Nosso gênero favorito gosta de trabalhar com o que há de mais humano em nós: nosso medo — que, na maioria das vezes, está ligado à nossa segurança, seja ela física ou mental. Muitos teóricos afirmam que assistir a um filme de terror ajuda a lidarmos com situações estressantes, pois estamos em um ambiente controlado. O corpo, entretanto, nem sempre compreende isso.

Para além disso, nosso corpo, em si, é uma máquina errante. Doenças, possibilidades infinitas de problemas, dos pequenos vírus aos grandes horrores que podem nos acometer — como a coleção Medicina Macabra nos mostra tão bem. Diante da imprevisibilidade do que é biológico, podemos estar em constante perigo. Esses filmes de terror apelam para os limites do nosso corpo, nos fazendo suar e tremer diante de imagens de transformação e mutação.
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A Macabra te leva em uma jornada sobre como o corpo pode ser um lugar assustador, e como o terror se aproveita disso.
Evolução, mutação e hereditariedade
Dentro da multiplicidade de teorias sobre o tempo que o ser humano habita a Terra e como chegamos onde chegamos, uma das mais pensadas e que tem mais adeptos é a evolução. Calma, não vamos reproduzir as aulas de biologia do ensino médio. Mas você, leitor, já parou para pensar em como essa teoria está tão ligada a algumas vertentes e filmes de terror?

Antes de tudo, é preciso relembrar: quando falamos sobre evolução, a primeira pessoa que nos vem à cabeça é Darwin. A evolução que compreendemos hoje, enquanto ciência, entretanto, é um pouco diferente daquela descrita pelo cientista em A Origem das Espécies e outros livros. Apesar de ainda ser um marco na história da biologia, algumas outras descobertas mudaram e complementaram (e seguem mudando e complementando) o que sabemos sobre o ser humano, principalmente em relação ao DNA e tantas outras partezinhas minúsculas que fazem de nós o que nós somos, criaturas imperfeitas e que são cheias de possibilidades de “defeitos”.
Utilizando brevemente o artigo da Wikipedia sobre evolução, para que possamos compreender, como leigos, do que se trata, fica aqui a explicação: “Do ponto de vista genético, a evolução pode ser definida como qualquer alteração no número de genes ou na frequência dos alelos de um ou um conjunto de genes em uma população e ao longo das gerações. Mutações em genes podem produzir características novas ou alterar as que já existiam, resultando no aparecimento de diferenças hereditárias entre organismos”.

A essa altura, você, leitor, deve estar entendendo onde estamos querendo chegar: evolução e mutação caminhando juntas em um futuro desconhecido. Sabemos que este é, inclusive, o terreno do terror. Quando Lovecraft escreveu que o medo mais profundo do ser humano é o medo do desconhecido, ele não falava apenas de criaturas místicas e sobrenaturais advindas do mais distante espaço cósmico, mas também do que não conseguimos compreender propriamente, do desconhecido tangível. E o que é mais desconhecido para nós do que nós mesmos? E o que ainda não descobrimos sobre o que podemos fazer? Nossos limites e possibilidades?
A ciência da mutação
A questão da mutação nos filmes de terror não está restrita à mutação em corpos humanos. A maioria dos filmes que lidam com esse tema, inclusive, trata de mutações em animais. Tendo início na década de 1950, com criaturas mutantes criadas a partir de acidentes nucleares, essas produções marcaram o período por estarem tão entranhadas naquele contextos, como O Monstro do Mar (1953), Godzilla (1954), O Mundo em Perigo (1954) e Tarântula! (1955).

Na mesma década também houve a mutação gerada a partir de testes científicos conduzidos pelos próprios humanos, como é o caso de A Mosca da Cabeça Branca (1958). Servindo como “conto preventivo”, esses filmes geralmente não terminavam bem: os cientistas, tentando “brincar de Deus”, acabavam com sérios problemas — mortos ou mutantes. Algo que vimos com frequência no século XIX, com Frankenstein, de Mary Shelley, O Homem Invisível, de H.G. Wells, ou O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson.
É curioso pensar que esses livros, no século XIX, que falavam sobre alguns dos “malefícios” da ciência — ou, mais objetivamente, da falta de responsabilidade científica —, tenham sido obras tão bem recebidas em um momento crítico para as descobertas científicas. Os anos 1950 lidaram com os avanços da ciência — e as destruições causadas por eles — de forma bastante parecida: com obras que questionavam, de certo modo, até onde essas descobertas eram seguras — fisicamente, mentalmente ou espiritualmente.

