filme, Tom Newcliffe (Calvin Lockhart) é um homem rico e um caçador experiente. Ele convoca seis convidados à sua grande propriedade rural, e o que parecia ser apenas uma visita de gentileza logo se transforma em uma caçada: um de seus convidados é um lobisomem, e ele será caçado por Tom. A ambientação do filme é muito interessante, e em certo momento, antes da revelação de quem é a fera, é dado ao público alguns minutos para que cada um faça sua aposta; uma pausa da ação para a interação com a plateia, como em um teatro.

Todas as particularidades que envolvem o enredo, desde ser uma história de lobisomens contemporânea — quando o comum era colocar essas histórias em um passado — até o fato de se ter uma conversa com a audiência, dando espaço para que as apostas fossem feitas, mostra do que a Amicus era capaz ao criar filmes de entretenimento. Suas antologias serviam a esse propósito: como séries em um filme, elas apostavam em unir personagens sob um mesmo perigo e contar histórias diversas; e mesmo seus filmes de histórias únicas conseguiam prender a atenção do espectador.
A Amicus levou o terror para territórios mais estranhos, fragmentados e inesperados criando histórias que pareciam saídas diretamente de pesadelos modernos. Assistir aos filmes da Amicus hoje é satisfatório: você fica preso com aqueles personagens, em suas situações estranhas e histórias macabras, e não percebe conforme o relógio avança. Ainda que as produções sejam de décadas passadas, muitas das mazelas representadas nessas histórias de terror são próximas de nós, garantindo que fiquemos ainda mais empenhados em acompanhar o desenrolar dos fatos. Uma produtora que sempre encontrou novas formas de nos assombrar merece ter seu lugar reconhecido na história do terror no cinema.
E você, já assistiu às produções da Amicus? Qual seu filme favorito da produtora? Comente com a gente no Instagram e em suas redes sociais.

