Revisitando a velha casa sinistra de James Whale

A Casa Sinistra, de James Whale, é considerado um dos maiores filmes de terror queer-coded e gerou seu próprio tropo cinematográfico. Conheça mais sobre a obra.

O início da década de 1930 foi muito importante para nosso gênero favorito. Além de designar, com Drácula, a nomeação oficial para os “filmes de terror”, o período também ajudou a estabelecer muitas características que permaneceriam relevantes nos anos vindouros e que, até hoje, são utilizadas em filmes. 

Um dos maiores exemplos, talvez, seja o que ficou conhecido como “a velha casa sombria” (old, dark house), derivada do filme de 1932 A Casa Sinistra — em inglês, The Old Dark House, que é de onde deriva o nome do tropo. 

A Macabra revisita os mistérios e corredores sombrios que serpenteiam pela A Casa Sinistra e convida você, leitor, a percorrer esses segredos conosco.

A Casa Sinistra de James Whale

Boris Karloff com James Whale no set de Frankenstein, 1931

Antes de tudo, temos que começar do começo. A Casa Sinistra, de 1932, foi a obra que deu o pontapé inicial para que esse tropo se desenvolvesse. A essa altura, James Whale dispensa apresentações: cineasta responsável por grandes filmes da Universal, como Frankenstein (1931), A Noiva de Frankenstein (1935) e O Homem Invisível (1933), sua história foi contada, com toques de ficção, no filme Deuses e Monstros (1998), que contou com a produção executiva de Clive Barker, e onde foi interpretado por sir Ian McKellen. 

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No filme, um grupo de viajantes procura abrigo de uma tempestade em uma antiga mansão. Chegando lá, eles descobrem que o local pertence a uma excêntrica família chamada Femm — composta por Horace (Ernest Thesiger), um homem estranho; Rebecca (Eva Moore), sua irmã malévola; e Saul (Brember Wills), o terceiro irmão, que vive trancafiado no sótão por ser considerado perigoso. As coisas saem completamente do controle quando Morgan (Boris Karloff), o criado da casa, fica bêbado e libera Saul, trazendo o caos para uma situação que já estava desconfortável. Ao longo do filme, segredos são revelados, e os viajantes, que somente buscavam refúgio, passarão por desafios e transformações.

A história do filme pode parecer bastante simples ao público de hoje, já que ela foi vista tantas outras vezes após seu lançamento original. Inspirado no livro de 1927 de J.B. Priestley, considera-se que seu autor tentou colocar os sentimentos dos britânicos no pós-Primeira Guerra Mundial como os personagens na história, carregada de pessimismo. Conforme essa família lhes dá guarida, eles descobrem antigos e sombrios segredos. Com elementos do romance gótico, o livro teve certas inspirações em Jane Eyre, de Charlotte Brontë.

Os outros caminhos da casa sombria

Existem características que transformaram A Casa Sinistra no maior representante do tropo que chamamos de “velha casa sombria”: o grupo de viajantes que chega repentinamente, ou buscando refúgio por algo ou com os caminhos cruzados por pura coincidência; a família ou o dono do local que possui uma certa estranheza; os vários segredos escondidos — ou segredos psicológicos ou físicos, como a presença de passagens secretas e coisas enterradas —; podendo haver assombrações ou mortes, mas não necessariamente nenhum dos dois.

A Casa dos Maus Espíritos, 1959

Apesar de se tratar de uma mansão decadente e aterrorizante, o humor é uma característica presente no filme de 1932, e que sobreviveu na maioria dos filmes da categoria que foram feitos posteriormente. Os Sete Suspeitos (1985), baseado no jogo Clue e também protagonizado por Tim Curry, é um dos exemplos. Outros, que seguem essa mesma linha, são A Casa dos Maus Espíritos (1959), e dois filmes que, apesar de não serem de terror, exploram a casa sombria e o whodunit: Maus Momentos no Hotel Royale (2018) e Entre Facas e Segredos (2019).

Maus Momentos no Hotel Royale, 2018

Além do filme de 1932, William Castle dirigiu um remake que foi lançado em 1963, com o título em português de A Velha Casa Assombrada. O remake perde muito de seus elementos originais, visto que Castle foca em outras questões para os personagens — uma herança sendo disputada, com vários membros da família hospedeira sendo mortos em sequência. Ainda assim, talvez seja a falta do subtexto mais importante do filme original de 1932 do qual os fãs sentem falta no remake de Castle: o subtexto queer.