O campo do horror se torna fértil em momentos em que discussões externas sobre nós mesmos estão em alta. No caso de avanços médicos e tecnológicos, ou nas mudanças de perspectiva a respeito desses dois temas, o terror sofre uma abundância de produções que se debruçam a questionar essas escolhas. Nosso corpo, nesse momento, se transforma no fio condutor dessas questões.
Nos anos 1950, A Mosca da Cabeça Branca age como esse sinal de aviso de perigo, assim como os filmes de monstros mutantes gigantes: para onde estamos indo com esses testes científicos? Estamos nos transformando e as outras criaturas que habitam esse espaço, é melhor termos cuidado.
Os limites do corpo
A discussão parecia ter arrefecido um pouco nos anos 1960 e 1970 com outras preocupações no mainstream, como assassinos seriais e a intromissão do diabo nos assuntos maternais, em ambos os casos atacando criancinhas, adolescentes e casas do subúrbio norte-americano, até que o final dos anos 1970 e 1980 nos trouxeram de volta à ficção científica questionando o corpo humano e suas possibilidades a partir dos contextos daquele período. Filmes como Viagens Alucinantes (1980) e Do Além (1986) são alguns que marcam o período, bem como A Sociedade dos Amigos do Diabo (1989).
É neste momento que tecnologia entra de vez em cena, e o corpo passa a ser uma preocupação ainda maior. David Cronenberg fez história com sua sequência de produções que trabalham diretamente com esse tema, como Scanners: Sua Mente Pode Destruir (1981) e Videodrome: A Síndrome do Vídeo (1983).

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Enquanto o body horror cinematográfico de Cronenberg está em alta e se debruça em como a tecnologia pode agir junto ao corpo humano para criar armas poderosas e terrores absolutos, na literatura as coisas não são tão diferentes, e o nome que amplifica esse tipo de medo é Clive Barker. A estética BDSM, que nos leva a imaginar a dor sendo levada aos limites do prazer; o sagrado e o profano caminhando de mãos dadas em direção ao desconhecido; o sobrenatural convivendo com o mundo natural e fazendo pactos… Barker, em suas produções, (sejam elas as cinematográficas ou literárias), explorou o corpo humano — e a mente — de diversas formas.

Nesses dois casos, e em uma grande parte do body horror dos anos 1980 e 1990, o medo não estava exatamente no que viria a seguir, no próximo passo da evolução ou da mutação, mas sim do que o corpo já era capaz e poderia fazer. Suscetível a doenças e reações das quais mal podemos imaginar, o horror corporal desse momento, protagonizado principalmente por Cronenberg e Barker, estão mais preocupados nesse limite, nessas possibilidades aterradoras.
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Externalizar cada vez mais o interno
Esse movimento seguiu crescendo ao longo dos anos seguintes. Se antes esses filmes que lidavam com a biologia do corpo eram sobre internalizar o externo — com as pesquisas científicas, as tentativas de evoluir o ser humano e trazer os limites para dentro do corpo —, os anos 1980, principalmente, viram essa chave, e passam a ser, então, o contrário: é o que está dentro que quer sair. Nos últimos vinte anos, o body horror dirigido por mulheres, principalmente, tem sido certeiro nesse ponto.

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Alguns desses filmes utilizaram o canibalismo como metáfora — Em Minha Pele e Grave são dois dos exemplos mais flagrantes, ambos utilizando questões internas dessas mulheres protagonistas que, quando externalizadas, exploravam os limites corporais. Fora do canibalismo, outros sentimentos (e, novamente, com forte protagonismo feminino) são explorados: da maternidade ao desejo e a pressão de que o corpo seja atraente, os exemplos são Titane, Huesera, A Substância e A Meia-Irmã Feia, entre tantos outros.

Independentemente do ano, da década, ou do contexto, os filmes de terror — principalmente quando falamos do body horror — utilizam nosso corpo como o campo de batalha que ele é e sempre foi: a biologia nos mostra sua fragilidade e força, resistência e debilidade. Quanto mais descobrimos sobre esses corpos que habitamos, mais temos certeza que eles existem em um equilíbrio muito próprio — e que muito ainda nos é desconhecido. E é nesse terreno que o terror age.
O corpo é a única casa que nunca podemos abandonar, e justamente por isso precisamos entender como o horror mora conosco.
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