A Velha Casa Assombrada, 1963

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Clássico, irreverente e queer

James Whale foi um cineasta abertamente gay, em um momento em que poucos sequer falavam sobre o assunto. Mas, em A Casa Sinistra, não era apenas ele: Charles Laughton, que esteve em Testemunha de Acusação (1957) e O Mensageiro do Diabo (1955), também era um homem gay, além de Ernest Thesiger, que era um homem abertamente bissexual. 

Ernest Thesiger como Horace Femm

Elspeth Dudgeon também está no filme. Você já deve tê-la visto em um vídeo viral de transformação feita somente com luz e sombras no filme Sh! The Octopus, de 1937. Em A Casa Sinistra, ela interpreta o patriarca da família, Roderick Femm, e é creditada como John Dudgeon. Apesar de não se ter notícias de que Dudgeon tenha sido homossexual, é uma escolha interessante de papel para ela.

Elspeth Dudgeon no filme Sh! The Octopus

Esses detalhes podem não fazer um filme queer, mas eles são auxiliados por outros pontos ao longo do próprio roteiro. É muito observado pelos fãs como os personagens masculinos, em sua maioria, possuem uma certa feminilidade e delicadeza dificilmente vistas nos papéis masculinos da época. Para além disso, a própria repressão de Rebecca, a irmã maligna, e suas obsessões pelos segredos sórdidos dos outros, são apontadas como um sinal de que haveria algo, ali, que ela quisesse esconder. É Rebecca, aliás, quem assume a posição dominante da casa, em contraposição à de seus irmãos — um, escondido no sótão; o outro, delicado demais para o trabalho de comandar a casa.

Boris Karloff como Morgan

Como aponta o artigo “Pre-Code Queerness in James Whale’s ‘The Old Dark House’”, de Sam Moore, “Os filmes de Whale frequentemente exploram ideias queer ao apresentar uma perspectiva que demonstra simpatia por aqueles que são considerados forasteiros, pessoas percebidas como antinaturais. Embora isso seja mais explícito em seus filmes de Frankenstein — a Criatura e sua Noiva são literalmente criadas de uma forma que contraria o mundo natural —, a mesma perspectiva é utilizada com os moradores “sem Deus” da Casa Sinistra. Essa simpatia é empregada em conjunto com ideias de camp para criar um retrato da identidade queer que poderia prosperar sob as condições não regulamentadas da Hollywood pré-Código Hays, sem a necessidade de se preocupar com censura ou decência moral”.

É no personagem de Morgan, porém, que reside o maior ponto para a leitura “queer-coded” da obra de Whale. Interpretado por Boris Karloff, o criado silencioso se parece com uma criatura sombria, mas é ao final, após Saul ser libertado, que percebemos momentos de verdadeiro afeto e companheirismo entre os dois homens. Morgan seria, então, tão calado, por reprimir a si mesmo e acompanhar, silenciosamente, Saul em seu cativeiro? 

Morgan e Saul

Não podemos ter certeza de nada, mas dado o contexto, os fãs têm muitos pontos válidos para ter uma leitura de que A Casa Sinistra seja uma obra queer.

A Casa Sombria do dr. Frank-N-Furter

Viajantes que buscam refúgio de uma tempestade em uma mansão sinistra, em que os moradores escondem grandes segredos e passam, eles mesmos, por muitas transformações. Não é apenas a sinopse de A Casa Sinistra mas, de certo modo, também a sinopse de The Rock Horror Picture Show, clássico do terror musical dos anos 1970.

The Rocky Horror Picture Show, 1975

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Quando pensamos em horror queer, um dos filmes mais citados é justamente The Rock Horror Picture Show. O dr. Frank-N-Furter, que canta abertamente “Sweet Transvestite”, com seu visual com corsets, muita pele e muita maquiagem, é um dos maiores ícones para os fãs queer de terror.

Apesar de se inspirar em muitas das obras de terror dos anos 1950 e 1960, a inspiração base em Frankenstein é muito clara. E, depois de olharmos a sinopse lado a lado, fica também bastante óbvia a inspiração no trabalho de James Whale como um todo. Um dos pais do terror como conhecemos e do horror queer merece, mesmo, todas as homenagens.

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Acordo cedo todos os dias para passar o café e regar minhas plantas na fazenda. Aprecio o lado obscuro da arte e renovo meus pactos diariamente ao assistir filmes de terror. MACABRA™ - FEAR IS NATURAL.